por Lara Oliveira (la.oliveira@usp.br)
A infância é um período ingênuo e mágico na mesma proporção em que é complexo e determinante para cada pessoa. Isso não significa que aquilo que se aprende no início da vida determina como o restante dela será, mas certamente o lar onde crescemos molda nosso comportamento e visão de mundo.
É deste caráter emblemático que a indústria cinematográfica parte para retratar crianças e, em alguns casos, o processo de adoção. Às vezes o tema não tem muito destaque – mas os personagens reforçam que são ‘pais adotivos’ – e outras, é apresentado como uma saída perfeita de orfanatos e lares adotivos. Seja qual for a abordagem escolhida, o cinema provoca uma reflexão muito relevante a respeito do ato da adoção no Brasil.
A proteção da infância
Reino da Lua Nascente (Moonrise Kingdom, 2012) narra a história de Sam (Jared Gilman), um menino órfão peculiar, que se apaixona por Suzy (Kara Hayward) com quem foge em uma longa caminhada pela ilha onde vivem. O filme de Wes Anderson possui uma estética colorida e lúdica que remete à infância, mas a sua narrativa crítica fortemente a negligência familiar sofrida pelo protagonista.
No início da trama, Sam relata ter sido adotado por um casal há aproximadamente um ano. No entanto, após fugir de seu acampamento de escoteiro para se aventurar ao lado de Suzy, seus responsáveis informam às autoridades que não queriam receber o menino de volta por considerá-lo ‘emocionalmente perturbado’.
A partir daí, inicia-se uma intensa busca para encontrar as crianças perdidas e, principalmente, um novo destino para Sam. Os pais adotivos somem de cena, assim como qualquer ideia de estabilidade e afeto existentes na cabeça do protagonista. A assistente social encarregada do caso informa de modo quase robótico o que seria feito, em contraste com a atenção esperada de tais instituições de apoio. Capitão Sharp, interpretado por Bruce Willis, e o monitor chefe do acampamento são os únicos personagens que demonstram empatia com a situação.

da história de Sam
[Imagem: Reprodução/TMDB]
Capitães da Areia (2011), adaptação do clássico romance de Jorge Amado para o cinema, retrata como um grupo de adolescentes pobres reconstrói a vida após serem abandonados por suas famílias e pelo Estado. Os ‘Capitães’ vivem em um trapiche na parte baixa de Salvador, onde praticam assaltos e delitos para o próprio sustento.
Apesar dos crimes cometidos, os jovens demonstram uma lealdade ímpar entre si. O filme dirigido por Cecília Amado, neta do autor, expõe as consequências da negligência sofrida pelos personagens em múltiplas camadas: a ausência do afeto familiar, a adultização precoce e a necessidade de escapar de mecanismos de opressão, como o Reformatório de Menores – para onde eles eram enviados caso fossem capturados pela polícia.
O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), principal legislação responsável por promover os direitos dos jovens no Brasil, prevê que qualquer tipo de abandono ou negligência parental é crime, dado que cabe aos pais oferecer apoio emocional e estar presente no cotidiano da criança.
Sabe-se que, na prática, o abandono pode ocorrer de diversas formas, mesmo que haja responsáveis legais pelo menor. Em Reino da Lua Nascente, por exemplo, a rejeição ao garoto é total: ele recebe a notícia por meio de uma fria carta de despedida e precisa contar com o apoio dos poucos adultos com quem convivia para se restabelecer.
Em entrevista ao Cinéfilos, a psicóloga Flávia Sampaio, pós-graduada em psicologia analítica, explica que a responsabilidade parental por uma criança implica oferecer cuidado e atenção, assim como momentos de descontração e brincadeira sem deixar de impor limites. “A ausência de tudo isso, ainda que haja uma presença física de um pai ou uma mãe biológica, se caracteriza como abandono.”
Ela reforça que, quando não são impostos limites na educação do jovem, seu inconsciente pode assumir que ele não é amado ou cuidado, levando à uma carência emocional que perdura para além da infância. Esse fator também impacta o comportamento da criança e a relação de confiança construída entre ela e os cuidadores.
O retrato da adoção
O ato da adoção demanda muito mais do que apenas receber uma pessoa em sua vida, mas sim torná-la parte de sua família. A complexidade do processo está, dentre outros fatores, em reconhecer que a criança possui sua própria origem – mesmo que tenha sido adotada nas fases iniciais de seu desenvolvimento.
Esse é o elemento que guia a narrativa de Lion: Uma Jornada para Casa (Lion, 2016), filme baseado na história real de uma adoção inesperada. O protagonista, Saroo (Dev Patel), é um menininho indiano de 5 anos que se perde do irmão mais velho em uma estação de trem e nunca mais encontra o caminho de casa. Anos depois, sente que precisa encerrar esse ciclo para seguir em frente.
Saroo foi adotado por um casal de australianos após pouco tempo em um orfanato. Ainda que tivesse estabilidade financeira e um vínculo afetuoso com os pais adotivos, não conseguia abandonar as memórias de sua família biológica. Tal conexão é retratada visualmente no longa quando são intercaladas cenas do personagem adulto com flashbacks de sua infância, reforçando como a figura daquele menino abandonado permanecia viva.
Flávia Sampaio pontua que esse movimento é bastante comum em casos de crianças adotadas que vêm de outra família. Isso porque os vínculos com os ‘cuidadores primários’, sejam positivos ou negativos, já foram estabelecidos e formam a base dos relacionamentos futuros do indivíduo – de acordo com a Teoria do Apego, desenvolvida pelo psicanalista inglês John Bowlby na década de 1950.

