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Meu reflexo no espelho

Um dia na vida de uma garota com transtorno alimentar

JPRESS
23 mar 2020 | Por Letícia Flávia (leticiaflavia@usp.br)

6:00 AM.

Acordo com o toque do despertador. A cama é tão confortável e tão acolhedora. Eu só queria dormir mais, o sono é o refúgio dos meus problemas. Levanto devagar e vou ao banheiro. Esvazio minha bexiga e escovo os dentes antes de voltar para o quarto. Todo dia me pesava na balança que escondia embaixo da cama. Virou hábito. Era ela que ditava o meu comportamento (e humor) ao longo do dia. Subo. Droga. Desço.

Visto meu uniforme sem me olhar no espelho, arrumo minha cama e já estou pronta. Encontro meu pai na mesa da copa tomando café da manhã, como acontecia todo dia antes de me levar para o colégio. Sento ao seu lado e me sirvo de café, puro e sem açúcar, a única coisa que ingeria de manhã. Falava que não estava sentindo fome naquele horário, era cedo demais, mas não era verdade. Isso já fazia algum tempo, e aderi esse hábito depois de fazer várias dietas. No início meus pais estranharam eu não aproveitar o que costumava ser minha refeição favorita. Era, porém, a mais fácil de pular, porque só tinha meu pai na mesa. Além disso, eu me enchia de café que, felizmente, não tem calorias.


08:40 AM.     

O sinal do primeiro intervalo toca, anunciando o fim de uma tediosa aula de geografia. Me encontro fora da sala de aula com minhas duas melhores amigas, Ju e Carol, e vamos para nosso cantinho, que era na escada do segundo andar. Ali ficávamos observando as pessoas, conversando sobre a vida e sobre as aulas. Como estávamos no segundo ano do ensino médio, a pressão de estudar feito um condenado ainda não nos atingia, fazendo com que aproveitássemos os intervalos sem muito estresse. O primeiro deles era o que eu mais gostava. Ainda não estava com fome, e nem minhas amigas, que tomavam um café da manhã de verdade. Mas hoje, nesse momento, me sinto desconfortável. Será que todo mundo percebe que ganhei peso? Será que minha coxa está maior? Mesmo estando de calça jeans larga e com o blusão da escola, fico preocupada.


10:40 AM.

Segundo intervalo. Meu estômago começa a roncar por volta das 10h, o que sempre me tira a atenção durante a aula. Saio da sala dessa vez só com a Carol, porque a Ju tinha ido à cantina comprar seu lanche. Vamos novamente para o cantinho. 

Carol tinha trazido num potinho um pedaço do delicioso bolo de chocolate que sua mãe fazia, e comia com gosto. Eu observo. Só queria ser magra de nascença, que nem ela, e poder comer o que quiser, que nem ela, sem me preocupar em ganhar peso. Por que eu não tive essa sorte?  Após reparar minha encarada inconsciente no bolo, Carol me oferece um pedaço. No fundo estou morrendo de vontade, mas não posso. Recuso. “Você não vai comer sua maçã?”. Menti que estava enjoada e que não conseguia comer. Na verdade, não tinha levado a fruta propositalmente. Eu não podia me dar ao luxo de lanchar, não depois do número que a balança mostrou hoje.   

Carol era minha melhor amiga desde o oitavo ano do ensino fundamental e nossa amizade sempre foi muito verdadeira. Ela era uma das pessoas que eu mais confiava nesse mundo, e sei que poderia contar a ela qualquer coisa. Mas eu não me sentia confortável de falar sobre o que mais me frustrava. Nem com ela, nem com ninguém. É um problema meu, então prefiro lidar eu mesma e guardar pra mim. Já toquei no assunto com meus pais algumas vezes, mas eles sempre dizem que estou exagerando, ou que é frescura, ou que “você está ótima, você é linda assim”. No fim, não muda muita coisa.


1:00 PM.

