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Um domingo na Paulista: o encontro da cidade com as pessoas

Uma vez por semana, uma das avenidas mais importantes para o setor econômico brasileiro, se torna um espaço de lazer, família, cultura e manifestações.

Por Guilherme Hofer (guihofer@usp.br)

Desde agosto de 2015, em todos os domingos e feriados a avenida Paulista em São Paulo, um dos maiores centros corporativos do país, é fechada para carros e motos, liberando o asfalto para os pedestres. O 1º teste aconteceu em 28 de junho de 2015, junto da inauguração da ciclovia no centro da avenida. 

O decreto oficial foi implementado em 2016, durante o governo do  ex-prefeito Fernando Haddad (PT), por meio do programa Ruas Abertas. O objetivo era que cada subprefeitura da capital tivesse uma via com o projeto. Atualmente, além da Paulista, somente algumas ruas no bairro Liberdade aderem a ação.

Ao visitar a avenida no domingo, sem automóveis entre 9h e 16h, é possível encontrar diversos artistas, sejam eles cantores ou dançarinos, povoando a rua com muita cultura e diversão. Muitas famílias passeando, tirando fotos e fazendo compras. O espaço ainda é um meio de manifestações dos mais diferentes campos ideológicos. Esse mix de cenários, que vai dos prédios mais antigos, passando pelos grandes projetos arquitetônicos, aos mais modernos, forma uma grande composição para um ambiente protagonizado pelas pessoas.

De metrô, é possível chegar na avenida Paulista através da Linha 2-Verde, nas estações Brigadeiro, Trianon-MASP e Consolação. As linhas 4-Amarela e 1-Azul do metrô fazem conexões com a malha que leva à Paulista

Ao sair da estação Consolação, é visível o prédio do Conjunto Nacional, um marco da arquitetura moderna em São Paulo, edificado por David Libeskind. Em toda a faixa horizontal há uma galeria com cinema, lojas, e restaurantes, enquanto a faixa vertical, que apesar de parecer um único prédio, é dividido em três blocos independentes, que abrigam escritórios pequenos e consultórios (Horsa I), grandes empresas (Horsa 2) e apartamentos residenciais (Edifício Guayupiá)
Jonathan de Jesus Oliveira, conhecido como Joow J, é o Porquinho da Paulista. Desde 2023 com esta fantasia, ele conecta as pessoas cantando e dançando. Na cena, a playlist toca Manchild da Sabrina Carpenter
Conhecido como o “Casarão Abandonado da Avenida Paulista”, o palacete Joaquim Franco de Mello, barão de café que viveu no local, foi construído em 1905 pelo construtor português Antônio Fernandes Pinto. Nos anos 2000, após a morte do neto do patriarca, o governo do Estado comprou o patrimônio, permanecendo sem reforma ou projeto até então

Nesse contexto, o palacete, o Méqui 1000 (casarão Hannud), o casarão Sadocco e a Casa das Rosas permanecem como os únicos edifícios residenciais da primeira metade do século XX remanescentes na avenida inteira. No entanto, outros exemplos da época, que não eram casas, mas locais de serviços públicos ou privados até hoje atuantes são o Hospital Santa Catarina, a Escola Estadual Rodrigues Alves, o Instituto Pasteur e partes do Club Homs.

A rua que abrigava a elite cafeeira paulistana passou por uma série de transformações a partir dos anos 50, com a permissão de construção de prédios de serviços e edifícios comerciais. A convivência entre o passado colonial brasileiro e um país adentrando em um mundo globalizado do pós-guerra passava a ser mais conflituosa.

Em 1982, a prefeitura propôs um projeto de tombamento de 32 residências históricas da avenida. A obrigatoriedade de manter os edifícios preservados incomodou alguns de seus proprietários, que se uniram para demolir 2 deles na madrugada de 20 de junho daquele ano. Três dias depois, o Palacete Mourisco, um dos principais marcos históricos da presença arábe na cidade, seria também derrubado. 

O ápice da disputa entre a prefeitura e as famílias herdeiras dos patrimônios ocorreu por conta da mansão Matarazzo. Com a ameaça de tombamento, a família tentou dinamitar o prédio, sem sucesso. Porém, o conflito judicial foi vencido pelos proprietários, que demoliram o maior símbolo do que havia sido a avenida Paulista em seu princípio, hoje dando lugar ao shopping Cidade São Paulo.

São muitos os ambulantes que oferecem fotos especiais na avenida, reveladas na hora
Rubens e sua esposa, Ida, vendem discos a preços abaixo do mercado. Segundo ele, a ideia de montar a barraca veio depois da aposentadoria.
Depois de andar pela avenida uma boa ideia pode ser ir em uma livraria. Como fizeram os amigos Henrique e Alice, fãs de livros, que estavam passeando na Livraria da Vila e analisando as obras

Segundo a Câmara Brasileira de Literatura o consumo de livros entre os brasileiros cresceu. De 2024 para 2025, houve um acréscimo de 16% para 18% da população que comprou ao menos um livro nos últimos 12 meses. O aumento representa cerca de 3 milhões de pessoas. Quando se considera o recorte de idade, a faixa etária que mais aumentou o consumo é entre 18 e 24 anos, com 3,4% a mais de leitores. Henrique e Alice contaram que estiveram também na feira do livro que aconteceu no Pacaembu entre maio e junho deste ano, que recebeu mais de 90 mil visitantes. Comentaram que lá também foram entrevistados e brincaram que se na próxima vez que saírem não pararem eles para uma conversa, com certeza tem algo errado. 

O edifício Cásper Líbero, onde fica a faculdade de comunicação de mesmo nome e a TV Gazeta, foi fundado em 1966. O icônico mural escrito “Gazeta”, até 1978, era uma pintura da bandeira do Estado de São Paulo
No meio, o edifício Pauliceia, de 1958, um símbolo da arquitetura modernista com sua fachada de pastilhas azuis e venezianas marrons. Ao lado direito, o prédio da TV Gazeta com a torre Cásper Líbero, de 103 metros de altura, cheia de antenas
Para uma parada para almoçar ou comer um petisco, o Puppy Lanches está na avenida Paulista desde 1967 esperando o faminto leitor
Tamara (à esquerda) teve a chance de dançar no mercado místico no Club Homs, um clube de origem síria que chegou na Paulista em meados de 1940. Junto dela, demonstrando todo o apoio, o namorado Luigi, que para acompanhá-la decidiu ir vestido de Odin, e o casal de amigos Vanusca e Carlos, que vieram de Santos
Skates, bicicletas, patins ou patinetes elétricos são permitidos ao longo de todo o domingo. Às 16h, os carros já começam a voltar a transitar
Quase no fim do dia, Kadu Reyes e Alessandra Taz, que também tinham ido à Paulista para o festival do Club Homs, apresentavam na rua a sevilhana, bela dança típica espanhola da cidade de Sevilha, na região da Andaluzia
Encerrando o passeio, ainda dá tempo de comprar uma lembrança para o amigo ou para a família em uma das diversas bancas que povoam a avenida
Depois de um dia cheio de cultura, diversão e desbravamento pela avenida Paulista, é só pegar o metrô e guardar na memória todas as lembranças

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