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Futebol de cegas: um paradesporto em crescimento no Brasil e no mundo

Praticada por mulheres com deficiência visual, a modalidade — ignorada por muito tempo por não estar nos Jogos Paralímpicos — tem ganhado mais atenção nos últimos anos

ARQUIBANCADA
22 dez 2022 | Por Ingrid Gonzaga (ingrid.gonzaga@usp.br)

Que o Brasil é o país do futebol, todo mundo sabe. Os jogos às quartas-feiras são tão parte da rotina dos brasileiros quanto os almoços em família aos domingos, e o time para o qual se torce é uma informação crucial, assim como idade ou profissão. A seleção brasileira masculina de futebol é um dos maiores orgulhos nacionais há décadas. Uma história de glórias, diversos craques que marcaram época e o título de maior campeã das Copas angariam uma legião de torcedores apaixonados por essa equipe — e por esse esporte.

Os brasileiros também são dominantes na versão paralímpica do futebol. Desde que o futebol de cegos foi adicionado aos Jogos Paralímpicos, em 2004, o Brasil venceu em todas as edições. Nos campeonatos mundiais organizados pela IBSA (a Federação Internacional dos Desportos para Cegos), a equipe masculina verde e amarela é pentacampeã — venceu cinco das sete competições realizadas até hoje.

Mas mesmo que exista esse grande amor pelo futebol no país e que a equipe masculina de futebol de cegos seja tão vitoriosa, pouco se ouve falar dos resultados da equipe feminina nos campeonatos. E o motivo é bem simples: esses resultados não existem, pois o futebol de cegas sequer é considerado uma modalidade paralímpica. 

A breve história do futebol de cegas no Brasil

A trajetória do futebol de cegas no país é pouco conhecida. Quase nada se encontra sobre as primeiras tentativas de instalação da modalidade por aqui e, por isso, é difícil compreender as evoluções pelas quais esse esporte vem passando com o passar dos anos. 

Para entender melhor sobre o passado recente do futebol de cegas, o Arquibancada conversou com Gabriel Mayr, que em 2009 foi o técnico da primeira equipe para mulheres com deficiência visual: o time da Urece. Hoje, ele trabalha como consultor de esportes para o desenvolvimento e a paz, exercendo essa função até em organizações internacionais — como fez em uma cátedra da UNESCO, na Irlanda.

A Urece Esporte e Cultura para Cegos, localizada no Rio de Janeiro, é uma associação sem fins lucrativos. A organização oferece a pessoas com deficiência visual o contato com modalidades esportivas paralímpicas e também está envolvida na defesa dos direitos de indivíduos com deficiência.

“O time da Urece foi criado em 2009”, conta. Mayr havia feito, em sua pesquisa de mestrado na Europa, a primeira clínica de futebol para cegas na Alemanha. No ano seguinte, a associação alemã de cegos tomou a iniciativa de organizar o primeiro campeonato europeu de futebol de cegas e convidou Gabriel para realizar um curso. Foi então que ele sugeriu que um time brasileiro fosse adicionado à competição, e o campeonato europeu se tornasse um mundial. “Em três meses a gente começou a treinar as meninas, foi atrás de patrocínio e conseguiu que a Marta fosse a madrinha”. Mesmo com o pouco tempo de treino, a equipe brasileira foi campeã. “A gente ganhou o campeonato. Foi uma vitória e dois empates”. 

“Até então a gente não conhecia nenhuma iniciativa aqui no Brasil de futebol para mulheres cegas — e olha que a gente procurou bastante”. Por isso, foram feitas tentativas para que a modalidade fosse mais difundida no país: “no ano seguinte realizamos clínicas em alguns estados do Brasil, tentando iniciar com mais participantes. Tinha inicialmente uma receptividade muito grande, mas as equipes eram desencorajadas a continuar porque não era um esporte oficial”.

A equipe da Urece, pioneira, não existe mais. As atletas, apesar de possuírem patrocínio, não se sentiam motivadas a continuar no futebol e pediram para que o projeto fosse interrompido. O motivo: a inexistência de outros times. Elas queriam que mais mulheres cegas jogassem para poderem competir, treinar e crescer juntas — o que foi impossibilitado pela falta de apoio para a modalidade no resto do país. Para suprirem suas necessidades, muitas delas migraram para o goalball.

