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Semana do Jornalismo 2025 | Cobertura do aborto legal é tema de mesa com a Rádio Novelo

Produtoras do podcast 'Sala de Espera' debatem os desafios na investigação de casos de violência sexual e obstétrica

Por Matheus Andriani (andrianimatheus@usp.br) e Victor Gama (victorgamasilva@usp.br

Na última quarta-feira, 24, a Semana do Jornalismo recebeu Natália Silva, Beatriz Guimarẽs e Carolina Moraes para uma mesa sobre a série especial de três episódios do podcast da Rádio Novelo intitulada: “Sala de Espera”. As jornalistas são responsáveis pela produção que abordou as impasses para o acesso de mulheres ao aborto legal no Brasil. A mediação da mesa foi feita por Gabriella Santos, repórter da Jornalismo Júnior.

O podcast Rádio Novelo Apresenta tem um foco em jornalismo investigativo narrativo. Os episódios são longos e trazem histórias que são investigadas pelos repórteres por meses. 

Natália Silva conta que a ideia de abordar essa pauta no podcast surgiu porque ao entrevistar um médico do Hospital Vila Nova Cachoeirinha, perceberam que havia uma notícia ali para se investigar. Outro fator que contribuiu para a aproximação com a pauta foi que todas as envolvidas no projeto já haviam escrito matérias sobre aborto.

O Hospital Vila Nova Cachoeirinha é um hospital de referência localizado na capital paulista que oferecia apoio a mulheres que procuravam meios de abortar legalmente no Brasil. No país, o aborto é legalizado apenas em alguns casos. O processo é feito inteiramente pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e a mulher que procurar o serviço passa por diversas etapas de avaliação por diferentes profissionais da saúde até que o aborto seja autorizado e realizado.

Segundo Natália, o que chamou atenção na história foi que, na maior parte das vezes, as histórias sobre aborto para se contar são as mesmas. No caso do Hospital Cachoeirinha, o assédio e ataque dos conselhos regionais e federal de medicina ao serviço era algo que o destacava das demais pautas.

A série entrevista Laura (nome fictício para uma das mulheres que cedeu entrevista ao podcast) que procurara o processo em uma idade gestacional avançada. Natália conta que um dos fios condutores da história é o tempo e como ele é importante no processo todo. É dessa discussão sobre o tempo que surgiu o nome “Sala de Espera”. Segundo elas, a experiência de ‘estar na sala de espera’ e ver outras mulheres na mesma situação foi relatada por todas as entrevistadas.

“Quanto mais você desumaniza uma pessoa, mais fácil é derrubar uma lei que a afeta” afirma Natália, sobre mulheres que buscam o aborto serem taxadas de irresponsáveis [Imagem: Mariana Pontes/Jornalismo Júnior]

Um dos maiores desafios enfrentados na construção da narrativa foi fazer com que o público tivesse empatia pelas vítimas. Essa dificuldade se mostrou presente principalmente porque elas estavam sempre relatando anônimo. Para elas, dentro do jornalismo, uma história é sempre construída ao redor de grandes personagens, e o anonimato dificulta de utilizar essa construção. Outro obstáculo era que o grande personagem da história não era uma pessoa, mas sim o Conselho Federal e os regionais de medicina. 

Uma surpresa para as responsáveis pelo projeto foi que o público reagiu de uma forma muito boa à série, e que ouviram poucas críticas ao podcast. Para Natália, isso se deve ao fato de que elas discutiram o aborto legal, da forma que a lei prevê, não um avanço da legislação. Elas relatam que era uma sensação estranha tratar de um assunto amparado pela lei, mas sempre com a sensação de que estavam abordando um assunto fora da legalidade. Ainda sobre a recepção, elas ressaltam que não perceberam uma reação dos conselhos de medicina como instituição.

A série de episódios foi importante para nomear alguns tipos de violência. “Teve gente que só percebeu que tinha sofrido uma violência depois que ouviu o podcast”, conta Natália. Ela também relatou que uma mulher entrou em contato dizendo que passou por um aborto e só entendeu que tinha sofrido violência obstétrica quando ouviu sobre o assunto nessa série. Carolina Moraes destacou também que muitos médicos não faziam ideia do que estava acontecendo dentro do Conselho Federal de Medicina.

Uma preocupação de Natália, Beatriz e Carolina também foi explicar conceitos que não são de conhecimento público conforme a história corria e a explicação fosse necessária. Segundo elas, para a construção da narrativa, foi importante se colocar no lugar da audiência, escolher em qual momento explicar cada tópico e definir um limite do que contar.

