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Futebol feminino: elas precisam de parceiro? (Alô, Flamengo/Marinha!)
ARQUIBANCADA
28 jan 2020 | Por Pedro Lobo (pcostalobo@gmail.com)

Desde 2015, quando o projeto começou, o Flamengo/Marinha tem sido uma das equipes mais competitivas do futebol feminino nacional. Seis títulos em quatro anos, incluindo um Campeonato Brasileiro (2016) e todos os estaduais que disputou. Ainda assim, quando o gol de Larissa encaminhou o time para as semifinais do Brasileirão 2019, a reação da torcida rubro-negra foi um protesto.

Em casa, as meninas acabaram vencendo por 2 a 0, eliminando o Internacional após um empate de 1 a 1 no Rio Grande do Sul. O protesto não foi para elas. As semanas anteriores àquele 24 de agosto tinham sido turbulentas, a equipe abriu mão de sua vaga na Libertadores por conta da parceria com a Marinha do Rio. O protesto era para a diretoria. “Decepcionante”, “triste”, “uma vergonha”, eram as palavras de alguns torcedores sobre o episódio, a oportunidade perdida. 

O planejamento da gestão para o ano era para a disputa do Campeonato Carioca, entre setembro e novembro, e para os Jogos Mundiais Militares, no mês de outubro. Quando o Rio Preto, segundo colocado no Brasileirão 2018, teve o projeto descontinuado, a vaga para a competição sul-americana cai no colo do Flamengo. Entretanto, o time teve que declinar a participação na Libertadores porque a competição coincidiria com os Jogos Militares, obrigação da equipe nos termos da parceria.

A insatisfação de parte da torcida flamenguista, que exige que o projeto seja abraçado por completo, ergue um debate quanto às prioridades de seu time. Dividido em compromissos com o clube e com a parceira, o Flamengo evidencia um questionamento cada vez mais comum no futebol feminino crescente no país.

 

Trampolim ou muleta?

Em 2019, o Palmeiras foi a segunda equipe que mais faturou no futebol brasileiro: foram R$ 654 milhões de receita no ano, segundo estudo do Itaú BBA divulgado em julho. As cifras dominantes no cenário nacional têm sido motor de uma equipe extremamente vencedora no masculino desde 2015, quando firmou sua parceria com o banco Crefisa. O negócio tem rendido ao clube cerca de R$ 100 milhões em patrocínio anual, além de uma ajuda de custo na compra de diversos jogadores de destaque. Vencedor da Copa do Brasil, em 2015, e do Brasileirão, em 2016 e 2018, somente nesse último ano, a instituição decidiu entrar no futebol feminino. Porém, o investimento não foi integral, mas dividido com a Prefeitura de Vinhedo.

Na parceria com a cidade, o Palmeiras financia uniformes, salários das atletas e demais necessidades da estrutura do time. Já a Prefeitura, entra com Centro de Treinamento e estádio. 76 km de distância separam a equipe feminina alviverde da casa do Palestra Itália, o Allianz Parque. Enquanto o clube ostenta sua moderna arena com capacidade de 55 mil pessoas, as atletas jogam no Estádio Nelo Bracalente, em Vinhedo, que comporta no máximo quatro mil. 

Estádio Nelo Bracalente sede do time do Palmeiras feminino

Estádio Nelo Bracalente, em Vinhedo [Imagem: Prefeitura de Vinhedo]

Na possibilidade de uma instituição como o Palmeiras em prover mais, a jornalista Gabriela Nolasco fala de uma zona de conforto: “Quando a gente vê uma equipe estruturada financeiramente, que consegue arcar com toda essa logística, acaba sendo meio confortável, porque você vê que poderia muito bem dar aquele upgrade na modalidade”. Com a obrigatoriedade das equipes masculinas da série A em manter a modalidade das mulheres a partir de 2019, as parcerias entre clubes e prefeituras, ou projetos já consolidados, tornaram-se muito comuns. Metade dos times adotaram esse modelo de 2018 para cá.

Para o jornalista Rafael Alves, esse tipo de acordo é frequente na modalidade por tratar-se de uma “saída para algumas equipes”, uma forma de viabilizar o investimento. Funciona tanto para as prefeituras, por exemplo, que dão destino às verbas de fomento ao esporte, quanto aos clubes, que têm “menos prejuízo” e que “vestem a camisa de outros projetos para falar que têm time de futebol feminino”.

Como ponto a favor da prática, Rafael cita que, ainda que não seja o ideal, pelo menos há um certo incentivo ao futebol das mulheres, com mais times em campo. Porém, o negativo é justamente o “clube que fala que apoia o futebol feminino, mas só coloca a camisa e não dá nenhum tipo de estrutura (lugar para treinar, condições dignas para treinamento, auxílios em termos de salários pras atletas, etc.)”. 

Outros desdobramentos das parcerias no país são situações como a do Foz Cataratas, um dos projetos de futebol feminino mais vitoriosos do estado do Paraná e do país. Vencedor de nove estaduais, uma Copa do Brasil e um vice da Libertadores, a equipe defendeu as cores do Coritiba entre 2017 e 2018. Por motivos financeiros, a parceria teve fim, o que possibilitou outro acerto entre Athletico Paranaense e Foz. De um ano para o outro, as atletas defenderam um clube e depois seu arquirrival no estado. Até 2019, o projeto se manteve dependente dos R$ 34 mil mensais que recebe do Athletico e, sem a renovação do contrato, poderá deixar de existir em 2020.

