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O apocalíptico ‘Fim da Infância’

A obra de Arthur C. Clarke entretém o leitor com suspenses e multiplicidade de personagens, mas pode não agradar aqueles que não estão acostumados com ficção científica

SCI-FI
07 abr 2022 | Por Lívia Magalhães (liviabmagalhaes@usp.br)

O livro O Fim da Infância (Editora Aleph, 2019), escrito por Arthur C. Clarke e editado pela primeira vez em 1953, nasce de um momento de pânico. A Guerra Fria e, mais especificamente, a Corrida Nuclear entre a União Soviética e os Estados Unidos originou bombas atômicas que assegurariam a destruição mútua e total. O que o autor, que também escreveu os clássicos 2001: Uma Odisseia no Espaço e Encontro com Rama, fez foi pensar: se esse é o nosso destino, qual seria o curso da Terra caso seres extraterrestres viessem nos salvar?

Os Senhores Supremos, alienígenas dotados de inteligência e tecnologia muito superior à dos humanos, chegam à Terra já exercendo uma dominação psicológica. Vários ovnis pairam sobre as principais capitais do planeta e, durante a comunicação com as pessoas, os Senhores Supremos sempre ocultam a aparência. Mas, como eles logo resolvem todos os problemas da Humanidade, da fome ao racismo e analfabetismo, essa dominação é vista com bons olhos pela maioria da sociedade. Quem pode culpá-los? 

A obra foi um espaço privilegiado para Clarke expandir sua imaginação, com vários capítulos descritivos da utopia que a Terra alcançou graças aos Senhores Supremos. Porém isso não significa que esses capítulos sejam apenas páginas chatas e prolongadas: o olhar científico que o autor imputa na obra é necessário para visualizarmos o mundo em que estes personagens vivem, e é ideal para contextualizar os longos anos que o livro cobre e as mudanças que acontecem no período.

 

Imagem de Arthur C. Clarke na frente de tecnologias.

Além de ser um dos autores clássicos da ficção científica, Arthur C. Clarke também escreveu textos de divulgação científica. [Imagem: Reprodução/Wikipédia]

 

A história do livro já passou por poucas e boas. Originalmente, surgiu como um conto chamado Anjo da Guarda, que recebeu negativas de várias editoras até ser publicado quatro anos depois de escrito e ter sofrido edições que mudaram até o final da narrativa (sem o aval do autor mas que, felizmente, lhe agradaram). Depois, o conto se expandiu até se tornar a primeira parte do clássico da ficção científica.

Aí chegou a vez do primeiro capítulo mudar, quase 30 anos depois da publicação do livro. O autor prontamente reverteu para o texto original, mas a mudança não deixa de ser curiosa. A edição da Editora Aleph de O Fim da Infância inclui a obra em todas as suas versões.

 

Cena da minissérie adaptada de O Fim da Infância.

O livro foi adaptado para uma minissérie em 2015. [Imagem: Reprodução/IMDB]

 

Ao longo da trama, o leitor vai descobrindo cada vez mais sobre os alienígenas invasores. Esse desenvolvimento da relação entre a Humanidade e os Senhores Supremos entretém mais do que o desfecho em si. O suspense — o que será que estes alienígenas querem? Qual a aparência deles? Porque escolheram a Terra? — gera perguntas que o público quer que sejam respondidas o quanto antes. Mas, quando o são, acabam sendo menos satisfatórias do que a preparação para recebê-las.

Além disso, esse não é um livro para qualquer um que goste de ler: seu público se encaixa melhor entre os aficionados em fantasias científicas. Para os não acostumados com o gênero, vários capítulos — especialmente os últimos — podem parecer um lenga-lenga sem fim que não acrescentam nada à história. Há tantos personagens e tramas diferentes acontecendo ao mesmo tempo que, enquanto alguns capítulos parecem desconexos e sem propósito, outros contém assuntos que o leitor gostaria que Clarke se demorasse mais.

Apesar de seus defeitos, o livro é surpreendente. O leitor entra imaginando que a ficção de Arthur C. Clarke será apenas mais uma história sobre ETs, mas ao decorrer da narrativa percebe que há muito mais em jogo. A multiplicidade de personagens que se interligam durante a leitura, mesmo por vezes sobrecarregando o leitor, é a prova. E por isso O Fim da Infância é uma daquelas obras em que é melhor entrar sem saber de nada além do que está na orelha do livro. Para os curiosos em relação a utopia da sociedade aparentemente perfeita e seus defeitos marginais, encobertos com esmero, O Fim da Infância é o pedido ideal.

 

*Imagem de capa: Lívia Magalhães/Jornalismo Júnior com imagens de Divulgação

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