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O jogo do Instagram: algoritmos podem perpetuar estereótipos e padrões de beleza?

A discussão por trás da manipulação das inteligências artificiais nas redes sociais em favor dos padrões de beleza que contribuem para o fortalecimento de uma cultura sexista e gordofóbica

JPRESS
03 dez 2021 | Por Maria Carolina Milaré Albuquerque (mariamilare@usp.br)

Durante suas navegações pelo Instagram, por algum momento, já deve ter passado pela sua cabeça como milhares de conteúdos e perfis, no fim, parecem a mesma coisa. Ou então, pelo fato de você consumir tantas coisas parecidas nunca se deu conta de que possa haver perdido por aí uma variedade de informações diferentes pelas comunidades digitais.

Isso ocorre pelo mecanismo dos algoritmos que selecionam e impulsionam os conteúdos com maior relevância na plataforma de acordo com alguns critérios. Essa ferramenta é empregada visando proporcionar aos usuários uma experiência melhor dentro das redes. 

Esses critérios, no entanto, são desconhecidos pela comunidade que utiliza as redes sociais, levantando-se apenas especulações sobre o que de fato é valorizado pelo algoritmo. Nesse cenário, refletiremos se os algoritmos são capazes de perpetuar padrões de beleza e fortalecer uma cultura sexista e gordofóbica, em razão de uma lógica mercadológica.

 

Como funcionam os algoritmos?

Algoritmos são inteligências artificiais programadas para executar alguma tarefa predeterminada visando um objetivo final. Sua execução ocorre por meio da realização de uma sequência lógica de instruções comandadas por um sistema de códigos. Esse mecanismo é responsável basicamente por tudo que nossos aparelhos eletrônicos são capazes de realizar. 

Nas redes sociais, como o Instagram, entre outras funções, eles são responsáveis por selecionar os conteúdos mais relevantes para o público. Os algoritmos realizam uma espécie de ranking de postagens, onde aquelas com melhor colocação aparecem mais vezes nos feeds dos internautas.

Pouco se sabe exatamente o que os algoritmos do Instagram consideram como algo valioso, mas alguns criadores de conteúdos e especialistas em marketing do meio digital elencam alguns pontos: o momento em que você decide postar determinada publicação; o engajamento quantidade de interações, curtidas, e comentários que um post teve —; e o seu relacionamento com as páginas e pessoas dentro da rede.

No entanto, em uma navegada pelo Instagram, é possível perceber que algumas publicações aparecem mais recorrentes que outras. Por exemplo: as postagens de contas femininas famosas, que trazem a exposição de corpos brancos e extremamente magros. E mesmo você seguindo outros tipos de perfis e personalidades, nem sempre eles chegam para você. Por que isso ocorre?

 

Algoritmos são seletivos?

Algoritmos são apenas inteligências artificiais, ou seja, ferramentas inanimadas; mas que por serem controladas e programadas por seres humanos, podem, sim, refletir comportamentos sociais e culturais presentes na sociedade.

Na segunda metade de 2016, o Instagram deixou de mostrar as publicações dos usuários por ordem cronológica, e passou a mostrá-las segundo uma ordem de importância, com base na seleção dos algoritmos. Devido a essa alteração, algumas postagens apresentam mais alcance que outras. 

[Imagem: Reprodução/Renata Tarrio]

Renata Tarrio, especialista em Cultura e Meios de Comunicação e mestra em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, fala sobre como isso se relaciona pelo fato do Instagram ser uma plataforma voltada a comercialização: “Não existe transparência nesse processo do algoritmo, de alguma forma os conteúdos que são passíveis de gerar consumo, são aqueles que são mais entregues às pessoas”. 

Renata completa dizendo porque muitas vezes esses conteúdos mais alavancados no Instagram são aqueles relacionados com os padrões estéticos. “Tem de ser um conteúdo relacionado a um corpo branco, a um corpo definido, a um corpo sem ‘imperfeições’, e que podem ser associados a diversos tipos de consumo. Consumo alimentar, consumo de roupas de moda, consumo de viagem, estilo de vida…”, exemplifica.

