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O drama das lesões na NBA

Calendário apertado e lesões importantes na temporada preocuparam a comunidade do basquete

ARQUIBANCADA
18 out 2021 | Por Maria Carolina Milaré Albuquerque (mariamilare@usp.br)

A temporada 2020/21 da NBA, que encerrou no final de julho com a equipe de Milwaukee Bucks campeã, apresentou o maior índice de lesões em jogadores All Stars desde que a liga começou a registrar as estatísticas.

A temporada anterior da NBA ficou suspensa por volta de quatro meses devido a pandemia da Covid-19, e os jogos que estavam previstos para acabar em abril de 2020, encerraram-se apenas em outubro em anos normais, essa data seria próxima do início de uma nova temporada. 

Em razão do atraso, a temporada 2020/21 começou em dezembro e o intervalo entre as duas temporadas foi reduzido. Entre a temporada 2018/19 a última que ocorreu regularmente e a temporada de 2019/20 houve 195 dias de intervalo. Nessa última, o número caiu para 72, diminuindo consideravelmente o tempo de descanso e recuperação dos times.

A organização da liga optou por iniciar a temporada logo em seguida pela justificativa de tentar normalizar o calendário para os próximos anos e da necessidade de decidir o campeão da liga até julho, antes do início da Olimpíada

A perda financeira que a associação teve em 2020 também pesou na decisão. A NBA estimou cerca de 10% de queda na receita da temporada 2019/20 em relação às anteriores. E se a liga optasse por esperar mais e começar a nova temporada em janeiro, como estava em discussão com a NBPA (Associação dos Jogadores de Basquete dos EUA), eles poderiam perder ainda entre 500 milhões a 1 bilhão de dólares. 

Para amenizar o calendário mais justo, ao invés dos 82 jogos tradicionais da temporada regular, cada franquia disputou somente 72 jogos, em um intervalo de 146 dias. No ano anterior foram 177 dias. A média de jogos por semana para cada equipe aumentou de 3,42, no ano anterior, para 3,6 na primeira metade da etapa regular, e 3,75 na segunda metade.

 

As lesões das estrelas

Com muitas lesões importantes que ocorreram nessa temporada, houve a sensação de que esse cenário teria provocado um número anormal de lesões na NBA. Mas comparando com os dados das temporadas anteriores, o índice de lesões nos jogadores foi semelhante ao dos outros anos, segundo o banco de dados da NBA. O que explica a preocupação da comunidade do basquete foi a quantidade de jogadores All Stars aqueles convidados a participar do jogo das estrelas e considerados mais valiosos   que se lesionaram. 

Ricardo Bulgarelli [Reprodução/ESPN]

Ricardo Bulgarelli, comentarista de basquete da ESPN, falou ao Arquibancada sobre o assunto: “Eu acho que foi uma coincidência o acúmulo de lesões. Tem alguns fatos importantes, obviamente, uma temporada começando bem em cima da outra, mas isso não quer dizer que acarretou em mais lesões. O que chamou atenção foi o número de lesões dos jogadores importantes. Esse é um número alarmante, por isso a gente teve uma sensação de que tivemos mais jogadores lesionados. Mas não, foram mais jogadores relevantes lesionados!”

Entre os 24 jogadores que compõem o grupo dos All Stars, pelo menos 15 sofreram com lesões em algum momento da temporada e 10 perderam pelo menos um jogo nos Playoffs por conta das lesões. Entre esses nomes estão Anthony Davis, James Harden, Kyrie Irving, Joel Embiid, Giannis Antetokounmpo, Damian Lillard, Donovan Mitchell, Jamal Murray e Kawhi Leonard.

Diferente de Antetokounmpo, que se recuperou a tempo da lesão que teve no jogo 5 contra o Atlanta Hawks, na final da conferência Leste, e ainda levou o time ao título, outras lesões interromperam definitivamente a temporada dos atletas e podem ter mudado o rumo dos Playoffs.

Os Lakers, campeões do ano passado com praticamente o mesmo elenco,  já tiveram uma temporada regular difícil devido ao afastamento das grandes estrelas do time — Lebron James e Anthony Davis por conta de lesões: uma entorse no tornozelo e uma distensão na panturrilha, respectivamente. Lebron jogou apenas 45 dos 72 jogos da temporada regular, e Davis, 36, os menores números na carreira de ambos. 

Nos Playoffs não foi diferente: a equipe vencia a primeira série por 2 a 1 contra a equipe do Phoenix Suns, até Anthony Davis se machucar no primeiro tempo do jogo 4, ao sentir dores na virilha esquerda O jogador não voltou mais às quadras, e o Suns empatou a série. Nos demais jogos, Phoenix cresceu para o time de Los Angeles e a série acabou em 4 a 2.

Lebron James e Anthony Davis [Imagem: Reprodução @LakersBrasil/Twitter]

A franquia do Brooklyn Nets também foi afetada na semifinal da conferência. O time, que contava com Kevin Durant, James Harden e Kyrie Irving, era um dos grandes favoritos ao título devido ao forte elenco. Mas após a lesão de Harden e Irving — nos jogos 1 e 4 da série contra os Bucks, respectivamente — o time, que começou a semifinal com vantagem de 2 a 0, teve dificuldades para seguir  e acabou sendo superado pela equipe de Milwaukee em uma série de 7 jogos. 

