Por Laura Cristofoletti (lauracristofoletti@usp.br)
Sete dias até a folga
Na terça-feira, eu escolhi a gravata azul no lugar da verde. Me revirei na cama com essa ideia no pensamento, ansioso para contar para Cristina da mudança, mas já eram 5h da manhã, e minha mulher já havia partido para a estação de trem. Essa é a nossa rotina. Ela acorda às 4h, deixa tudo pronto para quando eu e Miguel, meu filho, acordarmos, e então sai como se nunca tivesse estado ali. Apenas um vulto em movimento que logo desapareceu para correr até o Terminal Lapa.
Às 5h, me levantei também e me apressei para me vestir e acordar o Miguel. Vesti a camisa branca, a calça social preta e, finalmente, amarrei a gravata azul em volta do colarinho. Cristina a havia comprado para mim dois anos antes, afirmando que seguia a vestimenta pedida pelo Rogério Sonsini, meu patrão, no restaurante e que eu merecia ter alguma opção a mais. Na época, não vi motivo para a alternativa. Na verdade, até aquele momento, havia praticamente esquecido da existência dela, mas acordara com a ideia de usá-la e surpreender minha esposa. Talvez de noite eu conseguisse mostrar, pensei.
Em uma hora, eu e Miguel estávamos prontos para sair e já andávamos em direção à casa dos meus pais, que cuidariam dele pela manhã e deixariam-no na EMEI à tarde. Meu filho me deu um beijo no rosto e me perguntou novamente se eu estaria presente na comemoração do Dia dos Pais promovida pela escola no sábado. Não soube como dizer “não” para ele, então só lhe disse que “papai estava cuidando disso ainda”. Abracei-o e me despedi com lágrimas nos olhos. Como se quebra o coração de um menino de cinco anos?
Às 6h30 , o trem chegou na estação e comecei minha jornada de duas horas até o restaurante. Duas baldeações depois, entrei no ônibus já com a certeza de que iria me atrasar para meu turno das 8h30, então decidi relaxar e sentar um pouco. Busquei entretenimento ouvindo a conversa entre o cobrador e outro passageiro, que discutiam uma nova lei que estava sendo votada entre os deputados. Algo sobre diminuir o tempo de trabalho permitido para a população, mudar a escala de horas. Sorri ao pensar em poder passar um dia a mais com meu filho, mas logo me lembrei de que pessoas como eu não decidem coisas como essa por aqui. Na verdade, pessoas como eu não podem decidir nada.

Cheguei no restaurante e passei as próximas 11 horas limpando mesas, servindo clientes e pensando no Miguel. Tentei debater com Rogério sobre mudar meu dia de folga de terça-feira que vem para esse sábado, mas fui recebido logo com uma risada sarcástica e a resposta mais costumeira dele: “Se eu te ajudar agora, todos vão querer mudar as folgas também. Entende como isso me complica?”. Argumentar com ele não levava a nada. Nunca levaria a nada enquanto ele continuasse ganhando em cima da minha insalubridade.
Voltei para o transporte público e, em um período surpreendentemente rápido de uma hora e meia, cheguei em casa por volta das 21h. Cristina, que havia saído do trabalho antes e já havia preparado o jantar, estava agora deitada no sofá com os olhos quase fechados enquanto Miguel assistia a um desenho sentado ao lado dela. Aproximei-me e mostrei-lhe a gravata azul, para a qual ela apenas sorriu, e logo já me perguntou se eu lembrava da consulta médica que havia marcado para Miguel na próxima terça; meu único dia de folga.
A consulta seria às 9h em uma Unidade Básica que ficava a uma hora de distância de ônibus da nossa casa. Para chegar a tempo, acordaríamos às 7h para sair de casa às 8h e torceríamos para Miguel ser atendido pelo pediatra até às 10h, horário ainda viável para que pudéssemos estar de volta ao meio-dia. Às 13h, Cristina voltaria ao trabalho, Miguel iria para a creche e eu ficaria em casa limpando-a, trabalho que, provavelmente, me levaria a tarde toda. Pelo menos, eu poderia sonhar com uma noite tranquila com meu filho e com um raro jantar sem pressa com minha esposa.
Uma hora depois, eu e Cristina nos deitávamos e então, cinco minutos após encostar a cabeça no travesseiro, já ouvia a respiração forte e sonolenta dela ecoar no quarto. Minha mente, no entanto, continuou a rodar em círculos por um bom tempo depois disso. “Será que seria possível compensar minha ausência no Dia dos Pais em um mero jantar em uma terça comum?”, eu pensava. Eu teria que falar a verdade para ele no dia seguinte, sem falta, e talvez já contar que teríamos uma comemoração só nossa durante a minha folga. Refleti sobre o assunto até dormir de exaustão e sonhei com um mundo onde todos os pais podiam aproveitar a infância de seus filhos.
Cinco dias até a folga
Pela manhã de quinta-feira, enquanto organizava os copos do restaurante, Márcio me chamou de canto e perguntou se eu tinha assistido ao jornal hoje. Márcio era um garçom do restaurante e talvez um dos meus únicos amigos até aquele momento. Ex-membro do SINTHORESP, ele sempre me atualizava sobre assuntos da política dos quais eu não tinha o menor interesse em procurar saber sozinho. “Esse tipo de coisa não é pra gente como a gente”, eu dizia para ele.
Quando respondi que não, ele logo foi ligar a televisão do salão do restaurante, que ainda estava vazio, para me mostrar as notícias do dia. A manchete já apareceu no primeiro clique: “Fim da escala 6×1: Câmara aprova PEC que reduz jornada de trabalho”, em letras garrafais. Era disso então que o cobrador e o outro passageiro estavam falando, pensei. Isso realmente era uma possibilidade, algo que estava prestes a acontecer. Um dia a mais de descanso significaria tanto, para mim, para Cristina, para Miguel…. Pedi para Márcio me inteirar do que aquilo significava na prática e ele pôs-se a discursar:
“Em 2023, esse cara chamado Rick Azevedo publicou um vídeo no TikTok, contando a rotina de trabalho dele, a escala horária insalubre dele, e viralizou nas redes”, ele disse. “Muita gente se identificou com as pautas que ele trouxe, sobre como trabalhar seis dias por semana e folgar só um acabava com a saúde mental dele. Foi algo que ressoou em muita gente porque isso é a realidade de boa parte da população. Gente como a gente”, e eu assenti enquanto ele sorria sarcasticamente pra mim.

