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A Piracicaba do XV
ARQUIBANCADA
29 jun 2020 | Por Camila Paim (camilapaimf@usp.br)

O XV de Piracicaba é um time do interior que surpreende por sua história. Em 1995, a cidade do caipiracicabano, sotaque patrimonial, conquistou o título do Brasileirão Série C. Ao longo dos seus anos, o XV também cinco títulos do Campeonato Paulista A2 e um título na Copa Paulista de 2016. Salvo todos os troféus, o time ainda consegue destacar-se histórica e culturalmente. 

Escudos do XV de Piracicaba ao longo dos anos

Escudos do XV de Piracicaba ao longo dos anos [Imagem: Reprodução/McNish]


Uma breve história 

Oficialmente fundado em 1913, o quinzão nasceu nas ruas de Piracicaba. Na época, dois grupos pertencentes a famílias tradicionais da cidade costumavam jogar entre si. Eram o Esporte Clube Vergueirense e o 12 de Outubro, pertencentes à família Pousa e Guerrini, respectivamente. Em certo momento, as famílias resolveram se unir para formar um time que representasse a cidade. 

Para ocupar a vaga de presidente, as famílias convidaram Carlos Wingeter, um cirurgião-dentista e capitão da Guarda Nacional. Wingeter impôs como única condição que o time se chamasse XV de Novembro, em homenagem ao Dia da Proclamação da República brasileira. 

Como outros times do interior, o XV sempre participou dos Campeonatos Paulistas na série A2, tendo cinco vitórias nos anos de 1947, 1948, 1967, 1983 e 2011, e dois vices, em 1966 e 1981.

Em 1948, o cartunista Edson Rontani criou o mascote do time, o Nhô Quim. O personagem é baseado no torcedor tradicional do time, descendentes de italianos – como Cecílio Elias Netto descreve em sua obra Piracicaba, a Florença Brasileira, os florentinos caipiras da cidade e a presença da arte na cidade do interior paulista.

Jogador Mika, à esquerda

Jogador Mika, à esquerda [Imagem: Acervo pessoal]


Quem faz o XV 

Logo no começo, o XV sofreu derrotas. Mas, ao invés de se desestimular, o time continuou jogando o futebol, representando a cidade e ganhando fama. O ex-jogador Mika – para alguns Ademir ou José Ademir Carloni – conta que quando chegou ao time, em 1972, a equipe já era conhecida por todo o Brasil. “Joguei na época do Romeu Ítalo Ripoli. Ele era um presidente vencedor, que brigava pelo time. Era muito bom [jogar no XV], fomos campeões, vice-campeões”. 

O jogador iniciou sua carreira no Corinthians em 1970 e também teve passagem por outros times do interior paulista. Destacou-se no XV, em 1976, quando foram vice-campeões do Paulista. Em 1986, quando parou de jogar, abriu seu próprio estabelecimento comercial em Piracicaba, a loja Mika Presentes, até hoje conhecida pela cidade. “Antes eu e minha família torcíamos pelo XV de Jaú, agora todo mundo torce pelo XV de Piracicaba”, completa. 

O mencionado Romeu Ítalo Ripoli foi, em sua época, considerado um visionário. Político, engenheiro agrônomo e empresário, a sua melhor atuação se deu como Presidente do XV, entre 1959 e 1966, e, posteriormente, entre 1973 e 1983. Sua presença por trás dos campos foi marcada pelas discussões com a Federação Paulista de Futebol (FPF), defendendo os direitos de times do interior. 

Outro jogador que também foi marcante para o XV foi o Biluca, ou Reginaldo Amstalden. Piracicabano nascido e criado na cidade, Biluca desde pequeno frequentava os jogos com sua família, sempre com a tradição de comer pipoca. Quando começou a jogar, ele conta que foi a realização de um sonho. “Lembro do meu primeiro jogo, a torcida lá e agora eu que estava do lado de cá.” Desde sua primeira partida, Biluca fez história. “Se eu te contar… foi em Sorocaba contra o São Bento. Cruzaram, a bola bateu em mim e eu fiz gol contra.”

Reencontro do glorioso esquadrão 20 anos após vitória do Brasileirão de 95.

Reencontro do glorioso esquadrão 20 anos após vitória do Brasileirão de 95. Biluca é o segundo em pé da esquerda para direita [Imagem: Dayanne Arthur/XV de Piracicaba]

Quem assistiu esse primeiro jogo não esperava que, dez anos mais tarde, o mesmo Biluca, àquela altura capitão do time, faria o gol que garantiria ao XV o título do Campeonato Brasileiro da Série C. O ex-zagueiro é agora lembrado com orgulho assim como seu time – à época comandado por Oswaldo Alvarez, Vadão, conquistaram a taça nacional. Biluca atualmente tem uma escolinha de futebol e seu filho, que participou da base do XV, trabalha como treinador físico da equipe.


A Piracicaba do XV

 

“Salve o XV de Novembro, glorioso esquadrão, na vitória ou na derrota, está em nosso coração”

Estrofe do hino escrito por Anuar Kraide e Jorge Chaddad

 

Além do hino oficial, o quinzão costuma ser muito mais conhecido pelo seu hino popular, em que o sotaque caipiracicabano é marcante e prova o motivo de ser patrimônio histórico, cultural e imaterial do município.

 

“Cárxara de forfe,

Cúspere de grilo,

Bícaro de pato”

–Trecho do hino popular adaptado por alunos da ESALQ

 

Apesar das aparências, o XV de Piracicaba deixa em todos um sentimento especial. Mais do que um time do interior, a conexão entre os jogos no Barão da Serra Negra com toda a cidade emociona. 

Os torcedores João Guilherme, 18, e João Pedro, 12, contam que, desde as primeiras vezes no estádio, sentiram a emoção de ir no Barão torcer. “Vamos em todos os jogos do XV, em cada um o amor só cresce e nós queremos estar lá pelo que ele representa, a união de Piracicaba em torno de um time”, conta João Guilherme. Ele explica que algumas cidades próximas, como Rio Claro e Limeira, têm dois times, o que acaba dividindo a população em duas torcidas rivais. 

O último jogo do time antes de declarado o período de quarentena foi contra a Portuguesa Santista, no dia 7 de março. “O XV ganhou de 1 a 0 no final, foi sensacional como última lembrança até agora”, relembra João Pedro.

Para o álbum de recordações do time, não faltam registros. Em 2013, ano do centenário, o livro “Xv De Piracicaba 100 Anos: Destemido E Valente” e o documentário “Identidade Quinzista” marcaram a data. O futebol do Nhô Quim ganhou até picolé especial com sabores Pamonha e Cana com Limão, típicos da cidade. 

Além da resposta genérica do time ser especial pelo amor dos jogadores e torcida, a singularidade do XV está em sua essência: o caipiracicabano, seu hino popular e as figuras que brilharam com o time.

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