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Tóquio 2020 | O fenômeno Rebeca Andrade

Brasileira, mulher, jovem, negra, filha de mãe solo e vinda da periferia: a história da campeã olímpica

ARQUIBANCADA
02 ago 2021 | Por Laura Guedes (lauraguedes@usp.br)

A primeira mulher brasileira a ser medalhista olímpica na Ginástica Artística e a ganhar duas medalhas em uma mesma Olimpíada. Tudo isso aos 22 anos e depois de três cirurgias: essa é Rebeca Andrade.

A ginasta que brilhou em Tóquio encantou o Brasil e se sagrou como uma das maiores atletas de todos os tempos do país. Ela enfrentou diversas barreiras, mas sua vocação e garra sempre falaram mais alto e a levaram para o topo.

Onde tudo começou

Rebeca Rodrigues de Andrade chegou ao mundo no dia 8 de maio de 1999, em Guarulhos, São Paulo. Aos quatro anos, começou a frequentar uma escola municipal de ginástica em sua cidade, no Ginásio Bonifácio Cardoso. Não demorou para que ela ficasse conhecida como a “Daianinha de Guarulhos” — em uma referência à premiada ginasta Daiane dos Santos  — dado seu talento com os aparelhos.

Sua família — a mãe, Dona Rosa, e os seis irmãos — vivia uma vida simples na periferia e sempre fez o máximo para ajudar a menina em sua carreira. Por dificuldades financeiras, a jovem promessa do esporte chegou a ficar um tempo sem treinar. Ao retornar, não parou mais. Não media esforços para chegar no ginásio: ia andando, de ônibus ou de bicicleta com o irmão.

Com apenas nove anos, Rebeca se mudou para Curitiba, Paraná, para se dedicar aos treinos. Em 2011, a atleta foi convidada para treinar com a equipe juvenil do Flamengo, time onde está até os dias de hoje. Com as primeiras medalhas e premiações, a guarulhense comprou um apartamento para sua família.

Rebeca Andrade

Rebeca durante competição [Imagem: Instagram/Rebeca Andrade]

A menina de ouro

Em 2012, aos 13 anos, Rebeca Andrade começou a escrever seu nome nos pódios da ginástica. Foi ouro no Troféu Brasil de Ginástica Artística em equipe.

No Campeonato Sul-Americano Juvenil de 2013, no Peru, ela já se destacava: levou três ouros (individual geral, salto, e barras), uma prata (trave) e um bronze (equipe) com apenas 14 anos.

No seu primeiro Pan-Americano de Ginástica Artística — o Juvenil —, em 2014, ganhou três ouros (salto, barra e trave) e três pratas (individual geral, equipe e solo).

Em Copas do Mundo de Ginástica, não faltaram medalhas: sete ouros, seis pratas e três bronzes nos mundiais de 2015 até 2021. No Campeonato Brasileiro de 2016, a atleta venceu três ouros (equipe, barra e trave) e uma prata (solo), e no de 2017, um ouro (barra).

Rebeca brilhou nos Pan-Americanos de Ginástica Artística de Lima, em 2018, com uma prata em equipe, e do Rio de Janeiro, em 2021, com um ouro no individual geral ao som de seu famoso “Baile de Favela”.

Momentos de tensão

Quando estava classificada para as Olimpíadas da Juventude em Nanquim, em 2014, Rebeca precisou ser submetida a uma cirurgia no pé após uma lesão. Isso fez com que a ginasta perdesse o campeonato.

Em 2015, a atleta estava se recuperando e iria participar do Pan-Americano de Ginástica Artística, mas sofreu com mais um imprevisto: rompeu o ligamento cruzado anterior do joelho (LCA) durante um treino. Resultado: nova cirurgia e mais oito meses afastada.

Nesse período, a brasileira pensou em desistir várias vezes, mas sua mãe não deixou e Rebeca competiu no Rio em 2016. Por não estar em sua melhor forma, não obteve posições expressivas nas Olimpíadas em “casa”, porém ganhou experiência para as próximas, no Japão.

Contudo, Rebeca ainda precisou vencer mais obstáculos antes da glória em Tóquio. Em 2017, chegou como favorita no Mundial de Montreal, mas o joelho voltou a atrapalhar, novamente com o rompimento do LCA. Depois de se recuperar, a atleta passou por outro susto, dessa vez em 2019: durante uma apresentação no Campeonato Brasileiro, sofreu a mesma lesão no joelho direito pela terceira vez e precisou voltar para a mesa de cirurgias.

Em 2020, mais um entrave na busca de Rebeca por uma vaga nas Olimpíadas: a pandemia de Covid-19. A ginasta não havia se classificado para Tóquio até o início daquele ano e teria uma última chance nos Jogos Pan-Americanos de Ginástica Artística, que aconteceriam em junho no Rio de Janeiro. A pandemia ameaçou a realização do evento, mas ele ocorreu, e Rebeca garantiu a vaga olímpica.

Rebeca Andrade

Rebeca Andrade durante a prova da Trave Assimétrica [Imagem: Instagram/Rebeca Andrade]

A consagração na terra do Sol nascente

Depois de tantos desafios e esforços, Rebeca Andrade mostrou para o mundo que é uma das maiores ginastas de todos os tempos. A brasileira fez história nos Jogos da capital japonesa. Levou a prata no individual geral e o ouro no salto. As primeiras medalhas da Ginástica Artística feminina do Brasil em Olimpíadas.

A prata veio ao som de “Baile de Favela”, de MC João, mostrando que Rebeca não esquece de suas raízes e as levou junto de si para o topo do pódio. Com direito à vibração da estrela Simone Biles na arquibancada, a guarulhense encerrou a prova com incríveis 57.298 pontos.

O ouro chegou depois de dois excelentes saltos, um de 15.166 e outro de 15.000, alcançando a média de 15.083 pontos. A brasileira deixou para trás atletas de países que por muito tempo foram tidos como imbatíveis nesse esporte, como os Estados Unidos.

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Rebeca Andrade comemorando o ouro conquistado no Salto [Imagem: Instagram/Rebeca Andrade]

*Imagem de capa: Reprodução Twitter/TheOlimpics

 

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