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A transformação do ódio em doutrina política
CINÉFILOS
07 maio 2013 | Por Jornalismo Júnior

A palestra com o historiador Rodrigo Medina Zagni procedeu o documentário Arquitetura da Destruição (Undergångens arkitektur), exibido na mostra “Conflitos armados, massacres e genocídios na era contemporânea”, em cartaz no Cinema da USP Paulo Emílio (Cinusp). Por cerca de uma hora e vinte minutos, Zagni pontuou informações importantes para a assimilação dos argumentos do documentarista sueco Peter Cohen.

Utilizando dados de pesquisas recentes, Zagni faz a crítica de dados históricos presentes no filme. Nele, por exemplo, é dado como início do holocausto o período no qual a Alemanha deflagra a Segunda Guerra Mundial. O palestrante informa, porém, que não há consenso historiográfico sobre isso, podendo o morticínio semita ter se iniciado em 1933, com a ascensão do nazismo ao poder; em 1938, quando passa a haver uma política mais explícita de morticínio; ou em 1941, quando houve uma radicalização dessa política após a invasão da URSS. Ainda sobre o filme, Zagni fala sobre o uso da arte como arma de guerra pela Alemanha durante o período da Segunda Guerra Mundial e sobre o conceito de propaganda criado por Goebbels, Ministro da Propaganda de Adolf Hitler.

O curador da mostra também fez uso de seus conhecimentos históriográficos para explicar, resumidamente, o processo de tomada de poder pelo partido nacional-socialista, apresentou o conceito de solução final da questão judaica – extermínio, sobre o histórico antigo de antissemitismo na Alemanha e explicar o contexto atual do neonazismo tanto no Brasil quanto na Europa. No Brasil, os grupos neonazistas têm saído da “camada subterrâenea” para a “superfície” do contexto urbano.

“Hitler não fez o holocausto sozinho. A Alemanha já era antissemita”. Segundo o palestrante, o antissemitismo não foi criado pelo comandante do III Reich. As hierarquias raciais que utilizavam os nazistas e nas quais os judeus ocupavam condições subalternas eram legitimadas por pseudo-ciências do século XIX, como a Teoria do Espaço Vital, de Ratzel, e a Teoria do Darwinismo Social, de Hebert Spencer, ambas tomadas como doutrinas políticas, e a última, nascida, de acordo com Zagni, para justificar o imperialismo inglês.

A atribuição da culpa pela degeneração biológica e social alemã tem matriz mitológica: baseado nas antigas religiões germânicas, o declínio dos deuses, arianos, se deu em razão à miscigenação com raças consideradas bestiais e inferiores. Zagni define, da forma mais simples possível, o nazismo como a transformação do ódio em doutrina política. Contraria, também, a ideia da genialidade militar de Adolf Hitler ao afirmar que ele era intelectualmente limitado, o que poderia-se, de acordo com o palestrante, perceber “nos erros conceituais graves, parágrafos curtos e narrativas esdrúxulas e mentirosas sobre sua auto-biografia em Mein Kampf”, desmentidas por estudos científicos.

Na sala, estavam presentes tanto alunos de graduação quanto de doutorado, mas o que mais chamou a atenção foi a presença de um skinhead sentado na primeira fileira, bebendo cerveja e calçando um par de coturnos. Ele, utilizando o espaço para debate aberto no final da palestra, questinou o palestrante sobre a ocorrência do holocausto. Zagni confirmou o holocausto como incontestável e acusou os grupos neonazistas de negarem-no para reforçar uma imagem menos negativa de sua doutrina. O skinhead novamente se direcionou ao curador para indagar se a morte no holocausto é pior do que a morte cerebral lenta e imperceptível de alunos em escolas públicas. Zagni respondeu que está de acordo com ele em relação à baixa qualidade da escola pública, em razão das políticas neoliberais de desmonte do Estado de bem-estar social, mas que pensa que a educação deve, a todo custo, evitar tangenciar a educação militarizada. Afirmou ser de acordo com uma educação libertária, repensando o processo educacional para que ele seja intrínseco a uma boa formação humanística.

Rodrigo Medina Zagni, que era morador do Crusp, revelou uma grande felicidade em retornar ao Cinusp, uma vez que ele era um frequente visitante do cinema. Disse também que sentiu-se cumprindo a função social de sua trajetória acadêmica e recomendou que o filme Doutor Fantástico (Dr. Strangelove or : How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb), do diretor Stanley Kubrick, fosse assistido também por seus ouvintes.

Por Daniel Drumond Ribeiro
rd.drumond@gmail.com
Cinéfilos
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