O protagonista inicialmente oculta o desejo de buscar por sua terra natal de seus pais, por acreditar que estaria sendo ingrato por tudo que eles haviam lhe proporcionado. Mesmo assim, ele eventualmente compromete seu relacionamento com eles e com a namorada, Lucy (Rooney Mara), para responder aos questionamentos a respeito de sua origem. Saroo sentia uma conexão tão próxima com seus parentes biológicos que parecia impossível esquecê-los.
Em relação à isso, Flávia, que passou pela experiência da adoção, relatou que teve dificuldade em impor limites à interferência da família biológica na criação da filha. Para ela, essa insistência vem da ideia de que os familiares biológicos continuariam sendo os verdadeiros responsáveis pela criança, mesmo após a constituição de um acordo legal por sua guarda.
Outro elemento curioso da trama de Lion é o fato do casal ter optado por adotar dois meninos, ainda que pudessem ter filhos biologicamente. Sue afirma que a escolha foi feita, pois ela e marido estavam cientes da quantidade de pessoas existentes no mundo, sobretudo crianças esperando por um lar. Infelizmente, na realidade do Brasil, essa não é a opção mais recorrente entre as famílias.
Segundo dados do Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento, divulgados pelo projeto Adote um Boa-noite, há cerca de 4,5 mil crianças nessa condição, enquanto mais de 35 mil responsáveis esperam por uma resposta no processo de adoção. A organização aponta a idade como principal empecilho, uma vez que grande parte dos jovens tem mais de 7 anos, contrastando com o desejo da maioria de adotar crianças mais novas.
A psicóloga reforça esse fator com um dos obstáculos relacionados à adoção no país, já que com a priorização de um perfil específico, muitas crianças permanecem nos orfanatos e abrigos com pouquíssimas chances de encontrar uma família.
Ela ressalta que a vivência dentro desses locais é marcada pela predominância do coletivo, ou seja, as roupas, brinquedos e até mesmo os cuidadores são compartilhados. Essa rotina pode dificultar a adaptação a uma nova família, em razão dos traumas causados pela ausência de uma figura paterna e/ou materna de referência.
É a partir da abordagem de desafios como esses que o espectador consegue avaliar se uma produção é ou não fiel à realidade das crianças institucionalizadas. No caso de Lion, nota-se em dois momentos cruciais que o diretor Garth Davis tem um compromisso com a veracidade da narrativa, especialmente por ter um roteiro baseado em acontecimentos reais.
Primeiro, o fato de Saroo ter sido ignorado na estação de trem por dias representa, metaforicamente, como o abandono infantil não recebe a devida atenção na sociedade. A relação é ainda mais evidente quando o primeiro ato de solidariedade que ele recebe vem de outra criança, mesmo com dezenas de adultos passando ao seu redor diariamente.
O outro caso é quando seu irmão adotivo, Mantosh (Divian Ladwa), chega à sua casa pela primeira vez e reage agressivamente à tentativa de aproximação dos pais. Isto demonstra que, embora tenham vindo da mesma instituição, os meninos carregam marcas distintas do período sem convivência familiar, repercutindo na aceitação do processo adotivo.

