Home Sociedade Ayahuasca: uma viagem de autoconhecimento
Ayahuasca: uma viagem de autoconhecimento

Psicodélica para uns e enteógena para outros, o consenso é que a ayahuasca é uma substância única

JPRESS
10 abr 2019 | Por Jornalismo Júnior

Por Laura Scofield
lauradscofield@usp.br

Eram quase 8h da manhã de uma segunda-feira qualquer quando recebi a seguinte mensagem de uma amiga no WhatsApp: “Você acreditaria se eu te dissesse que consigo sentir o universo inteiro?” Eu acreditei. Aquela minha amiga tinha passado todo o fim de semana em um retiro espiritual, onde tomou ayahuasca várias vezes, numa jornada cujo único objetivo era o autoconhecimento.

A ayahuasca é um chá tradicionalmente produzido pela junção de duas plantas amazônicas: mariri (Banisteriopsis caapi) e chacrona (Psicotria viridis). No Brasil, o uso de tais substâncias em contexto religioso é garantido desde 1986 – Resolução nº 06, do CONFEN, de 04 de fevereiro de 1986.

São muitas as religiões ou doutrinas que se utilizam do ritual propiciado pela ayahuasca, como o Santo Daime, a União do Vegetal, a Umbanda, o Xamanismo, religiões indígenas e outros grupos espirituais. Os rituais são bastante parecidos, mas geralmente possuem algumas singularidades, como o lugar onde ocorrem, se existe dança e música, se os participantes se deitam ou se sentam, entre outros.

Ritual de Ayahuasca relacionado ao Santo Daime, em Planaltina – DF [Imagem: Lorena Duarte -@umclickparalorena]

Por mais que a ciência defina a ayahuasca como uma substância psicodélica – trataremos disso mais adiante – a religião não a define deste jeito. Para religiosos praticantes, a ayahuasca é uma substância enteógena. Qual a diferença? Enquanto uma substância psicodélica gera alucinações, mostra imagens criadas pela mente e que não estariam lá, uma substância enteógena traz uma manifestação interior do divino. O que a substância enteógena mostra não é algo criado “do nada”, é algo que, a partir de uma alteração de consciência, surge de dentro para fora.

Geovanna Melo, parte da comunidade do Santo Daime no Distrito Federal, toma o chá uma vez por semana há 2 anos e afirma que a ayahuasca não é uma droga alucinógena. Para ela, que já passou por várias situações de preconceito contra sua vivência religiosa, tratar a ayahuasca como droga é uma das formas de desmerecer e julgar sua prática e espiritualidade.

Outra é dizer que sua religião “não é de Deus” – se referindo ao Deus tradicional das religiões cristãs. Porém, Geovanna e os outros fiéis também se definem como cristãos. Eles seguem uma doutrina, são universalistas, ou seja, “acreditam em tudo”.  “A gente acredita que estamos fazendo uma ligação com nosso divino interior, que Deus não está fora, está dentro. Fazemos uma reconexão com algo que está na gente, mas acabamos perdendo.”

Anderson, fundador do Vôo da Coruja, uma entidade que realiza rituais com ayahuasca quinzenalmente na cidade de São Paulo, perto da estação Lapa, também enfatiza a importância das chamadas medicinas da floresta no desenvolvimento de sua espiritualidade. Afirma também que é importante que as pessoas reconheçam que existem várias formas de se desenvolver interiormente, e que plantas como as que compõem a ayahuasca vêm para nos mostrar que não estamos isolados da natureza, vivemos todos em um mesmo plano.

[Imagem: Reprodução]

A ayahuasca gera vários efeitos no corpo e na consciência humana. O chá é tomado em pequenas quantidades e pode ocasionar, além da esperada expansão de consciência, vômito, náusea e diarreia. Entretanto, para as práticas religiosas, esses efeitos “negativos” fazem parte do processo.

Quando se está sob o efeito das plantas, se está na força ou borracheira. É o momento em que questões interiores são trazidas à tona, por imagens e sensações, e podem gerar reflexões intensas e profundas. Já os efeitos como “viagens ruins”, vômito, diarreia ou náuseas são chamados de pêia. Pêia significa sofrimento, mas é também uma forma de purificação. É o meio pelo qual o que há de negativo e deve ser superado é retirado do corpo e mente do indivíduo, gerando uma vida de maior qualidade e felicidade. Para Geovanna, esse momento do processo é como um peso na consciência: “Às vezes você descobre coisas que te incomodam, aí dá aquela dorzinha e você chora bastante.”