Natália Santos relata que quando pedia para uma das entrevistadas contar e reviver um momento traumático. Segundo com ela, é importante dar essa segurança e também não ir à entrevista com uma tese do que esperar do comportamento da pessoa.

“Você vai falar o que você quiser, se eu perguntar algo que você não quiser falar, você não precisa contar e você vai contar só o que você quiser sobre a sua vida antes do início do processo de aborto.”
Natália Silva

Beatriz Guimarães, responsável pela edição de áudio, ressalta que as entrevistas todas foram mais silenciosas e que sempre se deve dar tempo para o silêncio e respeitar esses momentos. Segundo Natália e Carolina, fazer as entrevistas pessoalmente ajudava a sentir como a pessoa está, se a voz está embargada, se começam a formar lágrimas nos olhos. Isso dava uma pista dos limites que se devia respeitar dentro da entrevista.

A cobertura de pautas sensíveis

Para as jornalistas, uma das maiores dificuldades em abordar temas que exigem sensibilidade, como casos de violência sexual, é entender até que ponto a apuração se faz necessária. “Você está pedindo pra pessoa reviver a coisa mais traumática pela qual ela já passou. Você precisa perguntar datas. Você precisa perguntar se ela tem documentos que comprovem o ocorrido. Porque é parte do nosso trabalho checar tudo aquilo que ela está dizendo”, afirma Natália Silva. 

Durante o processo de desenvolvimento do podcast, as apresentadoras passaram por uma imersão. Por quatro dias, elas frequentaram um hospital que realiza o procedimento de aborto legal para se aprofundar na realidade das mulheres que buscam o atendimento. Segundo Carolina, a experiência foi algo muito marcante para sua trajetória pessoal, mas destacou que é preciso saber agir com profissionalismo ao lidar com o assunto, e ter clareza que a figura central da narrativa a ser contada não é você, e sim a vítima.

Ao se deparar com casos que envolviam crianças, Natália declara ser muito difícil não se afetar, apesar da necessidade de manter a postura como profissional. Ela enfatiza que existem momentos em que isso não é possível, e se faz necessário demonstrar empatia com a situação.

“Não tem como a gente não se afetar. Tem alguns momentos que a gente escuta histórias horríveis. Se a pessoa está se emocionando, e você está sentindo que não é uma história fácil de contar, a gente tem que dar esse espaço.”
Natália Silva

Também declaram que a recusa de entrevistas comprometeu o andamento do trabalho, principalmente por parte dos médicos. Em 2024, duas profissionais de saúde do Hospital Maternidade Vila Nova Cachoeirinha tiveram sua licença cassada pelo CREMESP por supostas irregularidades referentes à realização de abortos na unidade, como é relatado no podcast. A partir de então, a burocracia para a obtenção de documentos e coleta de informações pela imprensa só aumentou, por conta do receio dos médicos de sofrer retaliações do Conselho Regional.

Beatriz Guimarães, Natália Silva e Carolina Moraes, da Rádio Novelo Apresentam falam sobre a série de podcast “Sala de Espera” no terceiro dia da Semana do Jornalismo [Imagem: Mariana Pontes/Jornalismo Júnior]

Por se tratar de um assunto que coloca como cerne do debate um serviço negligenciado pelo Estado, as jornalistas enfrentaram desafios para realizar a cobertura da pauta. Durante a mesa, foi abordado a questão ética do uso de gravações feitas em eventos onde não foi permitido a realização. No podcast e na palestra Natália e Carolina contam que participaram de um evento público em que uma das palestrantes pediu para que não gravassem as falas. Elas destacam que ao se tratar de locais públicos, com a participação de funcionários públicos com cargos eletivos para a discussão, decidiram gravar e ‘desrespeitar’ o pedido.

Para preservar o anonimato das vítimas, a equipe da Rádio Novelo optou pelo uso de uma ferramenta de inteligência artificial para modificar vozes. Segundo as apresentadoras, os métodos tradicionais de distorção sonora podem ser revertidos, o que colocaria em risco a identidade das entrevistadas. Apesar disso, elas destacaram que a Rádio adota uma postura conservadora quanto ao uso de IA, e que recorre a elas apenas em situações muito específicas e quando se mostram necessárias.

[Imagem de capa: Mariana Pontes/Jornalismo Júnior]

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