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Grammy 2020: um olhar sobre os principais indicados
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26 jan 2020 | Por Gabriela Caputo (gabrielacaputo@usp.br) e José Higídio (zehigidio@usp.br)

Neste domingo (26), acontece a 62ª edição do Grammy Awards, a premiação mais esperada e grandiosa do mundo musical. Todo o glamour do evento continua atraindo milhões de fãs e entusiastas, apesar das constantes críticas.

O Grammy é comumente condenado por deixar de lado alguns artistas e estilos mesmo tendo a proposta de coroar o “melhor” da música internacional. “Todas as premiações hoje têm o desafio de se manter relevantes, porque com as redes sociais as reações negativas às escolhas do júri ficam explícitas. Mas, ainda assim, é um “selo” de qualidade que os artistas celebram”, comenta a  jornalista musical Kamille Viola.

A jornalista Domingas Person considera que, dentre os prêmios musicais, o Grammy é super importante para um artista, talvez a honraria máxima da área: “Levar este troféu para casa transforma a carreira de um artista: é prestígio, é sucesso, e consequentemente mais dinheiro, mais trabalho, etc. Lembrando que o Grammy tem mais de 80 categorias e deveria satisfazer muitos gêneros”.

Já a produtora musical Malka Julieta lembra que muita música de qualidade é feita no cenário independente, e portanto o “melhor” é relativo. Mas também enxerga pontos positivos na premiação: “Acho que o processo de votação e indicação do Grammy é interessante, possibilita o surgimento de novos nomes no cenário”.

Para um panorama geral dos indicados ao prêmio estadunidense, é interessante analisar o chamado General Field, conjunto das quatro principais categorias.

 

Álbum do Ano (Album Of The Year)

Apesar de a Gravação do Ano representar uma conquista enorme na indústria fonográfica, um prêmio para o álbum significa, em teoria, consistência e regularidade maiores no trabalho dos artistas. Por isso, a disputa aqui é, como sempre, acirrada.

Tendo em vista a tendência do Grammy em premiar álbuns que se aproximam cada vez mais da música pop, neste ano a categoria está bem servida de obras compatíveis com esse padrão. É o exemplo de thank u, next, de Ariana Grande – “diva pop” de grande ascensão nos últimos anos, mas ainda estreante na categoria. Desta vez com uma influência maior do trap nas batidas, o disco talvez aposte demais em seus singles para conseguir o troféu.

Lana Del Rey é outra cantora tida como representante do pop, apesar das suas variadas influências de soft rock, música psicodélica e até erudita. Seu pop alternativo pode ter atingido o ápice de sua atratividade com Norman Fucking Rockwell!!, que, até por isso, marca sua primeira indicação a Álbum do Ano. Mas se a Academia não a premiou até hoje, seu mais novo trabalho não difere tanto assim dos anteriores a ponto de mudar essa visão.

A banda Vampire Weekend sempre transitou bastante entre o indie rock e o indie pop com influências do punk e afro-fusion, mas, desde seu penúltimo disco, vem assumindo o estilo do pop rock. Ainda assim, a guinada cada vez mais pop não vai muito de encontro com as preferências da Academia. Father of the Bride é também o trabalho menos original e empolgante do grupo, o que diminui mais ainda as chances dos estreantes na categoria.

Originalidade e empolgação, bem como equilíbrio e cautela com a sonoridade, não faltam em When We All Fall Asleep, Where Do We Go?, de Billie Eilish. Gravado em um pequeno estúdio montado no quarto de seu irmão e produtor Finneas, o álbum de estreia da garota de 18 anos recém-completos alcançou sucesso estrondoso no ano passado. Às vezes frenético, às vezes suave como sua sussurrante voz, seu pop é também alternativo e tem influências de música experimental, eletrônica e até trap e ópera. E tem grandes chances de faturar o troféu.

Mas nada está garantido para Billie. Isso porque seu favoritismo é dividido com Lizzo, líder de indicações desta edição. Seu álbum Cuz I Love You atingiu positivamente o público e ainda mais a crítica em 2019. É menos uma obra pop e mais R&B, soul, funk e rap  – mas a mescla de todos esses estilos é extremamente orgânica, bem montada e produzida, e aperfeiçoada por seus vocais potentes, enérgicos e expressivos. “A Lizzo segue em ascensão com trabalhos impecáveis, seja de produção, de marketing ou de performance. Creio que ela abocanha boa parte dos prêmios da noite”, comenta Malka.

