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Do capitalismo ao tecnofeudalismo: conheça a nova ordem que controla sua vida digital

Conceito criado pelo economista Yanis Varoufakis explica como as Big Techs deixaram de apenas vender produtos para se tornarem donas das estradas onde a economia circula
Na imagem, uma montagem de mulheres inglesas com faces de redes sociais, demonstrando o tecnofeudalismo
Por Murilo Bezerra (murilobezerra@usp.br)

Você já parou para pensar por que a Uber não é dona de nenhum carro, o Spotify não produziu as músicas que você ouve e o iFood não tem uma cozinha sequer? Esse modelo de negócio, no qual empresas gigantes apenas controlam o “caminho” entre quem vende e quem compra, é a base de uma teoria chamada tecnofeudalismo. 

O termo foi criado pelo economista grego Yanis Varoufakis no livro “Technofeudalism: What Killed Capitalism” (2023) para explicar que o mundo mudou: não vive mais apenas no capitalismo de fábricas, mas em um sistema de “feudos digitais”. Em entrevistas à J. Press, especialistas explicam que, nessa nova fase, os consumidores deixam de ser apenas clientes e passam a ser “servos” de aplicativos que controlam suas rotinas e modos de pensar. 

A morte do lucro tradicional

De acordo com Varoufakis, para entender o tecnofeudalismo, é preciso, primeiro, compreender a diferença entre lucro e renda. No capitalismo clássico, o proprietário de uma fábrica lucrava ao produzir algo e vendê-lo por um valor superior ao custo de produção. Segundo o teórico, esse modelo morreu porque as Big Techs (as gigantes da tecnologia) não lucram apenas com a venda de produtos, mas com a cobrança de “pedágios” de quem circula em seus ecossistemas. 

O professor da Universidade Federal do ABC (UFABC) e pesquisador de Redes Digitais, Sérgio Amadeu, explica o conceito de  “plataformização”, no qual as infraestruturas digitais concentram dados da oferta e da demanda, criando uma mediação que acaba com a concorrência. De acordo com Amadeu, “quem, em geral, passa a ter essa infraestrutura digital de plataforma passa a controlar segmentos ou pedaços de atividades econômicas”. É o caso da Uber, que não possui carros, e do Spotify, que não produz músicas, mas controla quem pode trabalhar e quem pode ouvir.

Essa visão é reforçada por Kenneth Corrêa, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Segundo ele, o poder real dessas organizações não está no algoritmo em si, mas na captura e retenção absolutas da base de usuários. “A partir do momento em que a plataforma tem o cliente na mão, ela ganha um poder de barganha absoluto sobre o lado da oferta”, afirma. Segundo Corrêa, essa assimetria permite que as empresas cobrem taxas que chegam a 50% da receita gerada na ponta.

“O feudalismo digital contemporâneo não se sustenta apenas na posse dos seus dados, mas na sua dependência absoluta de uma infraestrutura tecnológica.” 
Kenneth Corrêa 

O problema da rolagem infinita

O sociólogo e professor Antônio Traldi, escritor do livro Tecnofeudalismo: A Nova Servidão na Era das Redes”, define que um dos pilares do domínio tecnofeudal é a transformação do usuário comum em um produtor de valor não remunerado. Ele observa que o sistema atual — capitalista — inverte a lógica do pagamento: os consumidores pagam pelo celular e pela internet para trabalhar de graça para as plataformas. “Hoje você produz sem receber. Estamos produzindo de graça e não estamos ganhando nada. Nós estamos, aliás, gastando”, afirma. 

Traldi identifica que o tempo gasto nas redes sociais é integralmente convertido em dados valiosos para anunciantes. A manutenção dessa servidão é garantida por uma engenharia psicológica deliberada: a “barra de rolagem infinita”, desenhada para aprisionar a atenção.

Em suas experiências em sala de aula na periferia de Taboão da Serra, o professor notou que jovens não conseguiam interromper o uso do celular mesmo por cinco minutos. “Essa barra de rolagem nada mais é do que nos entreter, nos aprisionar. Isso é psicológico.”

Para Amadeu, isso gera uma “monocultura” digital — o que seria uma padronização do ambiente online, em termos de algoritmos, conteúdos e tecnologias —, onde corporações organizam o imaginário das pessoas por meio de algoritmos invisíveis que empobrecem a diversidade cultural. Esse processo de “gestão das atenções”, segundo o pesquisador, molda desejos e necessidades, garantindo que o usuário permaneça dentro do “feudo” digital o maior tempo possível para alimentar o fluxo de renda das Big Techs.

