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‘A Família Addams’: a bizarrice como forma de humor 

Mesmo após 30 anos, A Família Addams continua conquistando pelo humor exótico e personagens memoráveis que apresenta

CINÉFILOS
08 jul 2021 | Por Isabel Vernier (isabel.vernier@usp.br)

O filme A Família Addams (The Addams Family, 1991) conta sobre um importante episódio na vida de uma das famílias mais excêntricas da ficção. O longa é baseado na obra do cartunista Charles Addams e na série exibida com o mesmo nome entre 1964 e 1966. Considerada um clássico e amada por muitos até os dias atuais, a história possui uma sequência, uma animação produzida em 2019 e, logo, uma série focada na personagem Wandinha estreará na Netflix sob a direção de Tim Burton.

No filme de 1991, uma briga entre Gomez Addams (Raul Julia) e seu irmão Fester (Christopher Lloyd) fez com que o segundo desaparecesse, o que deixa um sentimento de culpa em Gomez, que deseja reencontrá-lo. Vinte e cinco anos depois, o advogado da família, Tully Alford (Dan Hedaya), passando por problemas financeiros, decide dar um golpe nos Addams. Ele percebe, então, que Gordon (Christopher Lloyd), filho de sua credora Abigail Craven (Elizabeth Wilson), se assemelha muito ao irmão perdido e tem a ideia de inseri-lo como tal na casa dos Addams, a fim de possibilitar que o impostor encontre a fortuna da família e fuja com ela. 

A Família Addams tem como propósito entreter e divertir. O filme não é repleto de mensagens motivacionais ou bons exemplos, pelo contrário. Todos os personagens apresentam comportamentos que divergem completamente da moralidade do “mundo real”, até mesmo aqueles que não pertencem ao clã protagonista.  Por isso, a escolha de classificar para maiores de 12 anos foi uma decisão acertada da produção.

Ainda assim, colocar todos os personagens pertencentes aos moldes tradicionais como vilões não é um aspecto arbitrário. Mesmo que não seja falado de forma explícita, o filme gera reflexão sobre problemas sociais, como a ganância e a concepção de que os fins justificam os meios, o que cria uma certa exaltação a excentricidade e a quebra de padrões.

Wandinha Addams e seu dinossauro de brinquedo. [Imagem: Divulgação/Splendor Films]

Wandinha Addams e seu dinossauro de brinquedo. [Imagem: Divulgação/Splendor Films]

As atuações em A Família Addams não deixam nada a desejar. Raul Julia e Anjelica Huston, atriz que interpreta Mortícia e que completa 70 anos hoje, encarnam os personagens com maestria e conseguem criar uma química apaixonante entre o casal. No entanto, o destaque do filme é voltado para Christina Ricci que, com a pouca idade, surpreende com uma sensibilidade enorme para com a personagem Wandinha, já que consegue misturar perfeitamente a fofura com a morbidez para criar a primogênita do casal Addams. É essa mistura de sensações que, com as situações absurdas e as boas doses de humor trazidas pelo roteiro, arrancam o riso nos momentos em que o filme se propõe a isso. Não é à toa que esses personagens marcaram profundamente a carreira dos atores.

A parte visual do filme possui alguns problemas quando se trata dos efeitos especiais. A movimentação ao redor do cenário da Coisa (Christopher Hart), mão desprendida do corpo que vive com a família Addams, não convence. A produção dela em algumas cenas é no mínimo tosca e, quando se encontra em cima da mobília, não é difícil de perceber que há um buraco no qual a mão de Hart passa para fazer a cena. 

Outro momento que exemplifica essa questão é a cena do furacão, em que a inserção digital dos personagens voando pelo espaço é bem precária. Porém, esses aspectos não atrapalham em nada a produção que, convenhamos, não se propõe em ser muito rebuscada e parece brincar com esta debilidade para intensificar o humor e a absurdez característicos de A Família Addams. Além disso, não se pode esperar que um filme feito em 1991 tenha a mesma qualidade de efeitos especiais que um filme da Marvel de 30 anos depois.

Por outro lado, a arte cartunesca dos cenários e figurinos que a produção apresenta é uma boa solução para fazer com que o filme ficasse bonito e condizente com a estética mórbida e extravagante, mantendo-o dentro do orçamento de  U$30 milhões.  

Vovó (Judith Malina), Lurch (Carel Struycken), Wandinha, Morticia e Pugsley (James Christopher Workman) [Imagem: Divulgação/Splendor Films]

Vovó (Judith Malina), Lurch (Carel Struycken), Wandinha, Morticia e Pugsley (James Christopher Workman) [Imagem: Divulgação/Splendor Films]

O maior defeito se encontra no roteiro de Caroline Thompson e  Larry Wilson quanto ao personagem de Gordon e sua relação com a família. No começo de A Família Addams, ele se encontra deslocado e impaciente para acabar com aquele teatro, mas, depois, parece se afeiçoar à família. A visão do personagem muda bruscamente e, ainda que haja uma justificativa para esse comportamento, ele acontece de modo bem superficial e as atitudes de Gordon ficam mais difíceis de serem interpretadas. 

Essa inversão de Gordon causa muita confusão em quem assiste e prejudica a credibilidade na história e o entendimento do filme em si. Trabalhar bem com o surreal não significa que, só pela temática do filme, qualquer perda na coerência narrativa deva ser completamente aceita por quem assiste.

A Família Addams, apesar de seus defeitos, é um filme que cumpre bem sua proposta e surpreende com sua bizarrice cômica e envolvente. A história faz com que, mesmo estranhando muito aquele ambiente familiar, queiramos fazer parte dele e nos divertir com suas peripécias. Não é à toa que o filme possui milhares de fãs espalhados pelo mundo.

A Família Addams estreou no Brasil no dia 20 de dezembro de 1991 e está disponível para os assinantes do Amazon Prime. Confira o trailer:

Imagem da capa: Divulgação/Splendor Films

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