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Pelo direito do corpo gordo de existir

A banalização da gordofobia descredibiliza discursos de pessoas que buscam aceitação

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31 mar 2019 | Por Jornalismo Júnior

Por Marcelo Canquerino (marcelocanquerino@gmail.com)

Às vezes, pequenas coisas que parecem tão corriqueiras para alguns são um grande desafio para outros, isso não deveria acontecer. Caber em uma roupa, não conseguir entrar em um banheiro, não passar pela catraca do transporte público. “Eu entrar em uma loja e não achar uma roupa do meu tamanho já é um ato gordofóbico, porque não sou eu que tenho que caber na roupa, é a roupa que tem que caber em mim. Já é um absurdo eu ter que me matar para achar uma calça, por exemplo”. Para Thereza Andrada, professora e youtuber, essas situações acontecem com certa frequência. Ir à uma loja de fast fashion e encontrar uma roupa confortável é quase impossível.

A situação descrita é apenas uma das materializações da gordofobia. Não só um preconceito contra pessoas gordas, mas uma questão muito mais complexa e profunda. Após mudar de uma escola pequena para outra maior durante a 5ª série do ensino fundamental, um garoto pegou implicância com ela. Escrevia redações sobre uma garota chamada Thereza, que era tão gorda que explodia. Esses textos eram entregues para os professores. Alguma providência foi tomada? Não. “Faziam música sobre mim no intervalo e ninguém dizia nada.”

Indo desde ofensas até casos mais graves de bullying, a gordofobia está enraizada em nossa sociedade. Basta olharmos para tudo ao nosso redor. A ditadura da magreza impera: filmes, revistas, televisão, propagandas. Pessoas gordas ainda são culpabilizadas por serem gordas, como se isso fosse a pior hipótese possível. Na grande maioria dos casos, o discurso da preocupação com a saúde é o mais usado.

Muitas pessoas obesas são submetidas a situações de constrangimento cotidianamente, como ao tentar afivelar os cintos de segurança em aviões (Imagem: Mariah Lollato – Comunicação Visual/Jornalismo Júnior)

Em 2017, Thereza descobriu que tinha diabetes genética. Antes de ter descoberto a doença, perdeu aproximadamente 20 quilos muito rápido. Nesse período, ela ouvia coisas do tipo: “Ai que bom! Perdeu 20 kg em dois meses”, e quando respondia o motivo da sua perda de peso: “Nossa! Que sorte.” O que realmente importa para as pessoas, e para a sociedade de modo geral, é a estética. A saúde é apenas um subtexto para encaixar todos em um único padrão. Quantas vezes ouvimos pessoas magras, com hábitos tidos como não saudáveis, serem questionadas? É um discurso muito problemático repetido inúmeras vezes como se fosse natural. “Ainda sou gorda e todos os meus exames estão perfeitos.”

Hoje em dia, Thereza tem uma relação muito melhor com seu corpo (Imagem: instagram pessoal)

Aos 17 anos ela tinha o ciclo menstrual desregulado e decidiu ir à um ginecologista para estudar a possibilidade de tomar pílula anticoncepcional. O que ela ouviu no consultório? “Emagrece que passa”. Nenhum exame foi pedido, o que é no mínimo incoerente levando-se em consideração a gama de problemas e patologias que poderiam estar causando essa desregulação.

“Teve um outro dia que eu fui na dermatologista pra ver umas manchinhas na pele, ela olhou pra mim e começou a perguntar se eu não queria fazer uma bariátrica.” É assim que Leonardo Maia, publicitário, descreve sua ida ao consultório. “Eu não to lá pra saber sobre o meu peso, eu to lá pra saber sobre outra coisa e sempre o fato de ser gordo é o primeiro assunto a ser tocado.”

Esse tipo de situação é muito mais comum do que imaginamos. A gordofobia médica vem ganhando cada vez mais destaque. Com ajuda das mídias sociais, diversas pessoas gordas começaram a se posicionar sobre esse assunto, trazendo-o aos holofotes. A recente tag #gordofobiamédica foi uma dessas manifestações, na qual pessoas relataram casos gordofóbicos que sofreram ao procurarem profissionais da área da saúde.