 

Pesquisa realizada pela AlgorithmWatch

A Rede Europeia de Jornalismo de Dados e a organização de pesquisas AlgorithmWatch realizaram um levantamento para tentar colher dados a respeito do que o algoritmo do Instagram prioriza na plataforma. Durante três meses, 26 voluntários precisavam seguir, e acompanhar, o perfil de 37 profissionais de conteúdos variados escolhidos pelos organizadores.

Uma extensão de navegador, instalada nos aparelhos eletrônicos dos voluntários, monitorava a frequência e o caráter das postagens que apareciam no feed dos participantes.

Foram analisadas 2.400 fotos, entre elas, do setor de alimentação, moda, viagem, fitness, e beleza. Dessas fotos, 20% apresentavam mulheres usando biquíni ou roupas íntimas, ou homens com o peito à mostra. No entanto, essas fotos representaram 30% de todas  as fotos que chegaram até os voluntários, sendo que algumas apareceram mais de uma vez.

O resultado da pesquisa concluiu que fotos que continham mulheres de biquíni ou roupas íntimas tinham 54% a mais de chance de aparecerem no feed dos usuários; e fotos de homens com o peito nu, 28% a mais de probabilidade. Já fotos de paisagens, ou alimentos, por exemplo, tinham 60% menos chances de aparecerem para os participantes. 

“Se o Instagram não estivesse interferindo no algoritmo, a diversidade de postagens no feed de notícias dos usuários deveria corresponder à diversidade das postagens dos criadores de conteúdo que eles seguem. E se o Instagram personalizou o feed de notícias de cada usuário de acordo com seus gostos pessoais, a diversidade de postagens em seus feeds de notícias deveria ser distorcida de uma maneira diferente para cada usuário. Não foi isso que encontramos.”, afirma a organização AlgorithmWatch, no relatório da pesquisa.

Sem um acesso aos dados internos do Instagram e Facebook  — plataforma que administra o Instagram  — não é possível afirmar nada com certeza, mas a organização acredita que há presente na rede social uma tendência para nudez. E apesar do resultado mostrar que a exposição de corpos padrões impulsiona tanto postagens de homens quanto de mulheres, a lógica é perpetuada com mais força sobre as usuárias femininas. 

“Você não paga para navegar no Instagram, então como eles são uma empresa tão lucrativa? A filósofa americana Shoshana Zuboff fala que, ‘se você não está pagando, se você não está recebendo, então você é o produto’”, chama a atenção Renata.

A questão do impulsionamento de fotos de corpos femininos padrões não está relacionada a nenhuma questão de empoderamento, como pode contrapor alguns, mas sim faz parte da cultura que há tanto objetifica o corpo da mulher, como se fossem apenas isso, “um produto”.

 

Incoerência das Diretrizes do Instagram

Nos termos e diretrizes de funcionamento do Instagram são apresentados algumas regras que os usuários devem seguir para que suas contas sejam legais e possam permanecer ativas na rede. Entre os pontos desse regulamento há a menção da proibição de postagens e compartilhamento de conteúdos relacionados à nudez, ou que façam apologia a esse tipo de conteúdo.

O que se observa, porém, é que certos termos não parecem valer igualmente para todos os usuários. As contas de mulheres famosas que possuem corpos padrões, perante a sociedade, são repletas de fotos que expõem o corpo, o que não parece infringir nenhuma norma. Por outro lado, quando fotos do mesmo gênero são publicadas por outras mulheres, com menos seguidores, e com corpos que não refletem a cultura da magreza extrema, a plataforma pode enxergar uma violação.

[Imagem: Reprodução/André Miceli]

O especialista em sociedade digital e CEO da MIT Technology Review Brasil, André Miceli, explica porque isso pode ocorrer. Os algoritmos realizam um ranking de postagens com base no percentual que uma imagem pode ter de ferir alguma regra da comunidade. Essa análise é realizada pela identificação de imagem, que pode ser a quantidade de distância de um elemento a um pixel e outro, se há distorção da imagem, ou se é uma imagem mais borrada, por exemplo.