[Imagem: Reprodução/TMDB]
Rebeldia infantil e a busca por pertencimento
A caracterização da infância traz consigo a subjetividade dos sentimentos comuns desta fase. Criar personagens infantis tende a ser desafiador, pois o roteiro deve se aproximar ao máximo da lógica que guia a racionalidade da criança sem simplificá-la ou torná-la adulta demais.
Em O Senhor das Moscas (Lord of the Flies, 1990), a segunda adaptação cinematográfica da obra de William Golding, o comportamento de um grupo de meninos abandonados em uma ilha diverge radicalmente daquilo que se espera da infância. A violência guia as ações dos jovens, cuja prioridade de sobrevivência vai sendo deixada de lado à medida que o conflito entre as diferentes ‘tribos’ se acentua.
Os personagens se dividem em dois grupos: um liderado por Jack (Chris Furrh), caçador nato que representa a impulsividade e rebeldia desde o início da convivência; e o outro por Ralph (Balthazar Getty), líder eleito pela maioria dos garotos por sua seriedade e preocupação com as regras.
O longa, dirigido por Harry Hook, acompanha as intrigas e desafios enfrentados pelas crianças, que passam a viver sem a presença de adultos. A liberdade, poder e ausência de limites inéditos, contudo, transformam-se aos poucos em um medo e desespero igualmente desconhecidos.
O único adulto sobrevivente do acidente que coloca os personagens na ilha é o piloto, Capitão Benson (Michael Greene). O homem começa a delirar aos poucos e ao invés de proporcionar segurança aos meninos, é interpretado como um monstro que eles temem e, eventualmente, matam. Simon (James Dale) e Piggy (Danuel Pipoly), duas figuras de destaque na trama, também acabam mortos pelo comportamento dos pequenos selvagens.

[Imagem: Reprodução/IMDB]
A reflexão mais comum de O Senhor das Moscas refere-se à perda da inocência e aos impactos de ter uma infância tão traumática. Uma análise mais profunda da obra, por outro lado, questionaria como adultos teriam se comportado na mesma situação. Em outras palavras: os meninos agiram de tal forma por seus instintos “rebeldes” ou com base naquilo que observavam em pessoas mais maduras?
Do mesmo modo que explora a desobediência infantil, o cinema pode desenvolver filmes a partir da busca por afeto e pertencimento. Em Reino da Lua Nascente, a narrativa é centrada na ideia de fuga, retratando como crianças abandonadas costumam ‘fugir’ das instituições em busca de amor e carinho. Sam e Suzy, por exemplo, só vivenciam esses sentimentos na relação que constroem entre si.
Outro fator excêntrico do longa é a inversão de papéis. As crianças são atipicamente maduras, enquanto os adultos aparentam não deter controle sobre as próprias vidas e portam-se de forma quase infantil. A cinematografia de Robert Yeoman transforma o filme em um verdadeiro ‘faz-de-conta’, proporcionando ao espectador uma interpretação singular do protagonismo infantil.

antes de fugirem de casa
[Imagem: Reprodução/TMDB]
Flávia Sampaio frisa que essa representatividade é fundamental para que a compreensão das emoções das crianças, sobretudo aquelas que foram adotadas, seja mais humanizada no imaginário popular. O cinema contribui para conscientizar a sociedade a respeito de questões pouco discutidas em relação à infância e mostrar às crianças e adolescentes que suas histórias são reconhecidas.
“Tudo que se conecta com a arte ajuda no processo de entendimento e elaboração.”
– Flávia Sampaio