“Essa barra de rolagem nada mais é do que nos entreter, nos aprisionar. Isso é psicológico: você não consegue parar a barra.” 
Antônio Traldi

Seria uma nova revolução industrial?

Para Traldi, se por um lado o usuário é um servo da atenção, o trabalhador de aplicativos enfrenta uma precarização que remete ao século 21. O sociólogo argumenta que o cenário atual se assemelha ao da Revolução Industrial na Inglaterra — que iniciou na segunda metade do século 18 —, com entregadores relatando jornadas de mais de 14 horas diárias para conseguir sobreviver. Na visão dele, trabalhos como os do Mercado Livre e da Uber são “informais e exploratórios”, em que o trabalhador assume todos os riscos e custos de manutenção enquanto a plataforma garante o lucro.

A Uber, conforme analisa Traldi, funciona como um banco moderno que lucra com o transporte sem possuir veículos próprios. Essa relação de dependência é o que Varoufakis chama de “vassalagem contemporânea”. Em matéria publicada na revista Jacobin, o escritor e pesquisador Evgeny Morozov entrevistou especialistas que argumentam que essa “brazen predation” (predação descarada) substitui a exploração contratual voluntária pelo poder político e tecnológico bruto. Para eles, o trabalhador não é apenas um empregado, mas um vassalo que paga uma taxa (pedágio) para ter o direito de exercer sua profissão dentro da plataforma do senhor feudal digital.

“A Uber é a exploração; é um tipo de banco moderno.  Quando o motorista vai receber, já está devendo posto, IPVA e multa.” 
Antônio Traldi

MANGOS e o aluguel tecnológico

Uma reportagem publicada pelo portal AsiaTechDaily explica que a infraestrutura necessária para sustentar esse sistema é tão cara que impede o surgimento de novos competidores. Corrêa explica que o mercado deixou de focar no antigo grupo FAANG (Facebook, Amazon, Apple, Netflix, Google) para observar o MANGOS, composto por Meta, Anthropic, Nvidia, Google, OpenAI e SpaceX. Essas corporações detêm o controle dos chips de processamento, dos data centers e da conectividade global via satélite. “O feudalismo digital contemporâneo não se sustenta apenas na posse dos seus dados, mas na sua dependência absoluta de uma infraestrutura tecnológica que custa bilhões de dólares para ser replicada”, afirma o professor.

Para Corrêa, a única saída para qualquer empresa nova hoje é tentar se erguer pagando o que chama de “aluguel tecnológico”. Isso ocorre por meio de taxas em lojas de aplicativos, hospedagem em nuvem (AWS/Azure) ou nas chamadas de API de Inteligência Artificial. No Brasil, essa dependência é ilustrada pelo uso do WhatsApp como sistema operacional de pequenas empresas. Se a Meta decide banir uma conta comercial ou alterar uma regra, o negócio para de funcionar no mesmo instante, demonstrando o poder soberano das plataformas sobre a economia local.

Na imagem, uma foto com a logo das bigtechs MANGOS
A Amazon investiu US$ 101,2 bilhões em logística e 88,4 bilhões em tecnologia e conteúdo digital apenas em 2024 para manter sua infraestrutura [Imagem: Reprodução/Murilo Bezerra]

O fim da autonomia cognitiva

Corrêa alerta para o risco da “dependência cognitiva” gerada pela Inteligência Artificial Generativa. Segundo ele, ao terceirizar o raciocínio e a produtividade para sistemas da OpenAI ou do Google, a sociedade está entregando sua própria inteligência para ser processada nos servidores dessas empresas. No futuro, segundo ele, perder o acesso a essas ferramentas significará perder a capacidade de competir no mercado de trabalho.

Amadeu confirma essa preocupação e critica o nome “Inteligência Artificial”. O pesquisador prefere chamar a tecnologia de “sistemas automatizados”, pois, na sua visão, são baseados na extração de trabalho humano e no desrespeito ao criador artístico. Ele observa com temor o uso dessas ferramentas na educação brasileira, na qual estudantes delegam funções básicas ao algoritmo. “Isso [o uso de IA] faz com que essa pessoa deixe de usar essas funções cognitivas. E essa perda vai gerar um problema”, alerta. Para ele, a IA é uma ferramenta de concentração de poder geopolítico norte-americano que aprofunda a subordinação de outros países.

