Home Personagem O cinema de Wong Kar-Wai e a solidão
O cinema de Wong Kar-Wai e a solidão

Wong Kar-Wai desenvolve seus filmes com originalidade, causando um sentimento único desde a fotografia até a forma como as emoções e o romance são retratados

CINÉFILOS
02 abr 2022 | Por Amanda Marangoni (amandamarangoni@usp.br)

A história de Wong Kar-Wai e a Nova Onda do Cinema de Hong Kong

Wong Kar-Wai nasceu em Shangai, na China, em 1958, transferindo-se para Hong Kong com sua família cinco anos depois, em 1963. Essa mudança teve uma grande importância no desenvolvimento da identidade artística de Kar-Wai, uma vez que a maior parte de seus filmes se passam em Hong Kong na década de 1960, expondo o impacto cultural que o atual diretor vivenciou ao deixar a China continental. Ele obteve seu diploma de designer gráfico da Escola Politécnica de Hong Kong em 1980 e, então, começou a trabalhar como assistente de produção de televisão. Após participar da produção de diversas séries televisivas, Kar-Wai tomou parte na escrita de roteiros para seriados, e, depois, para filmes.

Sua estreia como diretor aconteceu em 1988, com o longa Conflito Mortal (Wong Gok ka moon, 1988), que conta uma história em meio ao mundo da máfia de Hong Kong e acompanha o personagem principal Wah (Andy Lau) e seu parceiro de crime Fly (Jacky Cheung). Com um roteiro que já passava um grande sentimento efêmero e transitório, o primeiro filme de Kar-Wai apresentava o início da narrativa e estilística consideradas típicas do cineasta, juntamente com o impressionismo pelo qual ele seria posteriormente reconhecido.

Maggie Cheung (Ngor) e Andy Lau em Conflito Mortal. [Imagem: Divulgação/In-Gear Film Production]

Maggie Cheung (Ngor) e Andy Lau em Conflito Mortal. [Imagem: Divulgação/In-Gear Film Production]

 Anteriormente ao desenvolvimento dos filmes de Wong Kar-Wai, houve a inovadora Nova Onda do Cinema de Hong Kong que  influenciou suas obras. A partir da década de 1970, uma geração de novos diretores revolucionou o modo de fazer cinema na região com suas visões artísticas e experimentais, que frequentemente negavam o caráter comercial do cinema. Além disso, esses cineastas, em sua maioria muito jovens, tomaram um caminho diferente: suas produções buscavam falar sobre a sociedade contemporânea de Hong Kong e a cultura local, ao contrário de retratar a China continental. Com uma grande diversidade de visões, os longas da Nova Onda foram responsáveis por uma importante inovação da indústria cinematográfica dessa região, aumentando o leque de possibilidades artísticas e apresentando diferentes linguagens cinematográficas. Os diretores participantes do movimento que receberam maior destaque foram Ann Hui, Tsui Hark, Allen Fong e Yim Ho.

Então, a partir de 1984, essa corrente cinematográfica contou com mais uma fase, a chamada Segunda Onda do Cinema de Hong Kong. Conservando o espírito experimentalista e inovador da primeira parte, as novas produções mostraram visuais muito marcantes, com certa presença de uma nostalgia pela década de 1960, questões sobre identidade e forte ênfase na transitoriedade. Foi nesse período que o movimento recebeu maior aclamação internacional, principalmente com Wong Kar-Wai, que foi o vencedor do prêmio Palma de Ouro no Festival de Cannes com seu longa Amor à Flor da Pele (Fa yeung ni wa, 2000), gerando uma grande repercussão pelo mundo.

A experiência humana em Wong Kar-Wai

Os filmes dirigidos por Kar-Wai possuem suas próprias particularidades, sendo uma delas a maneira como as emoções são retratadas. Em Amor à Flor da Pele, por exemplo, o espectador acompanha as trajetórias de Chow Mo-wan (Tony Leung Chiu-Wai) e Su Li-zhen (Maggie Cheung), um homem e uma mulher que acabaram de se mudar para apartamentos vizinhos numa claustrofóbica Hong Kong de 1962. A trama evolui de uma maneira não muito esperada: Chow e Su descobrem que seus respectivos cônjuges, sempre ausentes, estão tendo um caso, justamente um com o outro. A maneira que os dois encontram para lidar com a descoberta de que estavam sendo traídos é agir como seus parceiros, imaginando como seriam as situações em que os dois estivessem juntos. O relacionamento platônico dos protagonistas se desenvolve num ambiente profundamente imersivo, tomado por uma paleta de cores intensas, escuras e graves. As emoções na obra passam uma grande intensidade, mesmo que o foco esteja nos pequenos detalhes e na suavidade, principalmente das atuações.