Anderson diz que a pêia acontece quando se tenta “controlar o processo.” Ele acredita que a ayahuasca, por ser um chá medicinal e espiritual, guia quem o toma, trazendo as experiências necessárias para o autoconhecimento e evolução. “Quando você entra em um processo de consagrar a Ayahuasca e ter essa mudança de padrão de pensamento, você tem que aprender a confiar e deixar as coisas fluírem.”

Marília Scofield, terapêutica holística e quântica, também entende que a pêia faz parte da experiência propiciada pela ayahuasca. “O vegetal não vai te levar para onde você quer ir, vai te levar para onde você precisa ir.” Por isso, afirma que as pessoas que se propõem a passar pelo ritual devem estar bastante seguras da decisão, ter sentido “o chamado através do sagrado”. Caso contrário, a experiência pode ser perigosa, tamanha a intensidade do processo.

A terapeuta narra com bastante emoção suas experiências com ayahuasca. Diz ter se transportado para um universo repleto de luzes e cores, onde se sentiu bem como nunca antes. Após tentativas de explicar seus processos, afirma que a experiência é indizível, que palavras não são suficientes para representar tudo que acontece. Em um dos rituais, sentiu uma forte energia de luz subindo da base de seu corpo até seu coração: “Veio muito forte. Meu coração floresceu. Eu saí de lá pensando ‘gente, o amor é real, somos todos um.’”

Geovanna também se emociona ao descrever um de seus processos. Afirma que, três meses após ter iniciado suas experiências com o chá, estava se questionando bastante sobre a realidade das sensações e crenças que a ayahuasca despertava. Assim, durante um ritual, intencionou que seus questionamentos fossem respondidos.

Ela foi levada a uma floresta, onde via pássaros e ouvia o barulho de água corrente. Foi então que “apareceu algo como um espírito, um ser de luz que se apresentou como o espírito do chá, como se fosse a entidade por trás do Daime”. Naquele momento, ela sentiu que tudo aquilo era real e que aquela “não era uma bebida qualquer.”

Ritual de preparação do chá na comunidade de Santo Daime, da qual Geovanna participa, no Distrito Federal [Imagem: Lorena Duarte – @umclickparalorena]

Os rituais com ayahuasca são frutos de uma tradição indígena, de tribos da América do Sul. Eles foram trazidos e adaptados para as atuais realidades religiosas por meio de missionários, pessoas como o Mestre Irineu – fundador do Santo Daime – e o Mestre Gabriel – fundador da União do Vegetal. Vale lembrar, então, que os processos aqui citados, mesmo inspirados pelas ancestralidades indígenas, não as representam em todas as instâncias. Transportar as plantas e tradições da floresta e de seu povo original já gera grandes mudanças.

Marília, por exemplo, afirma que não teve acesso à essência real da vivência indígena, porém, não acredita que tal adaptação às novas realidades e vivências seja algo negativo. Para ela, o importante é que o vegetal e sua ancestralidade sejam valorizados e tratados com respeito.

Geovanna Melo em ritual de preparação do chá de ayahuasca, em Planaltina – DF [Imagem: Lorena Duarte – @umclickparalorena]

Outro processo desenvolvido com ayahuasca, e que também a retira de seu contexto original, tem sua origem na ciência, não na religião. Draulio Araújo, neurocientista e pesquisador do Instituto do Cérebro, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, afirma que respeitar determinada substância vai muito além da tradição – científica ou religiosa – na qual ela está sendo usada. Para ele, dada a potencialidade da substância, a real escolha é sobre restringir o uso do chá a ambientes específicos ou o aproveitar para tratamentos em pessoas que sofrem com variadas e sérias condições.

Dráulio faz parte de um projeto, iniciado em 2006, que estuda a ayahuasca para o tratamento de depressão. A versão mais atualizada da pesquisa consiste em administrar uma dose única de ayahuasca para pessoas com depressão resistente ao tratamento e analisar os resultados antidepressivos obtidos. Este tipo de doença é identificado quando o paciente já testou pelo menos dois medicamentos comerciais em dose máxima e não obteve resultados. Tais análises são feitas por meio de escalas reconhecidas dentro da psiquiatria e neurociência.

