Por Renata Paes (renatapaes777@usp.br) e Thaiza Souza (thaizasouza@usp.br)
Na última quinta-feira (21), o Pro Magno Centro de Eventos, em São Paulo, recebeu o segundo e último dia do Impacta Mais 2026 – Fórum de Economia de Impacto. A iniciativa reuniu investidores, empresários, representantes do poder público, pesquisadores e lideranças acadêmicas para discutir soluções sustentáveis para os desafios ambientais e sociais da atualidade. O encontro consolidou-se como um espaço de diálogo estratégico voltado à construção de modelos econômicos mais responsáveis, inovadores e alinhados às demandas globais de desenvolvimento sustentável.
Ao longo da programação, os visitantes acompanharam painéis temáticos, palestras, rodadas de negócios e apresentações de projetos voltados à economia verde, inovação social, transição energética e práticas ESG (ambiental, social e de governança, na sigla em português). Especialistas de diferentes setores compartilharam experiências, pesquisas e iniciativas que buscam conciliar crescimento econômico, preservação ambiental e impacto social positivo.
O evento também promoveu conexões entre empresas, startups, universidades e instituições públicas, incentivando parcerias e investimentos em tecnologias sustentáveis e soluções de impacto, ou seja, projetos ou inovações tecnológicas que geram retorno financeiro ao mesmo tempo em que resolvem desafios socioambientais. Nas áreas de exposição e feiras de negócios, organizações apresentaram planejamentos voltados à energia limpa, gestão de resíduos, agricultura sustentável, mobilidade urbana e inclusão social, ampliando as oportunidades de networking e cooperação entre os participantes.
Nordeste no centro do debate ecotecnológico
O painel “Nordeste como fronteira de investimento de impacto no Brasil” foi um dos destaques do último dia do Fórum, com pautas sobre questões territoriais e ambientais. A apresentação expôs o potencial estratégico da região nordestina como catalisadora social, econômica, tecnológica e ecológica a partir da conexão entre capital privado, políticas públicas e empresas familiares do Nordeste.
A palestra reuniu Mayara Costa, especialista em impacto e inovação social do Parque Tecnológico Horizontes de Inovação; Monique Moraes, diretora da Su Causa Mi Causa; Andréa Gomes, fundadora e estrategista da Maya Labs; e Michelle Ribeiro, conselheira da Coalizão pelo Impacto em Fortaleza. Com foco no fortalecimento da região nordestina como polo de impacto socioambiental aliado a oportunidades econômicas, as participantes responderam às perguntas da mediadora Michelle Ribeiro a partir das perspectivas de suas áreas de atuação, abordando iniciativas ligadas tanto ao setor público quanto ao privado.
Moraes destacou que, embora o Nordeste seja frequentemente visto como um território homogêneo, compreender e potencializar investimentos na região exige reconhecer as particularidades de seus nove estados, marcados por diferentes contextos geográficos, socioeconômicos e ambientais. Ao abordar a realidade do Maranhão, seu estado de atuação, a diretora do projeto Su Causa Mi Causa enfatizou a competência da “economia criativa local” — modelo econômico baseado na cultura, no conhecimento e no capital intelectual como motores de geração de valor, emprego e renda.
Costa apontou que, na Paraíba, os investimentos voltados ao desenvolvimento regional têm priorizado áreas consideradas estratégicas, como saúde e educação. Segundo a especialista em empreendedorismo social, o avanço do estado está diretamente ligado a editais promovidos pelo setor público, voltados ao incentivo de negócios de impacto. “São iniciativas que disponibilizam cerca de R$10 milhões em investimentos para startups que apresentem soluções voltadas às demandas sociais e ambientais locais”, explicou.
Para Gomes, a concentração do fluxo de capital no eixo Sul-Sudeste é negativa por entender o Nordeste como uma fronteira estratégica de investimentos de impacto pela força da economia criativa, bioeconomia, energias renováveis, inovação social e empreendedorismo periférico. “Há um mito de que o único potencial nordestino é o turismo. É muito importante ouvir esse debate sobre a tecnologia e a forte economia que existem no Nordeste”, argumentou.

