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‘Depois a Louca Sou Eu’: afinal, quem é a louca da história?
CINÉFILOS
25 fev 2021 | Por Luanne Caires (lcaires@usp.br) 

É possível rir da ansiedade na vida moderna? Depois a Louca Sou Eu (2019) vem mostrar que, em parte, sim. O filme é baseado no livro homônimo de Tati Bernardi e narra a vida de Dani (Débora Falabella), uma jovem publicitária que quer ser escritora e, desde criança, enfrenta sucessivas crises de ansiedade por “sentir demais, amar demais e sofrer demais”. Em meio a variados tratamentos, Dani precisa lidar com desafios da carreira, do amor e, principalmente, de sua complicada relação com a mãe, em um enredo que levanta discussões importantes sobre saúde mental e a sociedade em que vivemos. 

Para tratar de um tema tão pesado, a diretora Júlia Rezende (Como é Cruel Viver Assim, Um Namorado para Minha Mulher) aposta em uma estética pop, com cores vibrantes e vinhetas. O uso de lentes grande-angulares ajuda a causar uma leve sensação de distorção da imagem. Junte isso a um ritmo acelerado, permeado por microcenas, e é possível sentir a velocidade com que pensamentos e emoções fluem na cabeça da personagem principal. Em um momento ela está sentada no carro em um engarrafamento. No momento seguinte, está correndo pela avenida em meio a uma crise. Ou não. Afinal, o filme também brinca com verdade e mentira, o que foi e o que poderia ter sido.

Mesmo com uma estética que contribui para aliviar parte da tensão, a comédia abre espaço para o drama. O longa desde os primeiros minutos traz a angústia que parece esmagar Dani contra o chão. É justamente neste contraste entre humor e seriedade que o incômodo inicial está posto: qual é o limite do deboche quando falamos de saúde mental?

 

Dani, interpretada por Débora Falabella, durante uma crise de ansiedade.

A inserção de textos explicativos sobre as cenas é uma das características da estética pop adotada na direção do filme. [Imagem: Reprodução / Paris Filmes]

O incômodo diminui um pouco à medida que o peso dramático aumenta suavemente. As várias facetas de Dani enquanto filha, namorada, profissional e mulher independente mostram que o filme não é só uma piada, mas sim uma busca constante para se libertar de trabalhos infelizes, relações tóxicas, vícios medicamentosos e, acima de tudo, medos paralisantes. 

Falabella (Lisbela e o Prisioneiro, Todo Clichê do Amor) explora as diferentes emoções com intensidade e entrega uma performance capaz de despertar a empatia do público. Em entrevista coletiva, ela afirma que não se via fazendo um filme para ser engraçado e que se inspirou em experiências pessoais com episódios de ansiedade. “Algumas situações acabavam se tornando engraçadas porque iam para o lugar do absurdo, mas é também a personagem se enxergando, a forma dela de contar a história”, diz ao citar que o filme é narrado por Dani, o que permite um olhar irônico e bem-humorado de quem passou pela situação. 

Centrais na trama são ainda os papéis do namorado e da mãe. Gilberto (Gustavo Vaz) é um homem que também sofre com ansiedade e não tem medo de admitir seus problemas – o que nem sempre ajuda na relação dos dois, mas é uma porta aberta à compreensão mútua. Silvia (Yara de Novaes) é o arquétipo maternal controlador, em eterno conflito entre incentivar e limitar a liberdade da filha. No fim, o conjunto de personagens disfuncionais nos faz pensar que, no fundo, ninguém está bem e que essa teia de disfunções se emaranha em uma estrutura social que favorece o adoecimento psíquico.

 

Gilberto (Gustavo Vaz) em Depois a Louca Sou Eu.

Apesar da relevância de Gilberto na trama, o filme se afasta das tradicionais comédias românticas e se recusa a focar no casal como fator principal da vida de Dani. [Imagem: Reprodução / Paris Filmes]

A crítica, no entanto, é sutil e poderia ser melhor explorada com uma dose menor de deboche. Faltou cuidado ao abordar as diferentes opções de tratamento para o transtorno de ansiedade. Dani busca várias, mas todas são ridicularizadas e apresentadas como ineficazes ou perigosas. A impressão que fica é de que é preciso chegar ao fundo do poço para se aceitar e lidar com o problema sem ajuda profissional. 

Além disso, a rapidez com que o filme se desenrola não permite aprofundar nas consequências cotidianas da automedicação, com exceção do dramático episódio que marca a parte final do enredo. Efeitos colaterais como perda da capacidade de orgasmo são citados de forma cômica, enquanto Dani consome as pílulas como inofensivas pastilhas efervescentes. Na visão de Rezende, que buscou inspiração em produções como Réquiem Para um Sonho (Requiem for a Dream, 2000), o comprimido sintetiza os vários antiansiolíticos e é também um personagem. Neste sentido, merecia uma problematização à altura.

 

Em Depois a Louca Sou Eu, os medicamentos contra ansiedade ganham destaque.

O consumo de comprimidos antiansiolíticos se torna tão comum em algumas partes do filme que as pílulas ganham cenas próprias. [Imagem: Reprodução / Paris Filmes]

Apesar dos problemas e do tom que, em alguns momentos, arrisca ofender quem convive com o transtorno de ansiedade, a produção faz refletir sobre o que mantém a coesão e a coerência das inúmeras bolas de gude que representam as várias partes do “eu”.

A estreia do filme estava marcada para abril de 2020, mas os planos foram adiados devido à pandemia de Covid-19. Para a diretora e o elenco, a mudança de data acaba por aproximar ainda mais o público dos desafios vividos por Dani, já que as incertezas, os medos e os distanciamentos de um período pandêmico alimentam a ansiedade de uma geração já muito ansiosa.

Depois a Louca Sou Eu tem data de estreia prevista para 25 de fevereiro no Brasil. Confira o trailer:

*Imagem de capa: Reprodução/Paris Filmes

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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