A ideia da pesquisa veio do contato com os próprios praticantes das religiões. Quando conheceram algumas comunidades, os cientistas perceberam que muitas daquelas pessoas estavam ali justamente por sentirem, na prática, os efeitos antidepressivos do chá. Nutridos de tais relatos, resolveram buscar entendê-los cientificamente.

A última pesquisa publicada, que forma o projeto de doutorado de Fernanda Palhano, testou os efeitos antidepressivos da ayahuasca em 29 pessoas, considerando o efeito placebo. Em ensaios clínicos de depressão, este efeito é muito forte, chegando a 40%. Isso significa que, dentre o conjunto de pacientes que recebe o placebo, até 40% apresenta melhora significativa. Na pesquisa, 14 pessoas receberam uma dose do chá e as outras 15 receberam o placebo, especialmente desenvolvido para ter gosto amargo e alguns efeitos – como náusea e vômito – semelhantes à substância real.

O resultado foi a redução dos sintomas da depressão logo no primeiro dia de tratamento – medicamentos comerciais requerem uso contínuo e chegam a demorar 15 dias para gerar melhora – e duração dos efeitos por uma semana. No caso dos pacientes que tomaram o placebo, os resultados foram semelhantes no primeiro dia, mas se reduziram ao longo do tempo e não chegaram a durar uma semana.

O projeto foi publicado na revista inglesa Psychological Medicine e constitui o primeiro ensaio clínico controlado por placebo que utiliza substâncias psicodélicas para o combate à depressão. Atualmente, pesquisas têm sido realizadas com Psilocibina e LSD, outras substâncias alucinógenas com potencialidades antidepressivas.

Nem Draulio nem Fernanda consideram a possibilidade de transformar a ayahuasca em um remédio para ser vendido e comprado em farmácias. Segundo eles, o que deve ser desenvolvido é um procedimento, um processo de tratamento que se utilize das potencialidades do chá. Porém, para que isso aconteça, ainda existem muitos desafios a serem superados.

Um deles se dá em função de que ainda não se entende, ao certo, como a ayahuasca age no corpo e mente humanos. Os efeitos antidepressivos têm se mostrado promissores, mas não se sabe o que os causa e em quais partes do cérebro a substância age. Trabalhar na formulação dessas hipóteses é um dos projetos atualmente em desenvolvimento por Dráulio e sua equipe.

Outro grande desafio, pontuado por Fernanda, é moral. Institucionalizar e popularizar o tratamento passa pela legalização das drogas, dilema que a Cannabis enfrenta atualmente. Esta, mesmo com resultados atestados e reconhecidos cientificamente, muitas sociedades ainda resistem ao tratamento, em função de preconceitos corroborados pelos setores conservadores que detêm o poder.

Por fim, Draulio cita um desafio inerente à própria substância. “A ayahuasca não é uma substância de divertimento.” Pontua que tomar o chá pode levar o indivíduo a descobrir coisas incômodas sobre si mesmo, o que não é fácil.

[Imagem: Lorena Duarte – @umclickparalorena]

A ayahuasca é uma medicina da floresta. Um conjunto de substâncias usadas em suas formas naturais que podem trazer grandes benefícios, desde que administradas com responsabilidade.

Não vicia e nem tem tolerância, ou seja, não desenvolve resistência no corpo. Assim, tudo aponta para que o chá – em sua versão enquanto enteógeno ou alucinógeno – ganhe cada vez mais  espaço, como um tratamento alternativo e fonte de autoconhecimento.

A dúvida que nos resta é até quando os preconceitos religiosos e morais impedirão a sociedade de desfrutar de substâncias possibilitadoras e potencializadoras de grandes melhorias à qualidade de vida humana.

J.Press
A J.Press é uma agência de grandes reportagens que procura novas perspectivas de mundo. Com forma e conteúdo plurais, quer explorar assuntos a fundo, mesmo sabendo não ser possível esgotá-los. Em nossa agência, questões de interesse público ganham novos ares. Todos os textos da J.Press começam com uma pergunta, mas não pretendem chegar a uma única resposta.
VOLTAR PARA HOME
DEIXE SEU COMENTÁRIO
Nome*
E-mail*
Facebook
Comentário*