De acordo com Moraes, o Banco do Nordeste do Brasil (BNB) é reconhecido como o maior banco de desenvolvimento regional da América Latina. O BNB opera também como o grande motor do investimento com impacto social e econômico no país.
Embora todo o investimento em tecnologia seja bem-vindo, é importante que as construções estejam alinhadas com a perspectiva ambientalista, defende Gomes. Data centers — estruturas físicas que armazenam e processam dados na nuvem e treinam modelos de Inteligência Artificial (IA) — serão construídos na região nos próximos anos e, embora as especialistas considerem essa inovação como algo positivo por consolidar o Nordeste como um dos principais polos de infraestrutura digital do país, é importante ressaltar o enorme uso de água que essas instalações utilizam.
“As coisas estão chegando no Nordeste, mas é importante que não venham para esgotar os recursos do território, e sim para potencializá-los”.
Andréa Gomes
Para Costa, fortalecer o Nordeste passa por criar pontes entre quem possui capital e quem desenvolve soluções de impacto na região. A especialista afirmou que sua atuação está voltada à construção de mecanismos legais e incentivos capazes de consolidar o ecossistema de inovação local. Já Moraes destacou o trabalho de articulação entre empreendedores de impacto e iniciativas regionais, estimulando conexões e oportunidades dentro do próprio território. “O Nordeste reúne condições únicas para o fortalecimento da bioeconomia, especialmente pela abundância de recursos naturais. Com a crescente busca de empresas por matrizes energéticas mais sustentáveis, muitas dessas iniciativas passam, também, a gerar impacto social e ambiental no território”, destacou.
Como mensagem final, as palestrantes destacaram que, embora o Nordeste ainda enfrente desafios históricos ligados à desigualdade social, ao acesso a investimentos e à vulnerabilidade climática, a região não pode ser reduzida a esses fatores. Em um contexto de emergência climática, avanço da inteligência artificial e concentração de investimentos no eixo Sudeste, elas defenderam a necessidade de ampliar o olhar para o potencial nordestino em inovação, tecnologia e soluções alinhadas à agenda ambiental.
“Tirem da cabeça essa ideia de que precisam nos salvar. O Nordeste já é o laboratório de soluções dele mesmo”.
Mayara Costa
Valorização do impacto por meio do reconhecimento
Como forma de apoiar e destacar projetos que visam a atitudes sustentáveis e fundamentais para uma economia responsável, o Impact Hub e a Certificadora Social entregaram pela primeira vez o prêmio Impacta Mais, que reafirma e reconhece pessoas, organizações e iniciativas que contribuem de forma concreta para acelerar a economia de impacto no Brasil. De acordo com Paul Hendl, diretor do Impact Hub, para além de uma aclamação formal, o prêmio se posiciona como um marco para a valorização do ecossistema de impacto e impulsiona novas iniciativas e conexões estratégicas.
O processo do prêmio começou com inscrições online, em que os participantes precisavam atender a alguns requisitos mínimos para submeter seus projetos. Segundo Fábio Kanashiro, sócio diretor da Certificadora Social, critérios como intencionalidade, centralidade de impacto, sustentabilidade financeira, atividade econômica formal, monitoramento de impacto e atuação no território brasileiro foram aplicados.
José Kaeté, apresentador da premiação, afirmou que foi um processo focado em quem trouxe a verdadeira essência dos negócios de impacto em seu respectivo campo. Kanashiro também explicou que dos quase duzentos projetos inscritos, trinta foram selecionados, junto com sete destaques de cada categoria e um ganhador geral do evento.

Confira a lista das sete categorias premiadas e seus respectivos vencedores:
- Inclusão produtiva e desenvolvimento territorial: Generation Brasil;
- Cadeia sustentável e economia circular: BioValor;
- Inovação climática, bioeconomia e transição energética: Kaatech;
- Economia Azul e soluções baseadas na água: Infinito Mare;
- Inteligência artificial e tecnologia para impacto: Mais1Code;
- Investimento de impacto socioambiental: Associação Estímulo 2020;
- Negócios de impacto em governo: SO+MA Negócios Inclusivos.
Após a entrega do troféu para os grupos destaques, José apresentou o grupo Infinito Mare como ganhador final da edição de 2026. De acordo com Bruno Libardoni, diretor e CEO da empresa, o foco do seu negócio de impacto é uma solução baseada na natureza. Seu projeto tem uma proposta de cuidado das águas e estímulo do crescimento de algas nativas que regeneram água em qualquer ambiente em que são instaladas. Enquanto as algas crescem, elas se alimentam da poluição, absorvem carbono e oxigenam a água. Nas colheitas, os poluentes são retirados juntamente com a alga.

Ao finalizar a cerimônia, o apresentador, Kaeté, afirmou: “Cada iniciativa que falamos aqui no palco, que participou e foi reconhecida nesse prêmio, mostra que já existem pessoas, organizações e soluções construindo, na prática, uma nova economia mais inclusiva, sustentável e regenerativa no Brasil”.