A cantora Lizzo, indicada a oito categorias. [Imagem: Divulgação/Atlantic Records]

A cantora Lizzo, indicada a oito categorias. [Imagem: Divulgação/Atlantic Records]

Já um R&B mais “cru”, que tanto segue uma sonoridade mais moderna quanto tem influência do neo-soul dos anos 1990, é apresentado pela cantora H.E.R.. Mesmo com apenas 22 anos, é a única da lista que já concorreu a Álbum do Ano, e desta vez retorna com I Used to Know Her. Sua simplicidade é bem-vinda, mas pode estar distante da vitória pela sua duração um tanto longa, e também pelo fato de ser na verdade uma compilação de músicas de seus últimos EPs.

Se nos últimos anos o Grammy valorizou indicações de álbuns de rap, desta vez, além de Lizzo (e ocasionalmente H.E.R.), apenas Lil Nas X aparece na categoria. O jovem de 20 anos estourou no ano passado – porém muito mais em função de seu principal single, Old Town Road. Apesar disso, 7 é consistente, com uma bela mistura de trap, country, pop e rock. Isso compensa o fato de o artista não ser um rapper de técnica e flow invejáveis. Mas não deve ganhar pelo fato de seu lançamento ser apenas um EP de curta duração.

Por fim, se o Grammy é criticado por contemplar apenas os estilos de música mais populares, a banda Bon Iver vem sendo um bom respiro a essa hegemonia. Único dos indicados que já venceu uma das categorias principais (Artista Revelação em 2012), o grupo liderado por Justin Vernon representa claramente um estilo alternativo. Comumente descrito como indie folk, seu som é também experimental e com toques de eletrônica, e seu álbum i,i demonstra muito bem essa combinação – mas dificilmente será gratificado em uma categoria tão aclamada.

 

Gravação do Ano (Record of the Year)

Esta categoria premia o artista e toda a equipe envolvida na produção da canção de maior destaque do ano. Hey, Ma, da banda Bon Iver, representa o alternativo da lista, dentre indicados que tendem, no geral, ao pop. A mistura da melodia crescente com toques eletrônicos conferem à música uma atmosfera bastante emocional, reforçada pela letra que evoca uma figura materna. É uma das faixas mais convencionais do álbum i,i, mas, ao lado das concorrentes, não se sobressai e dificilmente leva o prêmio.

Um dos destaques da categoria é bad guy, single responsável por grande parte da popularidade de Billie Eilish. Os sintetizadores e as brincadeiras que faz com a própria voz, ora sussurrante, ora desconstruída, combinam-se de maneira a formar uma musicalidade estranha em um primeiro momento. Porém, a atmosfera meio macabra, que já é uma marca da garota, logo conquista aqueles que buscam por algo novo. É um trabalho muito singular, que traz frescor ao cenário pop. Não será uma surpresa se Billie conquistar esse troféu.

Ariana Grande, premiada no Grammy 2019 pelo álbum Sweetener, concorre em cinco categorias na atual edição. Aqui, 7 rings é a candidata. A produção partiu do sample de My Favorite Things, trilha do musical A Noviça Rebelde (The Sound of Music, 1959). Apesar de cativar os fãs da música pop, 7 rings não se destaca muito em relação aos trabalhos anteriores da cantora, e não traz novidades ao cenário pop. Ao lado do frescor apresentado por bad guy, por exemplo, as chances de uma vitória são baixas.

Já a cantora H.E.R., uma das revelações da edição passada do Grammy, concorre na categoria de Gravação do Ano com Hard Place. É uma música gostosa de se ouvir, pela suavidade da melodia e honestidade da letra. No entanto, dificilmente será a preferida da categoria, devido à baixa popularidade de H.E.R em relação aos outros concorrentes.

O jovem Khalid, que em 2018 foi indicado a cinco prêmios no Grammy, na presente edição recebe pouco destaque e só aparece nessa categoria – talvez por seu segundo disco, Free Spirit, não apresentar muita novidade em relação ao seu trabalho de estreia. Pela parceria com os produtores do duo Disclosure, Khalid concorre por Talk. A canção é envolvente e apresenta a marca de Khalid: combinação entre voz suave e recursos eletrônicos. Entretanto, não parece se destacar dentre as concorrentes.

Ao lado de bad guy, Truth Hurts, de Lizzo, é uma das favoritas para o prêmio. Os vocais poderosos da cantora, cheios de atitude, constroem a faixa mais alto astral dentre os concorrentes. Foi o single mais aclamado da artista no ano passado, apesar de ser apenas uma faixa bônus de seu álbum. 