Maggie Cheung e Tony Chiu-Wai Leung em Amor à Flor da Pele. [Imagem: Divulgação/Block 2 Pictures]

Maggie Cheung e Tony Chiu-Wai Leung em Amor à Flor da Pele. [Imagem: Divulgação/Block 2 Pictures]

O longa Felizes Juntos (Chun gwon cha sit, 1997) também explora muitos aspectos emocionais. Nele, é contada a história do instável casal Lai Yiu-fai (Tony Leung Chiu-wai) e Ho Po-wing (Leslie Cheung). A trama tem início durante a viagem dos dois personagens pela Argentina, em busca de um novo começo para seu volátil relacionamento, mas mesmo assim decidem dar um fim à relação. No entanto, os caminhos de Fai e Po-wing se cruzam diversas vezes enquanto estão em Buenos Aires trabalhando para voltar a Hong Kong e, em meio a muitos momentos abusivos vindos dos dois lados do relacionamento, a dinâmica entre os parceiros é mostrada de forma extremamente realista e por vezes com muita amargura, refletindo a maneira como as partes se sentem. Com muitos momentos de solidão e tristeza, a história desses dois homens é contada tão bem não só pelas ótimas atuações de Leslie Cheung e Tony Leung, mas também pelos fortes elementos visuais e pela marcante trilha sonora, que fazem parte da ambientação.

Tony Leung e Leslie Cheung em Felizes Juntos. [Imagem: Divulgação/Block 2 Pictures]

Tony Leung e Leslie Cheung em Felizes Juntos. [Imagem: Divulgação/Block 2 Pictures]

Os dois filmes permitem enxergar a maneira excepcional como as emoções e o amor são explorados por Kar-Wai. Luiz Santiago, editor e crítico do Portal Plano Crítico, numa entrevista para a Jornalismo Júnior, fala sobre isso: Wong Kar-Wai é um diretor que se aprofunda nas sensações da experiência humana, especialmente em questões amorosas. Seu dinâmico uso de cores pinta todo um cenário de sentimentos, constantemente acompanhado pelos figurinos. Aliados à trilha sonora, esses componentes estéticos ajudam a narrar a história de um modo bastante peculiar, sendo essa a grande marca do diretor”.

Maggie Cheung em Amor à Flor da Pele. [Imagem: Divulgação/Block 2 Pictures]

Maggie Cheung em Amor à Flor da Pele. [Imagem: Divulgação/Block 2 Pictures]


O papel de Hong Kong e a tragédia do melodrama

Como já foi dito, a maioria das obras do diretor se passa em Hong Kong na década de 1960 e a região possui uma grande influência no desenvolvimento das tramas e dos personagens. O sentimento de mudança é muito presente em seus longas, o que também pode ser atribuído ao ambiente. De acordo com Santiago, as histórias se desenrolam em espaços de transição, num lugar onde há muito movimento, lotação e uma atmosfera de  não-pertencimento dos personagens em relação à cidade, aos cenários, às casas, e isso diz muito também sobre o tipo de personagens que os roteiros dos filmes de Kar-Wai constroem. São indivíduos inquietos que quase nunca criam raízes.

Takeshi Kaneshiro e Brigitte Lin em Amores Expressos (nome original do filme, 1994). [Imagem: Divulgação/Jet Tone Production]

Takeshi Kaneshiro e Brigitte Lin em Amores Expressos (nome original do filme, 1994). [Imagem: Divulgação/Jet Tone Production]

Esses sentimentos de não pertencimento, instabilidade e mudança ganham destaque em Amores Expressos, que conta duas histórias separadas. A primeira delas acompanha o policial He Zhiwu (Takeshi Kaneshiro), um homem que vive uma desilusão amorosa e ainda espera pela volta de sua ex-namorada que o deixou. Sua trajetória é contada em paralelo com a de uma mulher misteriosa que nunca tem seu nome revelado (Brigitte Lin), mas sempre usa uma peruca loira e conduz uma operação de tráfico de drogas. Os dois acabam se encontrando, inevitavelmente, num bar no fim de uma noite.

A segunda história é sobre  um policial (Tony Leung Chiu-Wai) que é referido simplesmente como “663” e também sofre com o seu relacionamento passado que acabou quando sua ex-namorada (Valerie Chow) o deixou. Faye (Faye Wong), que observava-o sempre que ele frequentava o restaurante em que ela trabalhava, tem seu sentimento de curiosidade pelo policial e sua situação transformado  

 algo platônico, uma paixão irreparável.

 Faye Wong em Amores Expressos. [Imagem: Divulgação/ Jet Tone Production]

Faye Wong em Amores Expressos. [Imagem: Divulgação/ Jet Tone Production]

O filme apresenta personagens mergulhados em si mesmos, vítimas de um destino inevitável e efêmero. Mas, como expõe Santiago na entrevista, a introspecção e a solidão desses personagens são consequência de algo maior. “Os personagens nos filmes de Kar-Wai são ávidos por algo. Há uma busca constante, e, muitas vezes, o ambiente ou as condições de vida desses indivíduos impedem que eles avancem nessa busca; impedem que procurem meios para realizar o sonho. Dessa frustração é que surge a introspecção e o caráter solitário deles, mesmo quando estão rodeados de gente”.