“Quando você terceiriza seu fluxo de raciocínio para a infraestrutura de uma Big Tech, a sua dependência passa a ser cognitiva.” 
Kenneth Corrêa

Caminhos para a soberania brasileira

Apesar do cenário de dependência, os entrevistados argumentam que a subordinação tecnológica não é um “destino manifesto” para o Brasil. Amadeu defende que o país tem o que chama de “pré-condição para a autodeterminação política”, isto é, uma base acadêmica e industrial que já provou sua capacidade de inovação em setores estratégicos. Ele cita o histórico de sucesso da tecnologia de extração de petróleo em águas profundas da Petrobras e a indústria aeronáutica da Embraer como provas de que o Brasil pode construir sua própria autonomia. 

Para o professor, o desafio atual é reorientar a missão das empresas estatais de processamento de dados para construir uma soberania digital capaz de enfrentar o monopólio das MANGOS. Em 2023, a receita global das Big Techs atingiu a marca de U$327 bilhões, um valor que supera o Produto Interno Bruto (PIB) de potências econômicas consolidadas, como a Itália. Em termos de comparação, se a Apple fosse uma nação, sua capitalização de mercado de US$ 4,2 trilhões a tornaria a 5ª maior economia do mundo, ultrapassando a riqueza produzida por países como Portugal e Finlândia somados. Esse poder supranacional permite que tais empresas escapem das jurisdições fiscais tradicionais com facilidade: a OCDE estima que US$ 1 trilhão em lucros de multinacionais são deslocados anualmente para paraísos fiscais por meio de mecanismos contábeis, como royalties e preços de transferência.

Para combater o que se define como uma “vassalagem contemporânea”, Traldi defende que as plataformas digitais e a própria infraestrutura de rede passem a ser tratadas como serviços públicos essenciais ou estatais regulados. O sociólogo traça um paralelo direto com o Sistema Único de Saúde (SUS), que, apesar das dificuldades operacionais e da alta demanda, permanece como referência mundial em atendimento universal e gratuito. “Se o SUS, que é público, dá certo, por que não o governo ter uma estatal em vez da Vivo ou da Meta?”, questiona. A proposta dialoga com o conceito de Constitucionalismo Digital, que busca estender as garantias de direitos fundamentais e transparência do mundo físico para o ambiente digital, evitando que o poder se concentre apenas em mãos privadas.

“A soberania de dados é, hoje, a pré-condição da nossa autodeterminação política.” 
Sérgio Amadeu

A saída para o país, segundo os entrevistados, passaria pela implementação de políticas de justiça tributária baseadas em tecnologia de ponta. Exemplos internacionais, como o da Estônia, mostram que é possível utilizar o blockchain para taxar transações em tempo real, o que permitiu ao país reduzir a evasão fiscal em 12% desde 2020. Para Tradi, Amadeu e Corrêa, o futuro da democracia brasileira dependerá da coragem de retomar o controle sobre as “terras virtuais” e garantir que a riqueza produzida pelos cidadãos “não seja drenada para o exterior sem qualquer contrapartida social ou econômica”.

Na imagem, trabalhadores da fábrica da Positivo
De acordo com Giacomo Iotti, especialista em análise de dados, cada usuário do TikTok gera cerca de US$ 3,80 em receita anual para a ByteDance, valor extraído puramente da monetização de dados comportamentais [Imagem: Divulgação/Positivo] 

A Guerra Fria Digital

O debate sobre o tecnofeudalismo também possui uma camada geopolítica intensa. Varoufakis afirma que vivemos uma nova “Guerra Fria Digital“, onde os únicos países que possuem “capital nuvem” em larga escala são os Estados Unidos e a China. O controle sobre sistemas de pagamento e infraestrutura digital é, para ele, “mais perigoso para a hegemonia americana do que armas nucleares”. 

Pesquisas publicadas no International Journal of Research and Innovation in Social Science destacam que o sistema de Crédito Social chinês é o exemplo máximo de como as Big Techs (como Alibaba e Tencent) podem servir de braços de vigilância estatal, integrando IA e controle social absoluto.

Nesse cenário, empresas como a Huawei tornam-se alvos de sanções porque sua tecnologia de 5G desafia o domínio ocidental sobre as estradas da informação. Corrêa afirma que essa “corrida espacial” tecnológica é dominada pelo grupo MANGOS, o que garante que a IA  pessoal e corporativa rode exclusivamente em servidores sob as regras dessas potências. Para ele, essa disputa não é apenas por mercado, mas por “soberania de plataforma”, onde corporações criam seus próprios modelos de governança e justiça, muitas vezes ignorando as leis das nações onde operam.

*(A capa desta matéria usa imagens editadas do Magnific, por DC Studio)

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