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Terremotos no Japão: as medidas tomadas para que os tremores não abalassem a vibração das Olimpíadas de 2021

Dez anos após o acidente de Fukushima, o Japão preparou-se para sediar os Jogos Olímpicos com segurança em caso de abalos sísmicos, que são frequentes no país

Biosfera
18 ago 2021 | Por Bianca Camatta (biancacamatta@usp.br), Eslen Brito (eslenbrito@usp.br) e Letícia Naome (leticianaome@usp.br)

No Japão, em 2010, ocorreu um desastre natural de escala catastrófica. Um terremoto de 9 graus de magnitude na escala Richter, vindo do oceano Pacífico, atingiu o país na forma de tremores intensos e de um tsunami. Essa foi a causa do histórico acidente na usina de Fukushima, que deixou marcas ainda visíveis no país. Dez anos depois, o país sediou um evento de grande relevância internacional: os Jogos Olímpicos de Tóquio 2020, inclusive conhecidos como “Jogos da Recuperação”, por demonstrarem a superação japonesa do desastre.

 

Os terremotos no Japão

Situado em uma região naturalmente suscetível à ocorrência de terremotos, é compreensível questionar se a realização das Olimpíadas no país era realmente segura. Isso porque o Japão está localizado entre quatro placas litosféricas — nome cientificamente correto para as placas tectônicas. São elas as placas do Pacífico, da América do Norte, da Eurásia e do Mar das Filipinas. 

De acordo com Carlos Alberto Chaves, professor do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências da Universidade de São Paulo (IAG-USP), há constante movimento dessas placas devido à convecção do manto terrestre e ao deslocamento do magma abaixo da crosta terrestre — camada mais superficial de nosso planeta. Essa movimentação aumenta os riscos de terremoto na superfície. “Eventualmente, o aumento da tensão causada pelo movimento das placas excede o atrito entre elas e ocorre um terremoto, geralmente com grande liberação de energia, em parte na forma de ondas sísmicas”, afirma.

Representação artística da estrutura interna da Terra [Imagem: Reprodução/Maria Cristina Motta de Toledo]

Representação artística da estrutura interna da Terra [Imagem: Reprodução/Maria Cristina Motta de Toledo]

 

Chaves diz também que a região do arquipélago japonês concentra cerca de 20% dos terremotos registrados no mundo, e, dos quase cem mil registros mundiais por ano, aproximadamente 1,5 mil podem ser sentidos pela população japonesa. Com essa grande ocorrência, os japoneses estão sempre prontos para esse tipo de evento e criaram até o Dia Nacional de Prevenção de Desastres. “É um país bastante preparado para lidar com terremotos, sendo que os treinamentos de segurança começam já na infância”, completa o professor.

Mas, e se um terremoto catastrófico acontecesse durante os Jogos de Tóquio 2020? Chaves explica: “Como terremotos de grande magnitude ocorrem com menos frequência e as Olimpíadas ocorreram num intervalo curto de tempo, não era esperado que o Japão fosse atingido por um terremoto catastrófico, mas tal possibilidade não poderia ser excluída”. 

Apesar da possibilidade de abalos sísmicos durante os Jogos Olímpicos, o professor explica que não é possível prevê-los, apenas estimar probabilidades de ocorrência dentro de um período específico de alguns anos. Logo, se um grande terremoto atingisse a capital nipônica no momento dos Jogos Olímpicos, ele viria sem aviso prévio — surpreendendo a maioria dos atletas, que não possuem treinamento específico sobre como agir em caso de terremotos. Por isso, era necessário que as estruturas olímpicas fossem preparadas para suportar tal situação. 

 

A tecnologia resistente a sismos

[Imagem: Reprodução/ Eduardo Marques Pereira]

Em virtude do histórico de desastres sísmicos, as construções japonesas são resistentes aos abalos e seguem um código de construções que enquadra o país dentre os mais preparados para esses fenômenos. Eduardo Marques Pereira, engenheiro civil pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e doutorando na área de engenharia sísmica pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), conta que uma das tecnologias que se destaca nesse tipo de situação são os isoladores sísmicos. Ele esclarece que essa tecnologia utiliza camadas de borracha e aço colocadas em locais específicos da estrutura de uma construção, que variam de acordo com cada projeto e seus objetivos.

Pereira esclarece que, quando um terremoto atinge uma construção normal, as vibrações dos sismos atuam na fundação das estruturas, o que as derruba. Já com isoladores sísmicos, há a redução dessas vibrações, visto que o material de borracha é muito flexível lateralmente — sentido em que os sismos incidem da pior maneira nas edificações — e rígido verticalmente. A flexibilidade faz com que os isoladores vibrem e o prédio não, enquanto a rigidez impede o deslocamento vertical do edifício.

E como essas tecnologias antiterremoto estão presentes nas Olimpíadas? No Japão, as estruturas das competições também foram criadas para suportar terremotos. “A arena de vôlei, por exemplo, contém ‘almofadas de borracha’ gigantes que absorvem choques para evitar o tremor”, comenta Chaves. As “almofadas” — ou seja, os isoladores sísmicos — foram colocadas entre a cobertura e as arquibancadas nessa construção, explica Pereira. 

Arena Ariake, que sediou os jogos de vôlei nas Olimpíadas de Tóquio. [Foto: Mark Jochim/Flickr]

Arena Ariake, que sediou os jogos de vôlei nas Olimpíadas de Tóquio. [Foto: Mark Jochim/Flickr]

 

Então, se ocorresse um terremoto durante uma partida de vôlei, por exemplo, os atletas poderiam ficar tranquilos, já que o ginásio foi preparado para esse tipo de situação.

Todavia, Pereira ressalta que há uma aceleração máxima de movimentação da estrutura e que, quando atingida por um abalo de alta magnitude, essa tecnologia pode não suportar o abalo. Esse valor máximo é definido de acordo com análises estatísticas de eventos que já ocorreram em uma região. “A partir disso, coloca-se um limite superior que seja suficiente para garantir uma segurança adequada”, explica o engenheiro. Mesmo assim, as construções podem sofrer danos com possíveis terremotos.

Terremotos, quando ocorrem em pontos submarinos, ainda podem desencadear grandes e múltiplas ondas no oceano — como aconteceu há dez anos em Fukushima. Por isso, algumas construções também são planejadas para diminuir o perigo que os tsunamis representam. “A Vila Olímpica é protegida por paredões que podem proteger as instalações contra tsunamis [com ondas] de até 2 metros”, acrescenta Chaves.

Tóquio saiu ilesa de terremotos no período das Olimpíadas?

“Realmente, algumas pessoas relataram [abalos sísmicos]. Mas eu não senti nada, e o Branco [coordenador de base da Confederação Brasileira de Futebol (CBF)], também não. As construções daqui são preparadas para isso e os prédios contam com amortecimento”, relatou à ESPN Leomar Quintanilha, chefe da delegação da seleção brasileira masculina de futebol no Japão, após as proximidades de Tóquio terem sido atingidas por terremotos de magnitude 4,7 e 6 graus no dia 4 de agosto.

Fora isso, segundo o Catálogo Preliminar de Epicentros, foram registrados também 50 eventos sísmicos com magnitude maior que 4 graus durante o período dos jogos.

Mesmo sem desastres até o fim das Olimpíadas, esses dados demonstram a frequência dos abalos sísmicos no país e como a tecnologia resistente aos terremotos evitou desconfortos durante o período de competições.

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