No entanto, se uma postagem com determinada pontuação possui uma boa aceitação pela comunidade, o algoritmo pode permitir que ela permaneça na plataforma. Em contrapartida, uma outra foto que possa apresentar a mesma pontuação, mas não é bem aceita pela sociedade, ele retira.

“É uma questão associada ao porquê uma blogueira famosa consegue ter uma foto de biquíni numa posição, e uma pessoa anônima na mesma posição, não”, comenta André. 

 

O experimento

A influenciadora e escritora Polly Oliveira, que possui hoje cerca de 630 mil seguidores no Instagram, realizou uma experiência em seu perfil para tentar mostrar aos seus seguidores como funcionava a “manobra dos algoritmos” no Instagram, assunto para o qual ela chama a atenção em seu perfil. 

 

 

No final de janeiro de 2021, ela postou um IGTV avisando suas seguidoras que iniciaria dentro da plataforma um teste de entrega de conteúdo, que ela denominou de “O experimento”. O objetivo seria tentar confundir os algoritmos da rede para entregar os conteúdos que ela já havia observado que eram “preferidos” pela plataforma. 

No vídeo, ela chega a dizer que dentro dos próximos dois meses ocuparia o lugar de uma personagem, e mudaria toda a imagem e o conteúdo de seu perfil, simulando ser uma “blogueira comercial”. 

 

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Foto criadas pela influenciadora para simular cirurgias de rinoplastia e lipoaspiração [Imagem: Instagram/@pollyoliveirareal]

 

A decisão de iniciar o experimento veio após a influenciadora ter sua conta suspensa por conta de um vídeo que publicara imitando ironicamente o vídeo da blogueira e coach Mayra Cardi, usando, inclusive, o mesmo áudio da outra. O vídeo de Polly, uma mulher gorda, foi retirado do ar e quase a fez perder sua conta. O vídeo de Mayra, no entanto, uma mulher extremamente magra e com seus seis milhões de seguidores, continua na rede até hoje. A partir desse episódio, Polly passou a desconfiar da seletividade da plataforma e quis de forma prática mostrar isso. 

 

 

“Meus vídeos que caem [do Instagram] são vídeos em que eu estou usando meu corpo, usando-o para libertar mulheres. Mas tenho percebido que quando os corpos femininos são utilizados para sexualizar, para vender algum produto, para comercializar como um mero produto, eles são impulsionados pela ferramenta, eles são entregues com muito mais empenho”

– Polly Oliveira

 

O conteúdo do perfil da Polly, que antes era voltado para compartilhar suas vivências femininas, pautas de autoaceitação e liberdade feminina, passou nesse período do experimento a ter um novo caráter. A influenciadora começou a postar fotos extremamente editadas com photoshop, de maneira escancarada; simular stories de divulgação de produtos milagrosos para emagrecimento; e fingir ter passado por procedimentos estéticos como rinoplastia e cirurgias de lipoaspiração. 

 

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Comparação da foto real com a foto editada para o Experimento [Imagem: Instagram/@pollyoliveirareal]

 

“O experimento é uma estratégia de resistência ao funcionamento do algoritmo do Instagram”, descreve Renata.

O resultado dessa primeira parte do experimento, que Polly compartilhou em suas redes sociais, mostrou que a influencer teve um alcance três vezes maior do que costumava com suas novas postagens. Ela conseguiu, ainda, sair do shadowban, uma espécie de banimento velado aplicado pelo Instagram, o qual ela permanecia por algum tempo.

Mas não parou por aí. Em outro momento, ela realizou um novo teste. Polly passou a usar uma peruca e a se portar de maneira extremamente sexualizada em vídeos nos seus stories. O que aconteceu foi que seu conteúdo começou a receber interação de muitas contas masculinas, e ela passou a receber mensagens desses perfis. 