Time Foz Cataratas em formação antes de jogo pelo Campeonato Brasileiro Feminino de 2015

Time Foz Cataratas em jogo pelo Campeonato Brasileiro Feminino de 2015 [Imagem: Christian Rizzi]

No entanto, esse tipo de acordo também tem rendido alguns exemplos positivos, servindo como impulso inicial para que os clubes grandes assumam o futebol feminino. Um dos maiores modelos no país são as Sereias da Vila. Até 2007, elas utilizavam a estrutura da Prefeitura de Itanhaém, com pouco investimento do Santos, que provia principalmente o símbolo de peso na camisa das meninas. Foi com os títulos do Paulista e do Brasileiro que a diretoria do alvinegro praiano decidiu que era hora de tomar o projeto para si e injetar, de fato, dinheiro e apoio.

Coisa parecida aconteceu com a equipe do Corinthians, que hoje é um dos projetos mais bem sucedidos do país e que começou como uma união de forças com o Audax, em 2016. Naquele primeiro semestre, as atletas disputaram o Campeonato Brasileiro e o Paulista com a camisa alvinegra, pois era o Timão que tinha a vaga no torneio. No segundo, a Copa do Brasil com as cores da equipe de Osasco. Os custos eram divididos entre os dois clubes, que jogaram com os dois escudos na camisa em 2017. O resultado dessa operação foi uma Libertadores (2017), uma Copa do Brasil (2016) e um vice no Brasileiro (2017).

Capitã do time feminino do Corinthias levanta a taça da libertadores de 2019

Corinthians comemora título da Libertadores Feminina de 2019 [Imagem: Correio 24 horas]

Com a obrigatoriedade, a parceria foi encerrada e o Corinthians passou a andar com as próprias pernas, tornando-se um modelo. Em 2019, as Alvinegras foram hegemônicas no país, chegando a todas as finais que disputaram, sendo vice colocadas no Brasileirão e campeãs da Libertadores e do Paulista. Nesse último, a final ocorreu na Arena Corinthians, com mais de 28 mil torcedores presentes, público recorde no futebol feminino brasileiro.

Se com investimento, o clube do Parque São Jorge alcançou esse patamar, dá para imaginar o potencial do Flamengo, dono da maior torcida do país. 

 

O que impede o vôo alto do urubu?

2019 certamente foi um boom para o clube carioca no masculino. Com uma reorganização financeira, formou-se um time chamado de seleção, conquistando com seus quase R$ 720 milhões de receita líquida, Campeonato Carioca, Brasileiro e Libertadores – aquele mesmo torneio que, no feminino, o Mengo não pôde disputar. Mesmo com tanto poderio, o investimento na modalidade das meninas é de R$ 1 milhão por ano, cerca de 15 vezes menos do que é gasto com o salário mensal dos futebolistas rubro-negros.

Sobre o assunto, a torcedora Camila Massante comenta: “Decepcionante. Um clube com a atual gestão milionária, não mostrar nenhum interesse em trabalhar com a modalidade, pra mim, rubro-negra e apaixonada por futebol feminino é uma vergonha. 10% do salário de um jogador do masculino bancaria toda a equipe feminina. Confesso que estava confiante que o clube assumiria a equipe feminina com a vaga na Libertadores, mas nos decepcionamos mais uma vez.”

A também torcedora Jeniffer Xavier complementa: “Frustração, decepção! Um clube como o Flamengo jamais poderia se recusar a participar de uma Libertadores. Eu entendo o lado da Marinha, até porque é ela quem banca, mas sinto vergonha por parte do Flamengo não assumir de vez o futebol feminino”. 

Ela ainda lembra da audiência recordista que teve o mundial de seleções este ano: “Podem alegar que não tem retorno, que o futebol feminino não se banca, mas é só começar a investir que o retorno vai vir. A Copa do Mundo tá aí que não nos deixa mentir. Será que não dá retorno ou é falta de investimento mesmo?”.

Enquanto no masculino a seleção do Brasileirão 2019 teve nove atletas do Flamengo – além do melhor técnico, do melhor jogador e do gol mais bonito – no feminino, a única premiada foi Larissa, escolhida como a Craque da Galera pelo voto popular, mecanismo que é o trunfo do time de massa. No evento da CBF, ela subiu ao palco trajando as vestes da Marinha, posando para fotos com o também escolhido pelo povo, Everton Ribeiro. Vale destacar que na seleção do Brasileirão feminino, seis das 11 jogadoras eram do Corinthians, segunda maior torcida do país.

Larissa é eleita a Craque da Galera 2019

Larissa com recebe o prêmio de Craque da Galera junto com Everton Ribeiro (à esquerda) [Imagem: Lucas Figueiredo/CBF]

Na final do Campeonato Carioca de 2019, os protestos ressoavam mais uma vez das arquibancadas. Os cinco estaduais seguidos já parecem não ser suficientes para o público que acompanha a equipe. Dá para perceber, no entanto, que as reivindicações pouco têm a ver com a Marinha em si, que tem cumprido com seu papel. A cobrança é com o clube, que não tem investido como poderia, deixando de lado uma possibilidade de melhora para a modalidade toda.

“Os protestos são necessários para o clube abrir os olhos quanto à categoria. Se o Flamengo investir, sem dúvidas o próprio país evolui. Tudo o que acontece no Flamengo tem uma repercussão enorme e, consequentemente, a visibilidade aumentaria (e muito) em relação ao futebol feminino”, argumenta Adriano Skrzypa, administrador da página não-oficial do Flamengo Feminino, com mais de 20 mil seguidores.

Por fim, Camila ainda reflete sobre o desempenho do Corinthians e o que poderia se tornar a equipe do Rio: “É incrível o que fazem pelo futebol feminino, é incrível a torcida abraçar a causa, é incrível. O Flamengo milionário, com a torcida que tem, se investissem na modalidade tenho certeza que colheríamos os frutos, e nos tornaríamos a melhor equipe do Brasil.”

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