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‘Três horas Para Viver’: Vale uma hora e meia de vida?

Filme traz ação e desespero a cada passar do relógio
Por Hellen Rodrigues (helliv7@usp.br)

O tempo corre enquanto a vida de uma criança depende que a entrega de um pacote seja feita. Três Horas para Viver (Runner, 2026) chega aos cinemas nesta quinta-feira (29) e mistura a adrenalina da pressão com a comicidade da tragédia para compor sua narrativa. Dirigido por Scott Waugh, o longa aposta em um roteiro frenético com elenco de peso para encantar o espectador.

A história acompanha Hank Malone (Alan Ritchson), um ex-militar que trabalha como entregador e recebe a missão de transportar um pacote importante. Ao buscar a encomenda, ele encontra o médico Ben Bishop (Owen Wilson), o qual revela que se trata de um fígado com uma rara compatibilidade com sangue Rh nulo. A informação aumenta a importância da entrega, especialmente quando Hank percebe que está sendo seguido e descobre que o órgão pode valer milhões no mercado ilegal de transplantes. 

É então que o filme apresenta Kate (Leila George D’Onofrio) e sua filha Ellie (Scarlett Crabtree), uma criança internada em estado grave e que depende do transplante de fígado para sobreviver. Assim, a perseguição ganha uma nova dimensão, já que Hank não está apenas tentando escapar dos criminosos, mas precisa garantir que o órgão chegue ao hospital a tempo.

A premissa do filme é básica e explorada em outros filmes do gênero, como 1917 (2019) e Apollo 13: Do Desastre ao Triunfo (Apollo 13, 1995). Aqui, o longa coloca o relógio como um dos antagonistas. A luta não é apenas contra o vilão Damian Zaldívar (Rodrigo Santoro), mas também contra o fato de que se o tempo acabar, a criança irá morrer. 

Contudo, a necessidade de uma resolução rápida também afeta Damian, que precisa roubar o órgão antes que o tempo de transplante se esvaia. Dessa forma, conforme as horas vão passando, há uma crescente tensão em ambos os lados.

O personagem de Santoro fala português ao longo do filme [Imagem: Divulgação/Diamond Films]

Apesar da preocupação com o tempo e em chegar ao hospital, o filme quebra esse ritmo constantemente, com cenas em que a dupla não possui senso de urgência algum. Esse é um dos fatores que faz o espectador se desconectar da trama e perder a ansiedade e tensão que o filme tenta passar. 

Constantemente em movimento com cenas de ações plásticas e uma boa movimentação de câmera na luta, o longa não cansa o espectador. O filme conduz muitas das cenas de conflito com base em armamento bélico, as lutas entres os personagens constantemente envolvem tiros e armas de fogo, o que acaba limitando visualmente a coreografia de cenas. Apesar disso, o diretor trabalha bem nos momentos em que a arma fica em segundo plano e os rivais precisam usar as próprias mãos. 

Nas cenas de combate, há um excesso de elementos visuais: a violência é explícita, e o diretor não poupa recursos para evidenciar o caráter sanguinário do longa. A escolha por si só revela uma opção estética pelo grotesco, que não se limita a colocar Hank e Damian em situações de confronto.

Alan Ritchson também é produtor do filme
[Imagem: Divulgação/Diamond Films]

O filme não se debruça apenas nas cenas de ação, mas também traz a comédia em suas entrelinhas. O tom humorístico começa desde o primeiro encontro de Ben com Hank, o médico é um figurão e é o pilar central da comédia. O humor é simples, composto por falas bem colocadas após um silêncio embaraçoso e repetição satírica de um comportamento constrangedor. 

Apesar do mérito do roteiro,  o ponto mais positivo do filme é a atuação de Owen Wilson, que soube trabalhar a personalidade do doutor e entrega carisma na mesma proporção que entretém o espectador. 

Outra atuação que funciona bem é a de Rodrigo Santoro, que interpreta o vilão principal. O personagem é o clássico criminoso de filmes de ação, mas por baixo de toda a violência consegue entregar um personagem caricato e, por vezes, engraçado. 

Contudo, o filme peca no desenvolvimento emocional de Damian, dos conflitos internos que movem o personagem são pouco explorados, quando se trata da paixão que uma mãe sente por sua filha, o roteiro é bem desenvolvido. 

Kate, nos momentos iniciais do filme, parece uma personagem apática e deslocada do drama que o filme possui, mas no decorrer do longa, a personagem se transforma e é ponto vital para o clímax. A mãe mostra sua brutalidade e não tem medo de sujar as mãos se isso significa que Ellie receba seu transplante.

É notório que o filme tenta passar a sensação de sufoco e aumentar a tensão ao longo dos minutos, mas a constante quebra de atenção e falta de profundidade dos personagens não consegue captar o espectador. As cenas de ação são bonitas, mas não passa disso, uma violência com um propósito bonito mas que não convence. 

O espectador pode até torcer para que Hank chegue no hospital e consiga ajudar a garota, mas é um sentimento evocado pelo próprio caráter, e não pela construção que o filme tenta trazer. Assim, o filme até cumpre sua função de entreter, mas não produz nenhuma profundidade técnica e nem emocional.

Três Horas para Viver já está disponível nos cinemas brasileiros. Confira o trailer:

*Imagem da capa: Reprodução/TMDB

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