O problema, no entanto, é que 95% de seus seguidores são mulheres e, os homens, em sua maioria, gays. Isso alerta que o algoritmo passou a  mandar seu conteúdo para ser consumido por perfis masculinos, justamente quando ela mudou o caráter das postagens.

“Eu havia perdido minha conta por causa de um conteúdo sexualizado, lembra? O que aconteceu depois disso foi o contrário: o Instagram começou a entregar meus posts para vários homens. Isso tudo foi muito absurdo”, disse Polly à revista Elástica.

Um terceiro resultado preocupante foi detectado pela influenciadora. Enquanto ela forçava uma personagem feminina voltada para a comercialização de produtos e procedimentos estéticos, o caráter das propagandas que apareciam após os seus stories eram praticamente todos relacionados à venda de produtos referentes à aparência feminina.

 

Capturas de tela das propagandas veiculadas após os stories da influenciadora com o gênero do perfil feminino [Imagens: Instagram/@pollyoliveirareal]

 

A partir do momento em que ela decidiu configurar sua conta para o gênero masculino, e criou um novo personagem para o experimento, agora o de um homem, utilizando-se de filtros de barbas na tentativa de observar novas respostas da plataforma, o caráter das propagandas que começaram a aparecer para seu público mudaram. Os produtos de estética ficaram para trás, e as propagandas, em sua maioria, eram voltadas para o universo educativo, financeiro e acadêmico. 

 

Capturas de tela das propagandas veiculadas após os stories da influenciadora com o gênero do perfil masculino [Imagens: Instagram/@pollyoliveirareal]

 

Todas as capturas de tela das propagandas foram enviadas pelas seguidoras da Polly, após acessarem seu conteúdo.

 

“A quem interessa ainda hoje que mulheres fiquem alienadas, que mulheres se preocupem apenas com o corpo, e a quem interessa que homens tenham acesso à educação financeira, que tenham acesso a conquistas e a conquistas financeiras?”

– Polly Oliveira

 

Personagens criados pela influenciadora para o Experimento [Imagem: Instagram/@pollyoliveirareal]

 

De acordo com Renata, as marcas que contratam as publicidades do Instagram não têm controle sobre qual conteúdo vai ser atrelado determinadas propagandas. É através da plataforma que ocorre toda uma segmentação muito bem detalhada para quem vai ser enviado aquele tipo de publicidade.

Ela observa ainda os possíveis motivos dessa diferenciação entre as publicidades que chegam para homens e mulheres: “se trouxermos de novo para a lógica do consumo, e levar em consideração que a mulher é muito mais exposta durante a sua vida à criação de situações sociais em que ela deve consumir, a gente pode considerar que a mulher estaria mais vulnerável a um consumo do que o homem”.

Com o experimento, Polly Oliveira concluiu e continua observando enquanto estuda o Instagram, que a criação de conteúdo voltado para o universo feminino, universo da estética, e da busca pelo “corpo perfeito” gera alcance, engajamento, e é impulsionado pela plataforma. Já seu conteúdo antigo, que visava mostrar ao seu público a libertação dos padrões de beleza e o alerta sobre manipulações midiáticas, dificilmente chegava, ao mínimo, a todos os seus seguidores.

 

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Comparação da foto real com a foto editada para o Experimento [Imagem: Instagram/@pollyoliveirareal]

 

Hoje em dia, apesar da influenciadora não realizar mais o experimento em suas redes, algumas estratégias retiradas desse período costumam ser utilizadas. Polly possui um projeto que ajuda mães solo carentes em situações de desamparo a comprar produtos e alimentos para seus filhos. Grande parte dos recursos financeiros do projeto advém de doações.

Com o intuito de alcançar mais pessoas, quando há necessidades urgentes, Polly posta um carrossel de fotos com a situação das mães, pedindo doações às seguidoras. A primeira foto do conjunto, no entanto, é uma imagem sua, expondo seu corpo, às vezes editado, para alcançar mais usuários. Quando os usuários se deparam com a publicação e resolvem passar a foto pro lado, acabam conhecendo o projeto e a situação daquelas mulheres em vulnerabilidade. 