Mas ainda que só tenham ganhado uma competição, as meninas da Urece podem ser consideradas muito vitoriosas. De acordo com Mayr, os feitos delas mudaram a visão da associação, que passou a valorizar o potencial de transformação social do esporte e avançou nas discussões sobre gênero. Além disso, a equipe da Urece se tornou modelo para a de Córdova, na Argentina, que é atualmente líder na América Latina no futebol de cegas. “Foi um projeto que ressaltou o potencial do esporte feminino”.

“Para a minha vida, também é uma conquista. É algo de que eu tenho um orgulho muito grande”

Gabriel Mayr

Nos dias de hoje, não existem oficialmente equipes de futebol de cegas no Brasil, segundo o órgão nacional que coordena o desporto para deficientes visuais.

Futebol e mulheres: uma história de exclusão

A relação entre as mulheres e o futebol no Brasil é conturbada há muito tempo. Em 1941, o então presidente Getúlio Vargas proibiu com um decreto a prática do futebol feminino no país. O argumento que justificava essa proibição dizia que esse esporte era muito violento e poderia afetar a “natureza das mulheres”, que era preparada para torná-las mães. A lei só foi revogada mais de 30 anos depois, em 1979. 

Página da Folha de S. Paulo com o artigo 54, que proibia mulheres de praticarem esportes, como o futebol.

Art. 54 proibia mulheres de praticarem esportes “incompatíveis com a sua natureza” (Imagem: Reprodução/Arquivo Folha de S. Paulo)

Mesmo nos dias de hoje, as mulheres encontram muitas barreiras no futebol. Em eventos de grande porte, a seleção feminina sofre com comentários preconceituosos vindos por parte do público que insinuam que mulheres não são capazes de jogar tão bem quanto os homens ou que os gramados não são o lugar delas.

Manchete de jornal de 1941, insinuando que mulheres não deveriam praticar futebol (Imagem: Reprodução/Arquivo O Imparcial)

No cenário paralímpico não é diferente. Ainda que a premissa das modalidades paralímpicas seja justamente a inclusão, o futebol de cegos perpetuou de maneira mais acentuada a exclusão de gênero já existente no futebol para pessoas sem deficiência. Sem motivos aparentes, as mulheres com deficiência visual não possuíam, até pouco tempo, a menor chance de praticar o futebol de maneira mais profissional. Para Mayr, o que pode esclarecer essa situação é a estrutura machista de organizações e do próprio futebol.

“Há muito tempo, o futebol é feito só para homens. E aí é um círculo vicioso, porque começou só para homens, entrou só para homens nas Paralimpíadas, só tem investimentos para os homens, as organizações nacionais não tem interesse de fazer o futebol para mulheres porque não é um esporte paralímpico. Foi um círculo vicioso que durou muito tempo”, explica. “Acho que teve esse início muito sexista, muito misógino, que foi se transformando numa espiral de falta de oportunidades e apoio”

Locais diferentes, dificuldades semelhantes

Tanto no âmbito nacional quanto no mundial, os desafios na implementação do futebol de cegas são muitos — e são semelhantes. “Trabalhar com futebol feminino no Brasil sempre foi bastante desafiador, principalmente pela falta de apoio”, diz Felipe Menescal, gerente técnico e de eventos da Confederação Brasileira de Desportos de Deficientes Visuais (CBDV). “Como o futebol feminino de cegas não é uma modalidade paralímpica (que faz parte dos Jogos), a CBDV não tem nenhum recurso para realizar os eventos de futebol feminino”.

Questionado sobre os empecilhos da modalidade, Elias Mastoras, coordenador mundial do comitê de futebol da IBSA, apresenta a mesma opinião de Menescal: “o principal desafio é que o futebol feminino não é um esporte paralímpico”. Ele conta o empenho da seleção alemã para participar do primeiro campeonato europeu de futebol de cegas, que aconteceu em junho: “(elas) conseguiram viajar para se juntar à edição europeia graças ao amor dos apoiadores, por meio de financiamento coletivo”.

A falta de competições também desestimula o crescimento do número de adeptas ao esporte. “Acaba não sendo atrativo para que atletas pratiquem a modalidade, por falta de um objetivo final”, explica Felipe. Atualmente, não existem campeonatos de futebol para mulheres cegas no Brasil — enquanto os homens cegos possuem seis. O comentário de Menescal é comprovado quando se lembra do destino da antiga equipe da Urece.