“No vídeo, ele fazia um chamado para todos os trabalhadores se unirem contra a escala 6×1 e, depois disso, começou um movimento nas redes sociais chamado Movimento VAT, de Vida Além do Trabalho, que envolveu uma petição on-line que pedia para que o Congresso implementasse uma jornada de trabalho menos exaustiva”, ele explicou enquanto eu continuava a empilhar copos de vidro com cuidado. “Pelo que eu vi, essa petição já conseguiu mais de três milhões de assinaturas.” Tanta gente assim, eu pensava, tantos que, como eu, não conseguem aceitar que isso seja algo normal.
“A repercussão dessa petição foi tão grande que a Érika Hilton resolveu se envolver e encabeçou uma Proposta de Emenda à Constituição que apoiava a redução da escala horária dos trabalhadores, PEC essa que acabou de ser votada e aprovada na Câmara”, ele finalizou.

Fiquei em silêncio enquanto absorvia as informações que ele havia acabado de despejar em mim. Havia um futuro em que eu poderia estar presente nas apresentações do meu filho e aproveitar mais do que apenas a respiração sonolenta da minha esposa. Existia um futuro em que milhões de brasileiros poderiam viver uma vida além das 44 horas laborais por semana.
“E agora?”, eu perguntei. “Quando isso entra em ação?”. Márcio respondeu que a proposta ainda precisa ser votada pelo Senado, mas que, pela pressão imposta pela população e pelo próprio presidente, isso não deveria levar tanto tempo. Assenti e voltei a empilhar os copos, como se nada tivesse acontecido.
Meu turno chegou ao fim muitas horas depois e, por um milagre, consegui um assento vago no trem de volta para casa. Olhei ao meu redor e vi tantos rostos diferentes, mas que provavelmente dividiam a mesma aflição que eu. Questionei-me se eles ainda sonhavam com algo que fugisse do cotidiano deles. “Será que aquela senhora apoiada nas portas do vagão gostaria de sair do país algum dia?”, pensei. “Será que esse garoto sentado na minha frente pensa em fazer uma faculdade?”. Torci para que eles descobrissem as respostas dessas perguntas. Torci para que pudessem sonhar algum dia.
3 dias até a folga
No sábado, acordei feliz. Perderia a apresentação de Miguel de noite, mas sentia que as coisas estavam prestes a mudar. Me levantei enquanto Cristina, em seu dia de folga, ainda dormia pacificamente. Vesti meu uniforme sem pressa, fiz meu café em paz e parti para a estação depois de dar um beijo na testa de Miguel em sua cama. “Papai vai estar aqui para sempre, filho”, sussurrei enquanto ele roncava.
Naquele dia, a viagem de mais de duas horas não me pareceu tão longa assim. Passei boa parte do meu tempo no transporte público pensando em lugares para levar Cristina e Miguel quando a PEC fosse aprovada. Diana, uma cozinheira que trabalhava no restaurante, havia me contado sobre uma viagem para Paranapiacaba (SP) que havia feito alguns meses antes. Talvez fosse um lugar legal para levá-los também, em uma folga minha em que eu não precisasse perder meu dia todo fazendo a manutenção de uma casa em que eu mal ficava.
No restaurante, fiz meu melhor trabalho em meses. Atendi mais mesas do que nunca, antecipei a necessidade dos clientes e recebi uma gorjeta extremamente generosa de um deles. Foi como se a mera expectativa de um descanso equivalente ao meu cansaço já fosse capaz de me tornar mais produtivo. Imaginei como eu poderia me tornar um melhor funcionário caso esse descanso fosse efetivado.
Às 17h30, Rogério apareceu no salão e chamou alguns garçons para conversar no escritório dele. Ele chamou meu nome por último e, acuado, caminhei até a sala dos fundos junto de alguns colegas. A ansiedade foi desnecessária, porque quando chegamos lá, ele apenas avisou que seríamos liberados às 18h naquele dia, devido a um evento privado que ocorreria naquela noite.
Extasiado, comecei a me acelerar para terminar minhas tarefas e servir minhas últimas mesas o mais rápido possível. Se tudo corresse bem, eu poderia ainda aparecer no final da apresentação de Miguel; ver meu filho sorrindo valeria a toda a pressa. Na rua após sair do restaurante, não acreditava que tudo estava indo tão bem. Sorri sozinho e me questionei se aquele era o momento em que as coisas iam melhorar, e essa foi a última coisa que pensei antes das luzes dos faróis do ônibus se aproximarem demais de mim.
Já deitado sem respirar no pavimento do tráfego movimentado, pensei: “amanhã, vou vestir a gravata azul de novo.”