Apesar de ser uma medida que corrobora a lógica sexista do Instagram, já que ela usa seu corpo apenas para ganhar visibilidade, é a maneira que Polly diz ter achado para alcançar mais recursos para seu projeto. 

“O Instagram acaba sendo essa plataforma que, por dar prioridade ao consumo, vai sempre dar prioridade àquilo que é padrão social. Ele não está engajado na luta contra esse padrão, no enfrentamento desse padrão, na verdade está engajado no aumento do consumo, e para isso ele vai perpetuar noções sociais que deveriam estar sendo combatidas há muito tempo”, analisa Renata. 

[Imagem: Reprodução/Andressa Osako]

Andressa Osako, criadora de conteúdo sobre autoaceitação e gordofobia para o Instagram, também percebe diferenças no alcance de suas postagens comparadas a outros perfis de pessoas com corpos padrões. 

“Eu sei que tem muitas outras mulheres que de alguma forma poderiam ser ajudadas e tocadas, não só pelo o que eu falo, mas pelo que outras mulheres que criam conteúdo sobre a mesma coisa também falam, mas que não tem o mesmo alcance que qualquer outra blogueira magra que faz propaganda de produto para emagrecer”, relata Andressa, que percebe que é um caminho muito mais difícil para quem está fora desse estereótipo. 

Ela acredita que isso ocorre em razão desses conteúdos irem contra o que prega a indústria da beleza. “Se você pensa nessa parte da indústria da beleza, da estética, eles lucram exatamente com as inseguranças que eu estou falando que a gente não deveria ter”, diz.

Andressa também observa como há poucas contas famosas de pessoas gordas no Brasil. Ela cita o exemplo de Ray Neon, uma das criadoras de conteúdo gordas mais famosas, que possui trezentos mil seguidores: “E qualquer blogueira X que não faz conteúdo sobre nada [em específico] tem mais de quinhentos, seiscentos mil seguidores. Eu sei que elas trabalham, com certeza, mas se você for ver a quantidade de conteúdo que o pessoal posta, nem se compara”.

 

Shadowban

O Shadowban, citado no caso da Polly, é outra polêmica atrelada ao mecanismo dos algoritmos. O termo se refere a um “banimento fantasma” que o Instagram aplica a determinadas contas. Os perfis não são excluídos, mas seus stories e postagens param de aparecer no feed, a não ser que os seguidores realizem a busca do perfil escrevendo o @ exato da conta procurada.

“O shadowban simplesmente diminui o alcance de uma publicação e geralmente quando isso acontece, os donos desses perfis notam que esse apagamento vem justamente quando determinados assuntos sociais são tratados”, diz Renata.

O fato ocorreu com Andressa quando ela realizou uma denúncia de assédio sexual em seus stories. As agressões verbais foram cometidas por um homem que lhe enviou mensagens no direct. Ela postou os prints em seus stories pedindo para que suas seguidoras denunciassem o perfil, e seus stories caíram por discurso de ódio, e ela quase perdeu sua conta.

Ao invés do perfil do assediador ser restringido, quem sofreu as consequências foi Andressa, apenas por relatar um ocorrido e tentar denunciar um crime de assédio. 

Referenciando novamente a filósofa Shoshana, Renata diz: “Essas empresas são verdadeiramente apolíticas. O que importa para elas é o lucro, não um posicionamento político.”

A plataforma, que poderia combater ações ilegais e contribuir para que o ambiente da rede fosse mais saudável, aplica a “punição” em quem resolve levantar esses discursos contra assédio sexual e gordofobia dentro da rede social.

O episódio ocorreu em janeiro de 2021 e até hoje Andressa relata que vê diferenças na entrega que suas postagens tinham antes dela entrar na categoria do shadowban, se comparadas à entrega que as publicações têm agora.

“Foi extremamente cansativo e desgastante porque eu tripliquei a quantidade de conteúdo rezando pra que algum deles alcançasse mais pessoas. E até hoje eu vejo que o meu alcance e a minha conta não voltaram a ser os mesmos de antes.”

