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Observatório I Nuvens de poeira: entenda como ocorrem os fenômenos que atingiram o Brasil

O evento, que atingiu cinco estados brasileiros, causou alarme e acidentes no país

Biosfera
26 out 2021 | Por Danielle Alvarenga (danialvarengav@usp.br) e Júnior Vieira (jvsanjunior@usp.br)

Moradores dos estados de Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, interior de São Paulo, Maranhão e Goiás foram surpreendidos no fim do mês de setembro por tempestades de poeira. O fenômeno foi acompanhado por intensas rajadas de vento e deixou desaparecidos nas cidades atingidas.

Comum em períodos de transição para a estação úmida, as “nuvens de poeira” tem como um importante fator de ocorrência a presença de solo sem cobertura vegetal. Assim, as características das regiões do Sudeste e Centro-Oeste, nas quais é comum ter uma redução de chuvas ao longo dos meses de inverno, geram um solo seco e arenoso. 

Antecedidos por vendavais, esses ventos conseguem levantar a poeira até níveis mais altos da atmosfera, o que causa o fenômeno assistido no último mês. “Com a chegada da primavera, estação mais úmida e com mais risco de temporais, a atmosfera fica bastante instável e o risco de chuva forte e vendaval aumenta consideravelmente”, declara Dóris Palma, meteorologista do Climatempo. 

 

 

Palma diz ainda que, em muitos casos, os ventos intensos alcançam 60 km/h. Logo, transtornos como quedas de árvore tornam-se corriqueiros. “O fenômeno reduz bastante a visibilidade horizontal, então o risco de algum animal ser atropelado em rodovias também aumenta”, afirma a meteorologista. Além disso, prejuízos ao sistema respiratório também estão presentes entre os efeitos colaterais do evento, uma vez que a inalação de poeira é prejudicial ao organismo. Após acidentes envolvendo o fenômeno, seis mortes foram registradas no interior de São Paulo.

 

nuvem de poeira

As cidades paulistas Adamantina, Presidente Prudente, Osvaldo Cruz e Lucélia decretaram situação de emergência e suspenderam as aulas. [Imagem: Reprodução/Twitter: ‪@Mariana92610292‬]

 

A imprevisibilidade da ocorrência dessas “tempestades” de poeira impede uma prevenção para diminuir acidentes ou os impactos gerados. As dificuldades para calcular a probabilidade do evento se dão pelo fato de dependerem da situação da vegetação do local, além das condições meteorológicas, como explicou Dóris Palma. “Tínhamos previsão de chuva, ventos intensos e temporais, e essa previsão relacionada ao monitoramento da umidade do solo, pode nos dar uma breve ideia de quais áreas o fenômeno pode acontecer, mas é algo bem relativo e difícil de prever”, informa a meteorologista.

Diversas imagens do evento impressionaram a internet. Além do aspecto apocalíptico, as nuvens de poeira causam diversos impactos na flora, na fauna e nas atividades humanas. O Brasil, que, de acordo com a Agência Nacional das Águas, enfrenta a estiagem mais intensa da história, tem lutado contra uma série de danos aos seus biomas. A Amazônia, por exemplo, responsável por levar umidade para toda a América do Sul, teve um desmatamento recorde na temporada 2020/2021, segundo o Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon). Tais dados se refletem nas consequências ao cotidiano ecológico nacional.

Ao ser questionada sobre a relação entre os dados de desmatamento e a ocorrência das nuvens de poeira, Palma relata que as práticas humanas causam uma ausência de vegetação que protege o solo, o que colabora para que o evento ocorra com maior frequência. “Se temos um solo mais rico em árvores e vegetação densa, o risco para formação das nuvens de poeira é menor, porque não teremos um solo exposto e tão arenoso. O desmatamento local pode influenciar bastante na ocorrência do fenômeno, já que o solo fica mais seco e vulnerável”, descreve a meteorologista.

O risco para novas “tempestades” de poeira é pequeno, uma vez que as chuvas voltaram a ocorrer de forma regular. No entanto, para diminuir ou impedir a ocorrência do fenômeno que assustou moradores das cinco regiões do Brasil, é necessário uma política de preservação do meio ambiente. “Não existe uma forma de impedir que isso aconteça a curto prazo, somente a longo: restaurando a flora local  e diminuindo o desmatamento de grandes campos”, ressalta Palma.

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