Bulgarelli comenta o tamanho da perda do Nets sem suas estrelas: “Quando o Brooklyn jogou completo, foi um time muito dominante. Tanto que a expectativa com todos os jogadores sob contrato e saudáveis, é que pro ano que vem  o Brooklyn Nets faça uma campanha histórica e que possa concorrer como o melhor time de todos os tempos”

Joel Embiid, após se machucar no jogo 4 contra os Wizards, jogou o resto dos Playoffs com uma ruptura parcial no menisco direito. E mesmo com um desempenho impressionante apesar da lesão, as dificuldades físicas do principal jogador do time foram um empecilho para o Philadelphia 76ers que havia terminado a temporada regular em primeiro vencer a semifinal da conferência Leste contra os Hawks, o quinto time classificado. 

A equipe do Phoenix Suns, até chegar às finais da NBA, passou nos Playoffs pelo Los Angeles Lakers, Denver Nuggets, e Los Angeles Clippers. Todos os times apresentavam favoritismo maior que os Suns. Mas assim como ocorreu com a equipe de Lebron James, o Nuggets perdeu Jamal Murray, seu segundo principal jogador; e o Clippers, Kawhi Leonard, ambos por lesões no joelho.

As fatalidades ajudaram o time de Phoenix que, junto com performances expressivas de Devin Booker e Chris Paul, tiveram mais tranquilidade para jogar contra as outras equipes. O comentarista diz que mesmo com as estrelas em quadra, isso não significaria certeza de vitória para os adversários: “Com o Anthony Davis por exemplo, aquela série penderia pros Los Angeles Lakers, com o Kawhi Leonard aquela série contra o Phoenix Suns penderia pro Los Angeles Clippers, mas certeza absoluta não. Isso não é garantia de nada. O favoritismo do time aumentaria, mas você não conseguiria cravar que o Lakers completo ia ser bicampeão.”

Bulgarelli também aponta que a expectativa inicial seria Lakers e Brooklyn Nets em uma final, mas que não se pode desmerecer a equipe e a campanha de Milwaukee e Phoenix. Ele também diz que as lesões fazem parte do jogo, e todos os jogadores estão sujeitos a essas fatalidades. Além de sorte, ter um bom planejamento e treinamento com os jogadores também faz parte da preparação do time.

“Não teve uma temporada sequer na história em que todos os jogadores se mantiveram saudáveis. Sempre alguém está jogando no  limite, sempre alguém perde um jogador importante e isso faz parte. É um esporte de contato, é um esporte físico cada vez mais atlético. A transição, a velocidade. É um jogo que não para. Esses artifícios fazem com que o basquete tenha muitos jogadores lesionados e  isso pode acarretar e interferir, obviamente, em um resultado final, mas não vai desmerecer quem chegou”, ressalta o comentarista.

Algo que também entrou em discussão foi se o advento do Play-in nessa última temporada teria contribuído para um desgaste maior dos jogadores. Mas, como Bulgarelli analisa, os times que participaram do Play-in jogaram apenas dois jogos a mais que o normal. E considerando que a temporada regular teve 72 jogos, junto com as partidas do Play-in, o número de jogos ainda foi inferior ao dos outros anos. 

Bulgarelli também citou como as lesões podem interferir na continuidade da carreira dos jogadores. O astro Kawhi Leonard, por exemplo, teve uma torção no joelho que afetou o ligamento cruzado anterior após sofrer uma falta de Joe Ingles, no jogo 4 da série contra o Utah Jazz. A franquia dos Clippers prevê a volta do jogador apenas em nove meses, e essa data estará perto do final da temporada regular do próximo ano. E um agravante é que será seu último ano de contrato,  estimado em quase 40 milhões de dólares.

 “Se você pensar que o cara volta em nove meses, nós estamos em julho, o cara vai voltar em março do ano que vem, pós All-Star Game. Um mês antes de terminar a temporada regular. Será que ele vai ficar no Clippers? Será que o time pra onde ele possa ir vai querer ficar com Kawhi, pagando esse salário, pro cara não jogar?”, ressalta Bulgarelli.

Para as próximas temporadas, Bulgarelli comenta que seria interessante mexer no calendário da liga e espaçar mais os jogos para diminuir as chances de grandes lesões. As mudanças poderiam garantir um número maior de estrelas e de competitividade durante toda a temporada. Pensando no aspecto do espetáculo e na saúde dos jogadores seria imprescindível, mas pelo dinheiro que é envolvido na venda de ingresso e nos jogos transmitidos pelas TV’s locais, ele diz que é pouco provável.

*Foto de capa: [Reprodução @HypedJerzeys/Twitter]

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COMENTÁRIOS
João Andrei Milare Tirapelli
Muito bem redigida!!
20 out 2021
 
MARCIA SILLENY MILARE ALBUQUERQUE
Excelente matéria. Quem escreveu, entende!!!!
19 out 2021
 
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