 

Comparação das métricas do Instagram da Andressa antes do ocorrido, depois do ocorrido, e atualmente. [Imagens cedidas pela autora]

 

“É um trabalho que exige muito da gente em questão criativa, em questão de tempo, em questão de investimento financeiro para pagar cada curso, para eu entender melhor o que eu estou falando, e quando a gente chega no Instagram vê que o seu conteúdo não chega nem a dois por cento do que o de uma blogueira fazendo propaganda de produto emagrecedor”, diz Andressa.

 

Engajamento: o que realmente importa?

Em setembro de 2021, foi divulgada pelo portal de notícias Metrópoles uma lista com os cinco piores engajamentos do Instagram, com base em estatísticas da ferramenta de rastreamento Social Blade. Liderando o ranking entre os brasileiros, estava o perfil da apresentadora Maísa Silva, que apesar dos seus 39,7 milhões de seguidores, apresentou o pior engajamento da rede.

O mesmo portal, por outro lado, divulgou uma nova lista contendo então quais perfis  — acima de dez milhões de seguidores  — alcançaram o melhor engajamento na rede social. As três primeiras posições foram ocupadas respectivamente por Tainá Costa, com 14 milhões de seguidores; Virgínia Fonseca, com 28 milhões de seguidores; e Lara Silva, com 14,7 milhões de seguidores.

É claro que todas essas meninas, de alguma maneira, conseguem movimentar e envolver seus seguidores de forma que eles sempre interajam com seu conteúdo e aumentem o alcance de suas publicações. Mas ao analisar esses três perfis, não se pode deixar de considerar que eles possuem algo em comum: a quantidade de fotos em que as mesmas aparecem em biquínis ou com peças de roupa consideradas mais sensuais, ocupando grande parte de seus feeds.

 

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Comparação do feed dos perfis de Tainá Costa, Virgínia Fonseca e Lara Silva [Imagem: Instagram/ @virginia/@taina/@larasilva]

 

Ao comparar com o perfil da Maísa, é possível perceber uma diferença de conteúdo. A influencer e atriz compartilha em sua rede, além de selfies, diversas fotos dos seus trabalhos cinematográficos e registros de viagens. E mesmo dentro do seu próprio perfil, é possível comparar pelos comentários — já que os números de curtidas não são mais exibidos pela plataforma — como essas fotos recebem menos visibilidade que aquelas em que Maísa mostra um pouco mais o corpo.

 

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Comparação dos comentários entre fotos do perfil da Maísa Silva [Imagem: Instagram/@maisa]

 

Cada perfil e usuário deve ter a liberdade e o direito de publicar o que deseja, dentro das diretrizes da rede social. O questionamento é como a preferência dos algoritmos da plataforma pode influenciar os usuários a seguirem e contribuírem para essa lógica sexista. Ou então, postar determinados conteúdos apenas para conseguir mais engajamento e visibilidade para sobreviver nesse meio digital, alcançando mais usuários, marcas e trabalhos. 

Andressa diz que é difícil se manter na rede sem ser corrompido de alguma forma: “Você vai jogar de acordo com o que eles querem que você jogue, e isso pode ser abrir mão dos seus princípios, fazer propaganda de remédio que não funciona, ou editar seu corpo para que ele se torne um corpo mais ‘atrativo’. Ou você não vai passar de cem mil seguidores e ter o seu alcance – falando como uma mulher gorda fora do padrão.” 

A influenciadora diz ainda que os danos podem ser inclusive financeiros: “Sempre brinco que se eu fosse aceitar todas as propostas de remédio, creme e de cinta [modeladora e/ou redutora] que me mandam, eu teria muito mais dinheiro do que tenho hoje.” 

 

Posição da plataforma

“A gente precisa olhar com desconfiança pra tudo que nos é apresentado, e essa desconfiança que faz com que a gente desenvolva um olhar crítico. A gente está diante de uma ferramenta que pode ser muito útil, muito interessante para sociedade, mas que para aqueles que a usarem cegamente, não só essa, mas qualquer tecnologia, ela vai ser um problema.”