“Não é um problema só do médico, é um problema das instituições que estão ensinando, que estão formando profissionais assim”, comenta Thereza. Não sabemos exatamente o que acontece dentro de uma faculdade de medicina, nem como os estudantes estão sendo orientados a lidar com esse tipo de situação. A origem do problema é clara: como a sociedade é assumidamente gordofóbica, é de se esperar que em todas as suas estruturas isso também esteja presente.

Quando a escritora Larissa Siriani tinha 18 anos, descobriu que tinha diabetes tipo 2. Juntamente da mãe, buscou auxílio médico: uma especialista em endocrinologia. Após o início das consultas recebeu orientações para mudar a alimentação, pois perder peso poderia ajudar em seu quadro, não sendo uma garantia. Até esse ponto tudo estava normal. Então a médica prescreveu uma dieta restritiva e medicamentos inibidores de apetite. O pedido suplicante de Larissa para não tomar esse tipo de medicação, devido ao seu histórico de distúrbios alimentares, foi simplesmente negado. “Ou você vai entrar na linha comigo ou você não vai se consultar comigo.” Mesmo contra essas imposições, a jovem prosseguiu com o tratamento.

Em 3 meses perdeu aproximadamente 16 quilos. Após esse período ela permaneceu estagnada, não conseguia mais emagrecer. Uma amiga sugeriu pedir à médica para refazer os exames e analisar se houve alguma melhora em seu quadro de diabetes. E foi exatamente isso que a jovem fez. Após o pedido, a médica pegou na barriga dela, balançou, e disse: “Ta bom pra você isso aqui? Porque pra mim não tá bom! Quando você tiver magra a gente conversa.”

Larissa já abordou a temática da gordofobia no livro “Amor Plus Size” (Imagem: Facebook)

Apesar de ter se sentido extremamente desconfortável, na época ela não entendeu bem o porquê. Continuou se consultando com a médica mas “entrava no consultório muda e saia calada.” Após o ocorrido, voltou a ganhar peso e desenvolveu compulsão alimentar. Um ano se passou e a profissional recusou-se a atendê-la por ela ter engordado: “Tira umas férias e quando você quiser levar a sério, você volta.”

O tamanho dessa violência psicológica foi tão grande, que Larissa passou anos sem se consultar com nenhum médico. Um ambiente que deveria servir para ajudar as pessoas, tornou-se extremamente hostil. Ela foi entender melhor a situação após iniciar terapia. “Eu parei de me consultar com ela em 2012 e a primeira vez que eu entrei num consultório novamente foi no começo desse ano.”

Essa situação refletiu também na saúde física de Larissa. Pouco tempo depois do ocorrido, teve pedra na vesícula e simplesmente não conseguia ir ao médico, pelos traumas já adquiridos e pelo medo de ser agredida novamente. Era preferível sentir dores insuportáveis a pensar na possibilidade de buscar ajuda, além de todo perigo ao qual foi exposta. “[A gordofobia] deixou de ser só sobre aceitação. Deixou de ser só sobre beleza, estética”.

Quando nos deparamos com esse tipo de situação, que inicialmente parece inacreditável, fica evidente que falar sobre gordofobia hoje é, também, debater saúde pública e todas suas esferas, desde a física até a mental. Esse caso contado por Larissa é apenas um dos milhares de exemplos de situações que pessoas gordas passam em consultórios. “É importante a gente levantar o problema da gordofobia médica porque esse é um dos principais motivos pelos quais pessoas gordas evitam procurar um médico.”

Se nossa saúde fosse determinada única e exclusivamente pelo nosso peso, pessoas magras, teoricamente, seriam saudáveis. Esse pensamento errôneo é constantemente reproduzido e faz com que aqueles que estão dentro do padrão estético julguem estar bem de saúde apenas por esse fato. Consequentemente, é comum essas pessoas não procurarem médicos com tanta frequência. É como se existisse uma única maneira de ser saudável e bonito, e essa maneira é ditada pela sociedade.

Essa cultura também implica na vangloriação do emagrecimento das pessoas, independentemente da forma que elas utilizaram para chegar a esse resultado. Leonardo conta que uma vez passou por uma cirurgia no nariz e na garganta e que, por conta disso, teve que fazer uma dieta de líquidos por 15 dias. Em função disso emagreceu 10 quilos. No trabalho, ouviu comentários sobre ter perdido peso em tom de celebração, como se fosse uma coisa ótima. Isso o deixou desconfortável. “As pessoas não se importam com qual é o motivo de emagrecer. Pra elas, emagrecer já um motivo pra se comemorar, quando na verdade não é.”

