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Você suportaria ficar sem trabalho?

Para muitas pessoas, a resposta para essa pergunta é “não”. Mais do que um prejuízo material, o desemprego representa uma situação de estresse que pode levar ao adoecimento

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01 out 2021 | Por Valentina Moreira (mcandido.valentina@usp.br)

Na última pesquisa apresentada em agosto pelo IBGE foi divulgado que, entre abril e junho de 2021, 14,1% da força de trabalho brasileira estava desocupada. Em termos aproximados, isso significa que, no segundo semestre deste ano, havia uma pessoa à procura de emprego para cada seis pessoas empregadas. 

Ainda que essa taxa represente um recuo em relação ao primeiro trimestre de 2021, quando foi atingido o recorde de 14,7%, trata-se da maior taxa de desemprego para um segundo trimestre de toda a série histórica do IBGE, iniciada em 2012. Maior do que em 2020, no início da pandemia, e maior do que em qualquer ano entre 2014 e 2017, no auge da recessão econômica. 

Para as 14,4 milhões de pessoas que compõem essa porcentagem, a retomada econômica e o aumento dos postos de trabalho parece vir muito devagar. Mesmo com a volta das atividades, as perspectivas para o futuro não são boas e, com a lentidão na criação de novas vagas, 2022 parece já estar comprometido. 

Por trás das previsões econômicas, cresce a sensação de apreensão. Entre os desempregados, há quem consegue abrir o pŕoprio negócio, “descolar um bico”, manter o sustento na informalidade. Por outro lado, tem quem fique completamente desamparado, perdendo inclusive o propósito de continuar a procura de trabalho os chamados desalentados. Mesmo com as diferenças, para a maioria das pessoas o desemprego traz consigo questionamentos sobre o sentido da vida, que pode levar à frustração e ao adoecimento mental.

As causas desse cenário de desesperança ultrapassam a instabilidade econômica trazida pela pandemia. Há as mudanças nas dinâmicas de trabalho e nos problemas de qualificação da mão de obra. Em camadas mais profundas, tem-se o posicionamento do Brasil enquanto país periférico, um problema que se perpetua além das crises.

 

A crise do emprego não surgiu com a pandemia da Covid-19  

Não é possível falar de desemprego no Brasil sem antes contextualizá-lo com o posicionamento geopolítico do país. Pelo menos é assim que pensa Flávia Uchôa, doutora em psicologia do trabalho e professora na universidade Uninove. “Como diria Ricardo Antunes, a América Latina é um ‘Continente do Labor’. A exploração da mão de obra, a nossa relação com o trabalho, está ligada às demandas dos países ricos. E o desemprego também.”

Flávia explica que, como país periférico, o Brasil não possui uma autonomia econômica e se posiciona na Divisão Internacional do Trabalho (DIT) com a função de corresponder às tendências de consumo internacionais, um lugar que está ligado à instabilidade permanente. Assim, se em um cenário de estabilidade os países periféricos já convivem com taxas de desemprego oscilantes, em crises mundiais, eles serão sempre os mais afetados economicamente.

 

“Diante de uma crise, a empresa fecha, faz a redução de funcionários. E, devido à necessidade, você tem que pegar qualquer coisa. É muito frustrante”

Fernando de Paula, engenheiro desempregado

 

Como consequência desse cenário de inconstância, Flávia esclarece que a relação do brasileiro com o trabalho ainda possui muitas lacunas. Segundo ela, ao contrário do que acontecera em países europeus, no Brasil a relação do indivíduo com o trabalho assalariado, aos moldes do capitalismo, ainda é muito recente e frágil. Afinal, como escreve Ricardo Antunes, “na América Latina, saltou-se quase que diretamente do trabalho rural, da escravidão africana ou indígena para novas formas de trabalho assalariado industrial”. 

Ainda sob a perspectiva do sociólogo, se em países europeus o trabalhador experimenta uma relação de segurança com sua posição de trabalho, sendo protegido por uma legislação trabalhista solidificada, no Brasil a relação entre o trabalhador e o trabalho está sempre mediada pelo risco do desemprego. Uma ameaça que está intimamente ligada às condições de exploração e à precarização do trabalho.

 

Imagem que ilustra a taxa de desemprego no Brasil


A história de Fernando de Paula, engenheiro de controle e automação, exemplifica isso. Ele ficou desempregado em 2020, quando a multinacional em que trabalhava como técnico encerrou suas operações no Brasil, demitindo-o junto com outras 150 pessoas. Mas, antes disso, sua carreira já passava por um caminho de altos e baixos. 

Após 10 anos trabalhando no setor industrial, já com uma formação técnica em automação industrial, ele seguiu o sonho de se tornar engenheiro. A expectativa era de que sua experiência na área pudesse facilitar a entrada no mercado. Infelizmente, não foi o que aconteceu. “Durante o curso, acabei saindo da empresa onde trabalhava e, quando estava para formar, veio a crise de 2014. Quando me formei, estava desempregado. E por isso, precisei sair do meu país, porque aqui não tinha oportunidade para mim naquele momento.” 