Um cenário de mudança: surgem os primeiros eventos

Mesmo que pareça desanimadora, a situação do futebol de cegas, aos poucos, começa a apresentar melhoras. Em maio, no Centro de Treinamento Paralímpico Brasileiro, a CBDV organizou o I Festival de Futebol de Cegas. O evento estava previsto para 2020, mas com a pandemia foi adiado para 2022. 

O festival tinha a intenção de fomentar o interesse pela prática e reunir mulheres cegas que têm vontade de jogar bola: “a maioria das inscritas já são atletas que praticam outras modalidades paralímpicas, como o goalball, algumas inclusive com passagens pela seleção brasileira principal e seleções de base”. As atletas puderam participar de palestras sobre as regras da arbitragem do futebol, de atividades de introdução ao espaço e adaptação com a bola e de jogos amistosos com equipes montadas aleatoriamente com as inscritas.

“A maior satisfação foi ver que todas saíram do festival muito felizes com tudo o que tinha sido realizado durante os três dias de atividades no CT Paralímpico”

Felipe Menescal

E não só no Brasil essas mudanças começaram a surgir. No resto do mundo, os primeiros campeonatos regionais de futebol de cegas estão acontecendo. A primeira competição europeia foi realizada no início de junho, na Itália, e contou com a participação das seleções inglesa e alemã. A Alemanha, ainda com a falta de apoio financeiro, foi quem levantou a taça. A equipe da Inglaterra, segunda colocada, teve apoio da federação inglesa. 

Mastoras descreve com simplicidade os sentimentos com a realização do europeu: “foram únicos”. Ele relata também as estatísticas da competição — uma média de quatro gols em cada jogo. “A primeira artilheira tem apenas 16 anos: Thoya Kuster, da Alemanha, Este é o resultado de um incrível trabalho de base desde o início em Hamburgo”. Para os próximos meses, estão previstos os primeiros campeonatos americanos, asiáticos e africanos.

Um futuro de esperança

Se no presente a modalidade dá os primeiros passos para sua total implementação, o futuro parece reservar muito mais sucesso para o futebol de cegas. No ano que vem, pela primeira vez, acontecerá um campeonato mundial da categoria organizado pela IBSA. “De acordo com a inscrição nos campeonatos regionais, já temos duas equipes na Europa, duas equipes na Ásia-Pacífico, três equipes na África e infelizmente apenas a Argentina se inscreveu na região das Américas, até agora. Isso significa que é possível ter 8 equipes no Campeonato Mundial em Birmingham, em agosto de 2023”, prevê Mastoras.

O problema que impede o futebol de cegas de receber mais investimentos — o fato de não ser uma modalidade paralímpica — pode estar próximo de ser resolvido: “decidimos nos inscrever nos Jogos Paralímpicos de Los Angeles 2028 para incluir também a edição feminina. Embora ainda seja primitivo, existe um potencial e, se aprovado, uma nova era começará no início de 2023”.

E no país do futebol, o esporte nacional também se move para incluir a todos e todas. A base do que serão as futuras equipes de cegos e cegas são agora crianças e já apresentam interesse pela prática esportiva. Segundo Filipe Bari, coordenador da Escola Paralímpica de Esportes, esse projeto é como uma escolinha de esportes paralímpicos e oferece futebol para cegos e cegas. “Nossas turmas são mistas, então existem meninos e meninas que praticam a modalidade”, afirma.

Além disso, uma segunda edição do Festival de Futebol de Cegas está nos planos: “como o evento foi um sucesso, para 2023 certamente teremos outros. Talvez ainda este ano consigamos realizar a segunda edição”, conta Menescal. Para que isso aconteça, a CBDV precisa de recursos financeiros, que esperam conseguir de iniciativas privadas.

Mulheres jogando na primeira edição do Festival de Futebol de Cegas (Imagem: Reprodução/Flickr)

Quanto ao mundial de 2023, uma equipe brasileira provavelmente não participará. A Confederação prefere que a modalidade esteja bem consolidada em território nacional para só depois alçar voos maiores. “A expectativa é de que em alguns anos possamos ter um calendário esportivo de futebol feminino acontecendo no Brasil e participar dos eventos internacionais com uma seleção bem preparada”.

“Não é fácil, mas sonhamos grande”

Elias Mastoras

Arquibancada
O Arquibancada é a editoria de esportes da Jornalismo Júnior desde 2015, quando foi criado. Desde então, muito esporte e curiosidades rolam soltos pelo site, sempre duas vezes na semana. Aqui, o melhor de todas as modalidades, de todos os pontos de vista.
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