por Alícia Simões (aliciasimoes@usp.br) e Murilo Bezerra (murilobezerra@usp.br)
Durante a Segunda Guerra Mundial, a ditadura civil-militar no Brasil ou a Guerra Fria, canções que protestavam contra períodos de repressão foram de tamanha importância e continuam a fazer parte da vida dos jovens do mundo contemporâneo. Muitas das novas gerações ainda escutam e reproduzem o músicas que se tornaram hinos atemporais de resistência.
Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil e Elis Regina foram alguns dos artistas que estiveram ativos na luta por democracia no Brasil. No mundo, músicos como Bob Dylan, Billie Holiday e Mercedes Sosa também se destacaram no cenário de músicas que se revoltam contra, respectivamente, guerra e injustiças sociais, a violência racial nos Estados Unidos e a repressão política na América Latina.
Ainda hoje, o mundo não está livre de conflitos e regimes autoritários. Por isso, questões como desigualdades sociais, violência policial, crise climática, saúde mental e várias outras pautas ganharam importância no século XXI. A música é uma das principais formas de expressar indignação com as injustiças sociais.
Com eleições presidenciais acontecendo, algumas questões ficam ainda mais em evidência, como respeito aos direitos humanos, combate à fome, liberdade de expressão e a própria democracia. Nesta edição do O Que Toca na Sala 33, os repórteres e diretores da Jornalismo Júnior escolheram suas canções de protesto favoritas e que fizeram parte de suas vidas. Veja as principais músicas:
1. Primavera, Don L, Rael e Giovani Cidreira (2021)
Primavera faz parte do quarto álbum de estúdio de Don L, Roteiro para Aïnouz (Vol. 2) (2021) e aborda temas voltados à realidade social contemporânea. Os compositores constroem uma letra baseada no contraste entre a violência que permeia a vida cotidiana e a esperança que resiste no povo, em uma analogia entre uma perspectiva de futuro melhor e a estação da primavera.
A música constantemente reforça a importância de continuar lutando apesar dos desafios e
adversidades. A partir da imagem de uma terra fértil, em que coisas positivas podem voltar a nascer, ela sugere que o amor pode se reproduzir mesmo nos ambientes mais hostis, como no refrão, onde há o verso “Eu que sou de onde a miséria seca as estações / Vi a primavera / Florescer entre os canhões”.
“A única luta que se perde é a que se abandona e nós nunca
Nunca abandonamos luta”
Don L
A obra coloca como possibilidade transformar os empecilhos de uma sociedade desigual em um motor para força coletiva. Ela faz referência a uma frase de Che Guevara: “hay que endurecerse sin jamás perder la ternura” (é preciso endurecer sem jamais perder a ternura). Com isso indica que, mesmo durante a luta, os sentimentos e sensibilidades não podem ser deixados de lado.
2. Divino Maravilhoso, Gal Costa (1969)
A canção escrita por Caetano Veloso e Gilberto Gil, interpretada por Gal Costa, exibe em sua letra o clima de tensão e resistência vivido durante a ditadura militar no Brasil. Na música, o verso repetido “É preciso estar atento e forte / Não temos tempo de temer a morte” funciona como um convite à vigilância e à coragem diante da repressão.
Divino Maravilhoso transforma atos banais, como dobrar uma esquina ou pisar o asfalto e o mangue, em símbolos de perigo e de encantamento ao mesmo tempo. Isso mostra que viver sob opressão é conviver com a ameaça sem perder a capacidade de se maravilhar.
A palavra “atenção” abre quase todos os versos e insiste na consciência permanente que um ambiente hostil exige, mas também aponta para a possibilidade de encontrar força e esperança em momentos difíceis. O trecho “Tudo é perigoso/Tudo é divino maravilhoso” mostra a dualidade, na qual existir pede coragem, e é justamente nisso que se abre espaço para o encanto.
3. Como Nossos Pais, Belchior (1976)
Composta por Belchior na ditadura militar e eternizada na voz de Elis Regina, Como Nossos Pais fala da frustração ao perceber que, mesmo depois de tanta rebeldia e tentativa de mudança, a sociedade acaba reproduzindo o comportamento das gerações anteriores. O refrão traduz o sentimento de impotência de quem esperava romper com o passado e descobre que ainda vive como seus pais.
“Minha dor é perceber, que apesar de termos feito tudo o que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”
Trecho da canção
O contexto histórico é essencial para entender a canção. Escrita sob forte repressão política, a letra evoca o perigo nas ruas e o horizonte fechado para a juventude, imagens que apontam os obstáculos impostos pelo autoritarismo. A música também reflete sobre o amadurecimento ao defender a vida real em vez dos sonhos idealizados. Quando admite que os valores e ídolos do passado seguem moldando o presente, Belchior entrega um retrato honesto de crescer e perceber que transformar a realidade é mais difícil do que parece.
4. Latinoamérica, Calle 13 (2010)
A música Latinoamérica, do trio porto riquenho Calle 13 é uma mensagem de orgulho e resistência cultural da América Latina e um apelo para uma união entre os povos que nela vivem. Os autores utilizam uma personificação do continente em afirmações que criticam a visão pejorativa e estereotipada que países do norte global possuem em relação a essas populações.
A letra propõe uma ressignificação da dor da colonização, que fez parte da história dos países latinos, em uma valorização da identidade da cultura local. Ela critica o sofrimento causado e todas as perdas consequentes do processo colonial, como aparece em “Soy, soy lo que dejaron / Soy toda la sobra de lo que se robaron / Un pueblo escondido en la cima” (Sou, sou o que deixaram / Sou toda a sobra do que roubaram / Um povo escondido no topo).