De volta ao Brasil em 2017, ele conta que mesmo com a qualificação anterior e a experiência internacional, ele não conseguiu se realocar. Na época, o país estava no pior ano da crise e precisou trabalhar como motorista de aplicativo para sobreviver. “Voltei para o Brasil pensando ‘vou voltar, vou conseguir me estabelecer, usar a experiẽncia que tive lá fora’. Só que quando eu cheguei aqui, ainda estava no meio da crise. E aí começa tudo de novo, correr atrás e tudo mais”, ele narra.

Somente em 2019, Fernando conseguiu um trabalho de técnico na indústria. Com a pandemia, contudo, a empresa fechou sua operação e ele foi demitido novamente. Após a segunda demissão, em setembro de 2020, o engenheiro voltou para o aplicativo. Alguns meses depois, Fernando tem conseguido “bicos” como eletricista. “Você chega em um certo nível de experiência, de conhecimento, consegue trabalhar em cargos melhores, com salários melhores. Diante de uma crise, a empresa fecha, faz a redução de funcionários. E, devido à necessidade, você tem que pegar qualquer coisa. É muito frustrante!” 

 

“O desemprego está atrelado à desregulação do nosso ciclo diário, em distúrbios do sono, como a insônia e a hipersonia”

Flávia Uchôa, psicóloga do trabalho

 

As idas e vindas na carreira de Fernando são um exemplo de que, no Brasil, os problemas nas relações com o emprego são uma ameaça muito anterior à pandemia da Covid-19. São problemas que fazem parte da própria lógica de trabalho no país, que torna improvável ter uma trajetória segura, mesmo diante da qualificação. Segundo a psicóloga Flávia Uchôa, esse cenário provoca  um desgaste emocional constante do trabalhador.

 

Consequências do desemprego

Uchôa explica que, no sentido psicológico, o trabalho possui uma função muito mais abrangente do que ser uma fonte de renda. “Trabalho é a construção de si, daquilo que a gente faz no mundo e daquilo que a gente é. Trabalho também é sociabilidade, também é subjetividade. É nos colocar em um determinado espaço no mundo, atuando sobre ele e nos construindo como sujeito.”

Dessa forma, estar desempregado significa também ser privado de um espaço onde é possível se conhecer e se relacionar com os outros. Mais do que isso, é perder uma ferramenta que ajuda a dar sentido à existência no mundo, que estabelece uma participação na sociedade produtiva. 

Por isso, a psicóloga explica que perder o emprego pode despertar quadros de problemas de sono, depressão e ansiedade. E foi justamente isso que aconteceu com Daniel, motorista e dono de uma van que faz transporte universitário.

Antes da pandemia, Daniel conta que trabalhava de segunda a segunda e se orgulha por já ter ganho cerca 2 mil reais por fim de semana. Com a crise sanitária e o fechamento das universidades, a demanda desapareceu. “No início fiquei muito chateado. Estava até tomando remédio para depressão. Não tinha vontade de fazer nada”, ele conta. 

Hoje, a renda de Daniel passou a depender do auxílio emergencial e da ajuda de até 300 reais que recebe de sua mãe, além do que consegue arrecadar com “bicos”. O que recebe paga parte das despesas básicas, mas não sobra para nada. “Eu fico triste, né? Não dá mais para sair aos fins de semana, levar meu filho para comer fora, reunir com os amigos. Agora não dá mais para fazer nada disso.”

A vida começou a melhorar para o motorista quando seu filho se mudou para sua casa e os dois adotaram um cachorrinho. Desde então, Daniel voltou a ter uma rotina. Mesmo mais feliz, contudo, a cobrança de Daniel sobre si é bastante nítida. Ele conta que começou a trabalhar aos 14 anos e que, desde então, nunca tinha ficado parado por mais de quatro meses. “Eu sempre gostei de trabalhar. Não tenho preguiça. Quando eu tinha 17 anos, meu pai me perguntou se eu queria estudar ou trabalhar. Aí eu já quis trabalhar, para poder ter as coisas. Para você ter uma ideia, eu comprei minha moto com 17 anos”. 

Preocupado em não parecer preguiçoso, Daniel fala que sabe trabalhar como pintor, faxineiro e o que mais aparecer pela frente. Nos últimos meses, candidatou-se até para trabalhar com serviços gerais. Mas com o 2° grau incompleto e sem experiência na carteira, ele ainda não foi chamado por nenhuma empresa.  

Sobre isso, a psicóloga Flávia Uchôa explica que a cobrança excessiva presente em pessoas como o Daniel é herança da percepção que o insucesso profissional é resultado da falta de esforço. Sob essa visão, o trabalhador carrega sozinho as responsabilidades de um problema que também é coletivo. Assim, mesmo que o desemprego tenha causa em fatores externos, a decepção está voltada para si, atingindo a confiança pessoal e aumentando as chances de adoecimento.

Uchôa afirma que hoje existe um esforço maior para acolher essas pessoas, mas o acolhimento por si só não basta. “Quando falamos em saúde mental, o foco da psicologia ainda está muito voltado para o sujeito, sem levar em conta que aquele sofrimento está inserido em um contexto. Precisamos criar outras possibilidades.”

