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‘Jane Eyre’ e a autonomia feminina

O clássico de Charlotte Brontë impacta e inspira o leitor com uma personagem que não é só a protagonista do livro, mas da própria vida.

Quando criança, Jane não aceitava ser chamada de mentirosa injustamente. Quando jovem, buscou a própria autonomia e saiu de Lowood, escola onde viveu por anos. Quando encontrou o amor, não deixou de ser quem era. Essa é a protagonista do clássico Jane Eyre (Zahar, 2021), de Charlotte Brontë, publicado originalmente em 1847.

Em uma época em que as mulheres nem sequer eram consideradas autoridade na Literatura, Charlotte, sob o pseudônimo de Currer Bell, ousou construir uma personagem principal à frente do seu tempo, em um um romance que traz diversas críticas e carrega um toque sombrio ao longo da narrativa. E o sucesso foi imediato; no mesmo ano foram publicadas mais três impressões da obra.

Na infância, os pais de Jane Eyre morrem, e a garota passa a morar com a tia, a senhora Reed, e com seus primos, o que é um grande obstáculo para sua felicidade. A mulher não se conforma em cuidar de uma órfã de família pobre — para ela, tudo o que a menina faz é perverso. A caráter de exemplo, quando o primo implica com Jane, toda a casa se vira contra ela e a castiga. Tal descaso causa revolta no leitor, que, logo no início da obra, já se afeiçoa pela protagonista e se vê aliviado com qualquer ato de carinho direcionado à menina.

Mesmo sendo maltratada, porém, Jane não se contenta em obedecer à senhora Reed. Ela tinha consciência de quem era, e ela não era uma pessoa má. Jane deixa isso claro a todos, o que irrita ainda mais a tia.  

 

“A esse catre sempre levava a minha boneca; os seres humanos têm de amar algo, e, na falta de objetos de afeto mais digno, eu me esforçava em encontrar prazer em amar e acariciar uma desbotada réplica, rota como um pequeno corvo.” 

— Charlotte Brontë, Jane Eyre

 

Todo esse desentendimento com os familiares faz com que Jane seja mandada à escola de Lowood, uma instituição religiosa de caridade para garotas. Nesse momento, a forte crítica à religião é introduzida: além de uma educação rígida, as más condições da escola são justificadas por preceitos cristãos. Se a comida é escassa, é para que elas não se acostumem aos excessos e atinjam uma “edificação espiritual”. Do mesmo modo, não importa que estejam passando frio, fome ou padecendo de alguma enfermidade, pois o diretor da instituição sempre encontrava uma desculpa para esses problemas pois, assim, podia se vangloriar de coordenar uma escola de caridade.  

A religião ainda aparece de várias formas na obra, sempre com o tom de julgamento: seja com uma caridade de fachada, com o uso dos preceitos religiosos em todos os momentos e propósitos da vida de um personagem ou de uma influência mais moderada dessas crenças, como no caso da própria Jane. Ao longo da narrativa, ela se deixa guiar pelos princípios da religião em vários momentos, mas não se impede de experimentar o que tem vontade devido a essa crença, e nem vive em função dela.

Após oito anos em Lowood, primeiro como aluna e depois como professora, Jane busca novas experiências e mais autonomia em sua vida. Assim, ela continua atuando na mesma profissão, mas apenas com a jovem Adèle em Thornfield Hall, mansão de seu patrão, o senhor Rochester, por quem Jane se apaixona. Nesse momento, um mistério também assola a residência, o que gera cenas um tanto quanto sobrenaturais à narrativa e ajudam a dar ritmo à leitura.

Ao trazer uma abordagem autobiográfica da vida de Jane, a narrativa é focada principalmente nessa personagem e também traz algumas cenas mais cotidianas, características que podem deixar a leitura arrastada em alguns momentos. Já o lado sombrio da narrativa, quando aparece, desperta rapidamente o interesse de quem lê.

A forma como o senhor Rochester trata a protagonista oscila ao longo do livro — desde atitudes autoritárias até conversas duradouras e admiração pelos talentos de Jane. Tudo isso gera sentimentos ambíguos ao leitor, que se encanta com alguns momentos do relacionamento dos dois, mas, ao mesmo tempo, não consegue gostar do par romântico.

Mesmo com comportamentos negativos, ela continua amando-o, mas não se submete aos seus desejos e idealizações. Ela nunca será um anjo — como ele poderia sonhar. Será apenas Jane Eyre, seguindo suas vontades e seus princípios.

 

A imagem está escura, como se iluminada pela luz da noite. Há uma garota branca, Jane Eyre, de cabelos castanhos deitada com um pijama de mangas longas brancas e coberta na altura do peito por uma coberta também branca, enquanto está deitada num travesseiro branco. Está com cara de assustada.
Jane Eyre tem mais de três adaptações para filme, sendo a mais recente de 2011. Nessa última versão, os aspectos góticos ficam evidentes ao telespectador. [Imagem: Reprodução/YouTube/ Focus Features]

O final da obra pode parecer destoar do restante da narrativa para o leitor contemporâneo. Porém, não cabe a ele tentar definir se o final é certo ou errado — ainda que esse sentimento possa surgir ao fim da leitura, sem ao menos lembrar que o livro foi escrito no século XIX. Embora a obra pareça prever o feminismo dos tempos atuais, tanto Jane quanto Charlotte foram influenciadas pelo contexto em que viveram e é difícil, senão impossível, deixar isso de fora da obra. Além desse fato, é importante lembrar como o livro encantou e influenciou mulheres de gerações passadas, que puderam sonhar em viver suas próprias aventuras.

Por fim, Jane Eyre é também um livro sobre o amadurecimento da personagem principal e, depois de dias na companhia dela, é difícil dizer adeus à história. Afinal, a simpatia por Jane já foi conquistada no início e sua determinação e coragem mantém o leitor apegado até o final. 

 

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