No decorrer da canção, ela caminha para um otimismo que conecta lutas, memória coletiva e personalidades importantes para a história dessas nações. Por fim, chega em um refrão repetido algumas vezes que valoriza elementos culturais e naturais essenciais na identidade latina e que não podem ser comprados, por exemplo o sol, a chuva, o calor, as cores e a alegria.
“Tú no puedes comprar el viento
Tú no puedes comprar el Sol
Tú no puedes comprar la lluvia
Tú no puedes comprar el calor”
Calle 13
5. Construção, Chico Buarque (1971)
Lançada no álbum Construção (1971), a canção de Chico Buarque é considerada um dos pontos altos da música brasileira. Escrita durante o período mais duro da ditadura militar, ela acompanha o último dia de um operário da construção civil, do momento em que sai de casa até a queda do andaime que o mata.
A força da música está na forma. Chico repete a mesma sequência de versos três vezes, trocando apenas as palavras que fecham cada linha. Cada repetição muda o sentido do que foi dito antes. Com isso, a rotina do trabalhador, que parece banal no início, ganha um tom cada vez mais trágico. O arranjo do maestro Rogério Duprat acompanha esse movimento: os instrumentos se acumulam, a tensão cresce e o final soa quase como um caos.
Mais do que contar a morte de um homem, Construção denuncia como o trabalhador é tratado como peça descartável. Quando o operário cai, o que se destaca é o incômodo causado ao trânsito, não a perda de uma vida. É essa indiferença que faz da música um retrato crítico, e ainda atual, da desigualdade e da desumanização no trabalho.
6. Masters of War, Bob Dylan (1963)
Lançada no álbum The Freewheelin’ Bob Dylan (1963), a canção é um dos protestos mais duros da carreira do músico. Escrita em plena Guerra Fria, com o temor de uma guerra nuclear, ela não é dirigida aos soldados, e sim aos “mestres da guerra”: os fabricantes de armas, os políticos e os empresários que lucram com os conflitos sem pagar o preço deles.
A letra fala diretamente com esses personagens, em tom de acusação. Eles ficam em segurança, escondidos atrás de mesas e de dinheiro, enquanto jovens são mandados para morrer, logo no início da canção, e essa acusação se repete nas estrofes quatro e sete. Dylan não poupa palavras e deixa claro o desprezo que sente por quem trata a vida humana como peça de um jogo. A crítica dialoga com o alerta feito pelo presidente americano Dwight Eisenhower, em 1961, sobre o poder do chamado complexo industrial-militar.
O que torna a música tão marcante é a simplicidade. Com apenas voz e violão, em uma melodia sombria inspirada na canção folk tradicional Nottamun Town, Dylan deixa todo o peso nas palavras. Décadas depois, a faixa continua sendo lembrada sempre que uma nova guerra começa. Ela voltou a ganhar destaque, por exemplo, quando Dylan a cantou no Grammy de 1991, durante a Guerra do Golfo.
Confira a seleção completa da playlist “O Que Toca na Sala 33: Músicas de Resistência”:
- Primavera, Don L – Sugerida por Kauany Rocha (repórter do Laboratório e Audiovisual)
- Apesar de Vocė, Chico Buarque – Sugerida por Israel, (repórter do Sala33 e Assessoria)
- Cálice, Chico Buarque e Gilberto Gil – Sugerida por Nina M Bozic (repórter do Sala33 e Audiovisual)
- Divino Maravilhoso, Gal Costa – Sugerida por Laura Cristofoletti (repórter do Cinéfilos e Mídias)
- Panis et circenses, Os Mutantes – Sugerida por Ana Germano (repórter do Cinéfilos e Eventos)
- Primavera nos Dentes, Secos & Molhados – Sugerida por Yuri (repórter do Sala33 e Assessoria)
- Masters of War, Bob Dylan – Sugerida por João Lucas Casanova (diretor do Cinéfilos)
- Latinoamérica, Calle 13 – Sugerida por Mayara Felisardo (repórter do Sala33 e Audiovisual)
- Eles, Caetano Veloso – Sugerida por Theo Zapella (repórter da. J.press e Audiovisual)
- Pra não dizer que não falei das flores, Geraldo Vandré – Sugerida por Guilherme Hofer (repórter da J.Press e Comunicação Visual)
- Amanhã ou depois, Gonzaguinha – Sugerida por Marte Politano (repórter do Cinéfilos e Eventos)
- Construção, Chico Buarque – Sugerida por Lívia Falbo (repórter do Arquibancada e Comunicação Visual)
- Sujeito de sorte, Belchior – Sugerida por Bianca Monteiro (repórter do Laboratório e Mídias)
- War Pigs, Black Sabbath – Sugerida por Pedro Mattos (repórter do Laboratório e Mídias)
- Como nossos pais, Elis Regina – Sugerida por Marte Politano (repórter do Cinéfilos e Eventos)
- Zé do Caroço, Leci Brandão – Sugerida por Davi Milani (diretor do Arquibancada)
- A Voz Do Dono E O Dono Da Voz, Chico Buarque – Sugerida por Renata Paes (repórter do Cinéfilos e Assessoria)
- O bêbado e a equilibrista, Elis Regina – Sugerida por Hugo Boff (repórter do Arquibancada e Eventos)
- El Derecho de Vivir en Paz, Victor Jara – Sugerida por Sara da Franca (repórter do Laboratório e Comunicação Visual)
- Los Dinosaurios, Charly Garcia – Sugerida por Leda Lôbo (repórter do Arquibancada e Assessoria)