 

Diferentes vivências em uma massa de desempregados

Na ocasião da entrevista feita para esta reportagem, o engenheiro eletricista Antônio* estava há um ano e um mês desempregado. Há 12 anos ele se mudou de Minas Gerais para o interior de São Paulo, para trabalhar em uma empresa multinacional. Desde 2017, a empresa estava sinalizando para seus funcionários sobre possíveis desligamentos na unidade. Assim, Antônio teve 3 anos para planejar a sua carreira antes que fosse demitido. 

Em razão dessa antecedência, o engenheiro conta que, mesmo desempregado, estava finalizando duas pós-graduações. “Os dois cursos eu comecei antes mesmo de ser desligado, já pensando em turbinar o meu currículo para enfrentar o problema da realocação”. 

No momento em que foi demitido, Antônio tinha uma reserva financeira suficiente para sustentá-lo por até cinco anos de desemprego. Assim, a questão econômica não é a sua principal preocupação. 

“Existem outros fatores que me pressionam. Coisas como não se sentir produtivo, se sentir fora de uma rotina de acordar cedo, preparar para ir para a empresa, passar o dia lá e depois voltar para casa.” O tempo que está desligado também o preocupa. “Se você demora muito para se realocar, isso irá influenciar na sua aposentadoria, por exemplo.”

 


Nesse sentido, sua experiência é muito diferente dos outros entrevistados. Enquanto o engenheiro Fernando precisou aceitar trabalho em cargos inferiores e Daniel perdeu sua autonomia financeira, Antônio pode escolher como será o seu futuro. “Eu não vejo o mercado retomar tão rápido em relação a emprego. Por isso, até o final do ano, vou tomar uma decisão: ou eu monto um negócio para mim, com o MBA em gestão empresarial que estou fazendo na FGV, ou persisto em procurar emprego”, ele narra.  

 

“Essa ideia de ‘ser o meu pŕoprio patrão’ camufla o fato do mercado não ser capaz de absorver o trabalhador”

Flávia Uchôa, psicóloga do trabalho

 

Para Uchôa, compreender essas diferenças é fundamental para a adoção de políticas públicas. Ela lembra que “a precarização do trabalho atinge a todos, mas de maneiras diferentes.” Assim, enquanto para os dois engenheiros trabalhar por conta própria é uma alternativa de renda, para Daniel nunca existiu uma outra opção. “Existe uma parcela da população brasileira que é formada na sevirologia (“especializado” em “se virar”, dar um jeito). Para essas pessoas, o trabalho formal não é uma possibilidade”, a psicóloga pontua.

Neste aspecto, Uchôa ainda ressalta os perigos do discurso do empreendedorismo. “Essa ideia de ‘ser o meu pŕoprio patrão’, para que eu consiga fazer o que nenhum emprego ou coletividade foi capaz de oferecer, camufla o fato do mercado não ser capaz de absorver o trabalhador. É um reforço àquela percepção que o indivíduo é responsável por problemas sociais”, completa.  

 

Desalento: o que acontece quando não há esperança

Pensando nas diferentes vivências possíveis entre as pessoas que perderam seus empregos, há um fenômeno que chama atenção: o desalento. A pessoa nesse estado deixa de ser desempregada, não porque obteve sucesso em sua realocação profissional, mas sim pois desistiu de procurar uma vaga. 

Hoje, existem 6 milhões de brasileiros desalentados, uma contingência que não pode ser explicada pela simples decisão individual. A realidade é que o desalento está intimamente ligado à perpetuação do desemprego e à falta de perspectiva de futuro. 

“O desemprego está atrelado à desregulação do nosso ciclo diário, em distúrbios do sono, como a insônia e a hipersonia. Quando isto está relacionado a quadros depressivos ou de ansiedade, em um desemprego de longa duração, de mais de 6 meses, o corpo é atingido a longo prazo.” A psicóloga explica que em um cenário de impossibilidade de ver um horizonte e de retomar à estrutura que a pessoa está acostumada, o impacto se prolonga, “causando a não procura, o desalento”.

Após um ano e meio em casa, Antônio entende bem esse processo. “Trabalhar não é só uma questão salarial. É uma questão de evoluir, de aprender coisas novas, de dar retorno, cumprir entrega.” Contudo, o engenheiro conta que não tem mais esse sentimento. “O que vem é justamente o contŕario. É se sentir improdutivo, sem vontade. Por isso, boa parte de quem está desempregado hoje desistiu de procurar emprego, porque já procurou demais, se esgotou de tanto correr atrás”, desabafa.

O crescimento do desalento afeta o futuro do desenvolvimento econômico brasileiro. A previsão que 2022 será um ano de altas taxas de desemprego também diz respeito a uma expectativa que, com o aumento dos postos de trabalho, as pessoas fora do mercado de trabalho irão voltar a procurar emprego, mantendo alto o número de desempregados. 

 

*Nome fictício. O entrevistado desejou não ser identificado

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