Lil Nas X concorre na categoria por Old Town Road, featuring com Billy Ray Cyrus. Antes do sucesso de bad guy, era essa a música que dominava as paradas. Por isso, apesar do favoritismo de Eilish e Lizzo, a vitória de Old Town Road  não deixa de ser uma possibilidade.

A última música que concorre na categoria é Sunflower, dos rappers Post Malone e Swae Lee. Em uma versão mais pop do que seus trabalhos usuais, Sunflower é divertida como o filme do qual é trilha sonora: a animação Homem-Aranha: No Aranhaverso. Mas, ao lado de canções que foram mais marcantes para o ano da indústria fonográfica, dificilmente se destaca.

Com apenas 18 anos, cantora Billie Eilish conseguiu seis indicações. [Imagem: Divulgação]

Com apenas 18 anos, cantora Billie Eilish conseguiu seis indicações. [Imagem: Divulgação]

Canção do Ano (Song Of The Year)

Para a categoria que premia o trabalho de composição, neste ano, diferente das últimas edições, a Academia priorizou músicas mais tranquilas e de andamento mais lento. As duas únicas exceções são justamente as favoritas: Billie Eilish e Lizzo, pelas mesmas canções que concorrem a Gravação do Ano. Com instrumentais mais cativantes e variados, além de letras que exploram bastante a entonação e acentuação das palavras, é natural que uma das líderes de indicações faturem esta.

Aqui concorrem figurinhas carimbadas do Grammy como a já citada Lana Del Rey, pela faixa-título de seu álbum; Lady Gaga e Taylor Swift (suas únicas indicações em categorias principais nesta edição); e H.E.R., novamente por Hard Place. As surpresas são os novatos da categoria: a veterana do country Tanya Tucker, que, no entanto, já havia sido indicada dez vezes para outras categorias no passado; e o jovem escocês de 23 anos Lewis Capaldi, cantor de pop e soul. Todas são composições belas e de fácil aderência do público, mas não exatamente inovadoras, complexas ou condizentes com o troféu.

 

Artista Revelação (Best New Artist)

A última categoria do General Field costuma ser um pouco polêmica, por não distinguir artistas estreantes de artistas que já apresentaram trabalhos anteriores, mas repercutiram e impactaram o cenário musical somente mais tarde.

Billie Eilish também está indicada aqui, e, na opinião de Domingas Person, precisa levar pelo menos esta categoria. Além dela, Lil Nas X e Lizzo, citados anteriormente, o prêmio de Artista Revelação apresenta como candidatos a cantora inglesa de country-soul Yola, e representantes do funk e soul, como Black Pumas, duo formado por Adrian Quesada e Eric Burton, e Tank and the Bangas, grupo de New Orleans, Louisiana. A categoria também traz o pop sentimental com toques de folk de Maggie Rogers, e o pop envolvente com influências do flamenco, da espanhola Rosalía. Para Malka Julieta, Rosalía “chega com força total pra somar no quadro de grandes estrelas do pop; é um nome que dificilmente irá sumir e voltaremos a ver em novas edições”.

 

Mais do mesmo?

Outro ponto pelo qual o Grammy sofre reprovação é a representatividade dos artistas escolhidos. “A questão racial sempre foi um ponto sensível no Grammy. Rendeu muitas críticas, o que foi mais do que justo, afinal, se tem um lugar onde artistas negros têm bastante destaque é na música norte-americana, e não contemplá-los, muitas vezes, teve a ver, sim, com racismo estrutural”, opina Kamille Viola.

Ela também acredita que se o Grammy quiser renovar seu público e se manter relevante, Lizzo deve ser premiada: “É uma grande artista, estourou, é elogiada pela crítica, e ainda é mulher, negra e gorda. Seria muita representatividade, mas sem forçar a barra”.

Malka Julieta considera que esta edição não apresentou muitos avanços com relação a essa problemática, já que, assim como qualquer prêmio dessas proporções, “quem vota são na sua maioria pessoas brancas e heteronormativas”.

Já na visão de Domingas Person, houve espaço sim para diversidade de raça e gênero nesta edição. “Mas, acho difícil avaliar se este Grammy é mais ‘justo’ do que os anteriores. Tão importante, também, é saber se estas indicações refletem um mercado com oportunidades iguais para todos”.

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