Por Lais Fernandes (laisfernandes@usp.br)*
Nascida em Belo Horizonte (MG), Samara Martins, 39 anos, chega à disputa pela Presidência da República como candidata pela Unidade Popular (UP). Cirurgiã-dentista formada pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), ela trabalha no Sistema Único de Saúde (SUS) e construiu sua trajetória política a partir da militância em movimentos sociais.
Em 2026, concorre ao Palácio do Planalto pela primeira vez como cabeça de chapa, que, desta vez, optou por uma candidatura 100% feminina, com a dirigente sindical Raquel Brício (UP) como vice. Integrante do partido desde sua fundação, em 2016, a Unidade Popular obteve registro definitivo no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em 2019.
Samara iniciou a militância ainda na escola, no movimento estudantil de Belo Horizonte. Depois, durante a graduação em Odontologia na UFRN, tornou-se diretora de mulheres da União Nacional dos Estudantes (UNE). Atualmente, é integrante do Movimento de Mulheres Olga Benário e da Frente Negra Revolucionária (FNR), organizações nas quais mantém atuação voltada à militância sobre pautas raciais, feministas e dos trabalhadores.
Campanha presidencial
Sua candidatura foi oficializada em 26 de julho de 2026, durante a convenção nacional da UP, realizada na Universidade Zumbi dos Palmares, em São Paulo. A formação exclusivamente feminina é apresentada pela candidata como parte da estratégia de colocar no centro da campanha pautas relacionadas à violência contra as mulheres, à desigualdade de gênero e às condições de vida da classe trabalhadora.
A campanha de Samara ocorre em uma legenda de menor estrutura e com pouca presença no cenário eleitoral nacional. Em entrevista à Folha de S.Paulo, a candidata afirmou que pretende utilizar a eleição também para ampliar a presença da UP no Congresso Nacional. A estratégia do partido combina a disputa presidencial com a tentativa de eleger representantes da legenda para o Legislativo.
Mas a relação de Samara com a política institucional começou antes da atual corrida presidencial. Em 2020, foi candidata a vereadora em Natal pelo então recém-criado partido Unidade Popular. Dois anos depois, integrou a primeira chapa presidencial da legenda, como vice de Leonardo Péricles (UP). A candidatura recebeu 53.519 votos no primeiro turno, o equivalente a 0,05% dos votos válidos.
Propostas
O plano governamental da Unidade Popular parte de três eixos principais: mudanças nas relações de trabalho, na luta anti-imperialista e na soberania do país. Para colocá-las em prática, a proposta prevê uma transformação na organização econômica do país, tendo a construção de uma sociedade socialista como horizonte.
O caminho até a versão final do programa, no entanto, foi marcado por críticas. O documento inicial tinha cerca de uma página e meia e reunia 16 propostas descritas de forma breve, o que gerou questionamentos sobre a falta de detalhamento e inconsistências no documento. A UP afirmou que o material era provisório e, após a repercussão, apresentou uma nova versão, com 67 páginas e cerca de 20 eixos temáticos.
Emprego e renda
No trabalho, a candidata propõe reduzir a jornada semanal e acabar com a escala 6×1, sem redução salarial. O programa prevê uma jornada de 36 horas semanais e, em outro trecho, estabelece como objetivo chegar a 30 horas, por meio de uma escala 4×3. O plano argumenta que o avanço tecnológico viabiliza o corte de horas e que a nova regra forçará a abertura de mais turnos de trabalho. Porém, o projeto não apresenta cálculos econômicos e baseia essas medidas em propostas de reformulação socialista da economia — como o redirecionamento de recursos da dívida pública.
Em campanha em João Pessoa (PB), a candidata destacou: “Ressaltar a nossa luta para a redução da jornada de trabalho, para acabar com a 6×1, que foi uma das vitórias do SindiLimp (Sindicato de Trabalhadores da Limpeza Urbana da Paraíba)”. Em sua fala, ela explica que o fim da escala 6×1 e o aumento de 100% de salário mínimo para a categoria se deu com a luta organizada.
A geração de empregos, em seu plano, seria feita por meio de maior atuação estatal, com a criação de um programa de empregos públicos em áreas como infraestrutura, habitação, saneamento e reindustrialização. Para trabalhadores de aplicativos, a UP propõe regulamentar as plataformas, estabelecer remuneração mínima e garantir direitos trabalhistas e previdenciários.
Segurança Pública
Na área da segurança pública, Samara defende a desmilitarização das polícias e a unificação das forças policiais em uma estrutura civil, com atuação preventiva e comunitária. A proposta integra as críticas da UP à violência policial, especialmente nas periferias.
A candidata também prevê o estabelecimento de uma reforma no Sistema de Justiça e no Sistema Penitenciário a fim promover a democratização do acesso à justiça e diminuir a desigualdade da população carcerária.
O combate à violência contra as mulheres aparece como uma pauta protagonista em sua campanha. Samara defende que o combate à violência doméstica não se limite à punição dos agressores, mas que inclua políticas que ampliem a autonomia financeira das mulheres. Entre as medidas apresentadas estão a ampliação de creches, moradia, emprego e renda.
Em um discurso de campanha, a candidata afirmou que garantir condições econômicas para que mulheres deixem relações violentas é parte do enfrentamento à violência de gênero. “O enfrentamento à violência contra as mulheres é uma questão econômica: é garantir moradia para que as mulheres não tenham que morar na casa dos seus agressores, é garantir emprego e renda”, pontuou.
Política externa e economia
Na política externa, a candidatura adota uma posição anti-imperialista. O programa considera que a dependência político-econômica brasileira em relação às grandes potências limita a soberania nacional. Samara ainda defende maior controle do país sobre seus recursos naturais e setores estratégicos.
A posição aparece também nas falas da candidata durante a campanha. Samara critica a aproximação de candidatos brasileiros com o governo de Donald Trump e se opõe à possibilidade de exploração estrangeira de recursos estratégicos nacionais, como as terras raras. “Chega de nossas riquezas serem roubadas pelos EUA, pela China ou pela União Europeia. Junte-se a nós e vamos construir um país socialista!”.
Essa posição se estende à política econômica. O programa propõe a nacionalização de setores considerados estratégicos, incluindo o sistema bancário, e a reestatização de empresas privatizadas. Para a UP, a economia brasileira deveria ser organizada por meio de planejamento estatal e direcionada às necessidades da população, em vez de ser orientada prioritariamente pelo mercado econômico privado.
A candidata afirma que parte dos valores pagos atualmente em juros e amortizações poderia ser direcionada para áreas sociais e investimentos públicos. Em sabatina ao Correio Braziliense, Samara defendeu uma “auditoria cidadã” da dívida e afirmou que o pagamento deveria ser interrompido enquanto o passivo fosse analisado.
Fora da política tradicional
A trajetória de Samara combina uma experiência profissional no serviço público com atuação em movimentos sociais. A representatividade é um dos elementos que diferenciam sua jornada: Samara é a única mulher negra entre os candidatos à Presidência em 2026.
A campanha chega à reta eleitoral com baixa intenção de voto nas pesquisas, mas utiliza a disputa para apresentar uma plataforma que propõe mudanças estruturais na economia, no trabalho e na prestação de serviços públicos.
[Foto da Capa: Reprodução/Instagram/@unidadepopular]
*Esta reportagem foi produzida pela repórter Lais Fernandes sob a supervisão da diretora de redação Gabriela César.