“Eu tenho me visto no espelho e gostado mais de mim” (Imagem: instagram pessoal)

O caso da modelo e influenciadora digital Nara Almeida ilustra muito bem essa situação. Com o “corpo perfeito”, Nara era muito elogiada em suas redes sociais e suas seguidoras sempre perguntavam qual dieta ela usava para emagrecer tanto. O que essas pessoas esqueciam é que Nara tinha perdido muito peso em consequência de um câncer no estômago. A sonda que saia de seu nariz era mostrada nas fotos de seu Instagram. Apesar de parecer incabível, muitas desejaram ter a doença para atingir esse padrão de beleza. Aqui percebemos que a saúde está literalmente em último plano quando o assunto é emagrecimento. Ter o corpo dos sonhos é sempre mais importante.

A mídia funciona como espelho de nossa sociedade, reflete ideias e costumes de uma época. Justamente por isso, a representação de pessoas gordas na cultura pop ainda é problemática, apesar dos avanços e melhorias. Thereza é formada em artes cênicas e fala com propriedade sobre como é este mercado. “Eu sou prova viva disso porque tenho muitas amigas atrizes gordas que sofrem para arranjar emprego, porque não existem papel para gordas, e os que existem são muito estereotipados.” Na própria faculdade, após apresentar uma cena do seriado Friends (1994-2004), ouviu de seus professores que era ótimo que ela sabia exatamente qual o seu lugar e que não tentava fugir disso: no caso, ser sempre alívio cômico.

Um caso recente que gerou muita polêmica, desde a divulgação do trailer, foi o da série Insatiable (2018-). Apontada como gordofóbica, a narrativa conta a história de Patty Bladell, uma garota gorda que sofria bullying na escola e que vê sua vida mudar completamente após emagrecer. A garota não mede esforços para se vingar de todos aqueles que lhe fizeram mal. No fim das contas, o enredo reforça narrativas na qual pessoas são validadas após emagrecerem, nada muito incomum levando-se em conta o histórico de nossa cultura.

Não são apenas séries e filmes norte-americanas que trazem esse tipo de ideal. Produções brasileiras de grande alcance também disseminam essas problemáticas. Deus Salve o Rei (2018), novela exibida pela rede Globo, mostrou a personagem de Monique Alfradique (Glória) optando por comer um fruto que a faria emagrecer mas que, como consequência, tiraria-lhe um ano de vida.

Glória pondera comer o fruto para emagrecer (Imagem: Reprodução/Gshow)

Outro aspecto da personagem que levantou discussão foi o fato da atriz, que é magra, ter usado fat suit para interpretar Glória. É um recurso largamente utilizado que consiste na utilização de enchimentos para engordar uma atriz ou ator magro. Para Thereza, a utilização desse artifício é uma forma de mostrar que pessoas gordas não são preferíveis nesse meio. “Isso é claramente um sinal da mídia alegando: nós não gostamos de gordos.” O questionamento que fica é o seguinte: porque caracterizar alguém como gordo sendo que existem atores e atrizes que poderiam fazer esses papéis?

Na grande maioria dos casos, o fat suit é utilizado porque o personagem irá emagrecer no decorrer da história. São as famosas narrativas de “patinho feio”, como denomina Larissa. Apesar do cenário estar melhorando gradativamente, ainda falta representatividade e ocupação real das pessoas gordas nesses espaços. Ir de personagens estereotipados nos livros, seriados e filmes à protagonistas com personalidade, auto-estima e que não se resumem exclusivamente ao peso, é essencial. “Quando você começa a ter ativamente a presença de pessoas mais parecidas com você em tua vida, a diferença é instantânea.”

Discutir qualquer tipo de preconceito é muito importante. Desconstruir padrões e buscar a auto-aceitação é um processo longo e difícil, porém muito necessário. Trazer a pauta da gordofobia para os holofotes faz com que comecemos a nos questionar sobre uma série de padrões e discursos que estão normalizados na nossa sociedade e que não deveriam estar. Saber o que está errado e apontar isso já um bom norte para buscarmos a mudança.

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