– Andre Miceli em entrevista à J.Press

 

Diversas vezes os responsáveis pela plataforma do Instagram negaram a possibilidade de existir qualquer viés preconceituoso e estereotipado nos algoritmos da rede, contrariando as especulações que são apresentadas. Em relação a pesquisa realizada pela AlgorithmWatch, por exemplo, foi emitido uma declaração dizendo que havia ocorrido um mal-entendido nos resultados.

A única informação concreta que eles repassam é que a classificação das postagens no feed, realizada pelas inteligências artificiais, utilizam apenas como base os conteúdos que os resultados demonstraram que há mais interesse pela comunidade. E essa é a política que se perpetua: evitar revelar exatamente como funciona a ferramenta para que não haja um controle repleto por parte dos usuários. 

O especialista em sociedade digital, André Miceli, pontua como isso pode ser perigoso: “No final das contas, o algoritmo é capaz de nos manipular de maneiras muito intensas: com a nossa relação com as pessoas, com a visão que a gente tem do mundo, a visão que a gente tem sobre a beleza, sobre a estética, e sobre nós mesmos”.

No entanto, ele avalia também que se houvesse transparência de como esses mecanismos funcionam, a navegação nas redes sociais ocorreria de forma muito mais consciente, e a influência dos algoritmos em nossas visões de mundo seriam minimizadas.

“Eu não acho que as BigTechs são más, ou não estão aqui para danificar a sociedade, mas eu acho que seria uma prestação de serviço se elas fossem claras em relação a tudo, pra gente poder entender e tomar melhor as nossas decisões… seria muito honesto se a gente entendesse claramente aquilo que nos manipula”, comenta.

Não dá para ignorar a existência das redes sociais e querer que elas deixem de existir, visto que cada vez mais as tecnologias comunicacionais farão parte da vida humana. Mas é necessário haver reflexões e consciência durante seu uso para lidar com elas a longo prazo. 

André avalia que não podemos vilanizar as redes sociais, porque tem muita coisa legal que se origina por lá. O amadurecimento e a conscientização é que fará que a sociedade tenha um consumo inteligente: “A gente precisa olhar com desconfiança pra tudo que nos é apresentado, e essa desconfiança que faz com que a gente desenvolva um olhar crítico. A gente está diante de uma ferramenta que pode ser muito útil, muito interessante para sociedade, mas que para aqueles que a usarem cegamente, não só essa, mas qualquer tecnologia, ela vai ser um problema.”

Renata também pontua que a questão da discussão é para chegarmos em um ponto em que o uso das tecnologias ocorra da melhor forma. “Os algoritmos existem muito antes da internet e quando a gente tenta fazer uma crítica ao algoritmo, na verdade a gente está fazendo uma crítica não a ele, mas a forma como ele é empregado.”

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A J.Press é uma agência de grandes reportagens que procura novas perspectivas de mundo. Com forma e conteúdo plurais, quer explorar assuntos a fundo, mesmo sabendo não ser possível esgotá-los. Em nossa agência, questões de interesse público ganham novos ares. Todos os textos da J.Press começam com uma pergunta, mas não pretendem chegar a uma única resposta.
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COMENTÁRIOS
Zuleide Saks
Maria, como aprendo com suas reportagens. Parabéns.
08 dez 2021
 
Camilo Artur Camargo
Parabéns pela matéria, Maria. Muito bem escrita e traz várias questões sobre esse controle das redes sociais, sigo muitos médicos que tomam o "shadowban" direto, porque postam fatos reais e críticas de como o sistema encara a pandemia atual e as picadas. Tudo que contraria a ideia dos chefões são sempre censurados. Adorei, até a próxima, bjão!!
04 dez 2021
 
Márcia Silleny Milare Albuquerque
Excelente reportagem. Como a manipulação é sutil nas redes.... Merece uma reflexão....
04 dez 2021
 
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