Entro no carro ouvindo meus pais comentando animados sobre “o almoço de hoje”. Minha mãe, corretora de imóveis, tinha feito grandes vendas e estava pronta para comemorar nos levando num bom restaurante. Fico preocupada. Em casa, é sempre mais fácil comer menos, fingir saciedade, ou até mesmo pular a refeição. Eu poderia colocar 3 folhas de alface por cima da comida que meu prato pareceria maior. Mas em restaurante, era difícil. Tinha que ser justo hoje, em que eu estava maior que o normal?

Chegamos no local, sentamos na mesa e nem olho no cardápio para não ficar tentada a comer. Peço uma água enquanto meus pais pedem suco. Tomar calorias era uma bobagem. O restaurante cheirava muito bem. “Vamos pedir um prato pra 3 pessoas?” perguntei. “Melhor não, filha. Cada um pede o que quiser”. Droga. Ia ser difícil resistir o apetite com um prato inteiro diante de mim. Dou uma olhada no cardápio e só vejo massas: risoto, macarrão, lasanha… Ótimo dia para vir num restaurante italiano. Vou para os pratos kids e peço o que considero ser o menos calórico diante de tantos molhos: spaghetti ao sugo. 

Quando meu prato chega, penso que tanto de macarrão pra vir num prato kids. Ok, eu posso comer metade do que veio. Na primeira garfada, fui às nuvens. A comida estava tão gostosa. A aparência estava tão boa. Meus pais comiam com tanta vontade. Eu continuo comendo, até me dar conta que já estava quase terminando o prato. A culpa me invade por ter comido um macarrão quase que inteiro. É tão grande que nego até experimentar a sobremesa que meus pais pediram depois. Voltamos para casa. Durante o caminho, decido quantos abdominais terei que fazer para compensar essa extravagância.


3:30 PM.

Respiro ofegante depois da minha oitava série de 50 abdominais. Pelo menos fazendo esse exercício, me sentia menos pior. Paro diante do espelho e me observo. Olho para minha barriga. De frente ela parece ok, mas de perfil vejo que não está ok o suficiente. Olho para minha coxa. As gorduras na parte de cima continuam me incomodando, razão pela qual eu não gostava de usar shorts ou calças justas. Quando eu emagrecer mais, vou ser tão feliz. As coisas serão tão mais leves e legais. 

Me jogo na cama e suspiro. Abro meu celular. Vejo que a Carol acaba de postar um #tbt, com uma foto nossa de três meses atrás, em uma das raras vezes que fui para uma festa de alguém da nossa sala. Carol estava linda, como sempre, com seu vestido tubinho que eu jamais teria coragem de usar. Depois, olho para mim. Nossa, até que eu estava magra na época. Geralmente esse pensamento vem quando observo fotos minhas meio antigas. Às vezes me pergunto se me vejo diferente no espelho. Porque todo mundo diz uma coisa, mas eu vejo outra. Eu vejo tantos defeitos. Nunca me sinto magra o suficiente e parece que quanto mais tempo passa, mais eu fico maior. E ao mesmo tempo, eu não confio nas pessoas. Elas mentem. Mentem que você é linda, ou que você está magra. Eu não sei. O que eu vejo parece verdadeiro.


6 PM. 

Dou uma pausa nos estudos e pego meu celular. Entro no Instagram e meu feed é bombardeado de imagens do Victoria’s Secret Fashion Show. Começo a stalkear modelos que participaram e entro em um caminho sem fim. Adriana Lima, com 38 anos, tem o corpo perfeito. E a Alessandra Ambrósio, então? Meu maior desejo era ter aquele corpo. Como ela era sortuda. Uma mensagem da Carol finalmente me tira do Instagram e me leva ao WhatsApp.

Eei! você vai no aniversário do Caio hoje?”.

Aniversário? Eu nem estava sabendo que tinha sido chamada para algum aniversário. 

Ele convidou todo mundo da turma!”. 

Droga. Não suporto festas. 

“Vamosss, a Ju também vai”. 


Respondo para a Carol que ainda estava enjoada, então seria “difícil de ir”. Tecnicamente, eu não menti para minha melhor amiga. Realmente não estou me sentindo confortável hoje, desde de manhã. Sinto que se eu fosse, todo mundo ia reparar em mim, no quanto engordei. Iam olhar para minha barriga inchada, meu braço, minha coxa. Além disso, teria que lidar com toda aquela comida e bebida presente em festas. Não estou disposta a lidar com pessoas comendo coisas gostosas na minha frente ou a ouvir comentários como “não vai comer nada? não quer beber nada?”. Sinto que estou a todo momento sendo julgada.