As mesmas sensações de transição e não pertencimento são percebidas no longa Anjos Caídos (Do lok tin si, 1995), que acompanha três personagens diferentes. Leon Lai Ming faz o papel de um assassino de aluguel desapegado que sempre conta com a ajuda de sua assistente (Michelle Reis) para cuidar de sua vida mundana, para a qual ele se mostra sempre indisponível e desinteressado. O filme aborda a paixão e a necessidade de seguir em frente, seja no caso do assassino que deseja abandonar o trabalho, a assistente que não aceita que seu parceiro a deixe ou, no caso do personagem que é inserido posteriormente, He Zhiwu (Takeshi Kaneshiro), um homem surdo e mudo que decide mudar o sentido de sua vida partindo de uma existência sempre subjetiva. Os personagens são como almas perdidas em um lugar agitado, tentando encontrar seus próprios caminhos.

Takeshi Kaneshiro e Charlie Yeung em Anjos Caídos. [Imagem: Divulgação/Jet Lab Production]

Takeshi Kaneshiro e Charlie Yeung em Anjos Caídos. [Imagem: Divulgação/Jet Lab Production]

A paixão, o romance e o desejo são representados de maneira excepcional por Wong Kar-Wai: mesmo que o amor seja arrebatador, a introspecção, a solidão e a efemeridade sempre vencem em suas produções. “A palavra-chave na forma como o diretor guia os seus romances é “tragédia”. Mesmo em casos onde existe uma ponta de esperança, o roteiro cria uma série de obstáculos para que esses indivíduos atravessem e sejam marcados por eles”, explica Santiago. “Como a direção e os componentes estéticos no cinema de Kar-Wai são fortemente ancorados na criação visual e narrativa de emoções, cada busca é percebida pelo público de forma muito intensa, de modo que, muitas vezes, as atuações são mais plácidas do que a gente espera. No entanto, há sempre um aspecto melancólico sobre o romance, que quase sempre é impedido, ou chega ao fim, mesmo com toda a paixão e amor irremediáveis. “Em Kar-Wai, o amor tende a ser uma intensa, apaixonada e vital busca… que raramente acaba sendo recompensada.

 

O aspecto visual e sonoro

Michelle Monique Reis em Anjos Caídos. [Imagem: Divulgação/Jet Tone Production]

Michelle Monique Reis em Anjos Caídos. [Imagem: Divulgação/Jet Tone Production]

A fotografia nas películas de Kar-Wai é original, experimental e de extrema importância para o desenrolar de suas histórias e universo. O diretor também conta com trilhas sonoras memoráveis e marcantes, que auxiliam na definição do humor de seus personagens que encontram consolo e refúgio na música, com alguns exemplos famosos sendo California Dreamin’, em Amores Expressos e Take My Breath Away em Conflito Mortal (Wong Gok Ka Moon, 1988).

As cores fortes e o persistente neon de Hong Kong, junto com as trilhas sonoras, colaboram para que as emoções das tramas sejam passadas para o telespectador e retratam muito bem um lugar onde a freneticidade e a lotação são rotineiras. Contando quase sempre com o trabalho do diretor de fotografia Christopher Doyle, Wong Kar-Wai consegue uma representação viva de Hong Kong pelo ponto de vista de seus personagens.

Takeshi Kaneshiro em Amores Expressos. [Imagem: Divulgação/Jet Tone Production]

Takeshi Kaneshiro em Amores Expressos. [Imagem: Divulgação/Jet Tone Production]

A presença constante das cores, da fumaça e de frames embaçados são como a atmosfera de um sonho, o que torna a experiência de seus filmes ainda mais enriquecedora. “Cores e música chegam a ser verdadeiros personagens nas obras de Wong Kar-Wai, às vezes dizendo coisas que o texto não diz; às vezes contradizendo de modo irônico o que dizem os diálogos ou às vezes anunciando o que pode vir adiante“, comenta Luiz Santiago.

A representação visual e as trilhas sonoras, assim como a profunda e diferenciada maneira como Wong Kar-Wai explora seus personagens, seus sentimentos e suas experiências, possibilitam a existência de sua tão singular e aclamada estilística. Dessa forma, de maneira impressionante, Kar-Wai foi capaz de criar algo original, um sentimento único na forma em que faz cinema, ultrapassando barreiras e comovendo espectadores internacionalmente com suas histórias contadas por meio da arte cinematográfica.

Cinéfilos
O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
VOLTAR PARA HOME
DEIXE SEU COMENTÁRIO
Nome*
E-mail*
Facebook
Comentário*