8:20 PM.

“Filha, vem jantar!”, escuto na voz da minha mãe. Caramba, não me dei conta de que já é esse horário. Jantar com meus pais era sempre complicado, porque não queria passar a impressão de que não queria comer, o que era sempre muito difícil porque, na maioria das vezes, a comida era muito boa. Tentava fingir que “tinha comido mais cedo” pelo menos umas três vezes por semana. Nessas ocasiões eu pegava ou alguma fruta, ou um iogurte zero gordura com aveia, ou dois pedaços de peito de peru com dois biscoitos de água e sal. Mas lógico, eu tinha meus truques. Colocava pratos e talheres na pia, como se tivesse usado e lavado, e deixava o que tinha para comer em cima da mesa, como se tivesse comido alguma coisa de lá. Hoje, como não tinha feito nada disso, minha mãe induziu que não tinha jantado ainda. E estava certa.

Saio do quarto e me junto a meus pais, que estão se servindo na cozinha. O jantar de hoje era… ovos mexidos, arroz, feijão e frango em cubos. Procuro a salada, minha mãe diz que acabou. Droga. Era bem mais fácil enganar meus pais de que peguei o suficiente com a salada.  

Me sirvo de uma colher de sobremesa de arroz, duas de feijão, duas de ovos mexidos e  conto 5 cubinhos de frango. Como já era de se esperar, lá vem meus pais falando “nossa, por que você pegou tão pouco?”. Penso em desculpas que ainda não usei com eles essa semana. “O molho do macarrão que pedi no almoço estava bem forte, e ficou revirando no meu estômago até agora…”. Acho que eles acreditaram. Sou a primeira a terminar de comer, me levanto para lavar o que sujei. Quando estou no fim da tarefa, minha mãe solta um “olha o que eu fiz pra gente…” e tira o pavê que tinha feito da geladeira e o coloca na mesa. 

Droga. Pavê era simplesmente meu doce preferido. Justo hoje? A culpa já chega em mim por saber que eu vou ter que comer, pelo menos um pedaço. Doce sempre foi meu ponto fraco. Me sirvo uma quantidade considerável de pavê e vou às nuvens a cada colherada. Até esqueço de que não poderia estar comendo isso, ainda mais hoje. Mas eu como. E repito. É um comer transtornado. Quando termino, meu pai solta um “a gente sabia que você ia devorar o pavê!”, sorrindo. Seu comentário coloca de volta meus pés no chão. Deixo o pote com o restinho da sobremesa em cima da pia para lavar depois, e vou para o meu quarto dizendo que tinha que ir ao banheiro. Fecho a porta, deito na minha cama e começo a chorar. Chorar por não me controlar. Chorar de culpa por ter comido tanto. Chorar por não conseguir ter o corpo que eu queria, mesmo me esforçando tanto. Isso dói tanto.


9:00 PM.

Me levanto e observo minha imagem no espelho. 

A frustração me invade. 

Não gosto do que vejo. 

Me sinto gorda, tipo de verdade, aperto todas as partes do meu corpo que tem algo sobrando. Me vejo muito gorda, odeio minha barriga e quadril. Sinto nojo, desgosto. Mais lágrimas rolam por minha face. É um choro silencioso, mas genuíno. Sei que isso acaba com a minha saúde mental e que faço isso para me encaixar no padrão, mas não sei qual a saída. Todo dia me comparo aos padrões existentes e me culpo por não achar que me encaixo neles totalmente. E isso é tão doloroso. Eu me esforço tanto, para no final achar que nada mudou. Para no final me sentir péssima. Para no final viver em função do meu corpo.

Para no final, me olhar no espelho e não saber ao certo quem eu sou e como sou.


Por trás da crônica

O texto expõe de perto alguns dos muitos sentimentos e situações que envolvem a vida de uma pessoa com transtorno alimentar e com transtorno de imagem corporal. A protagonista e várias de suas ações foram inspiradas em uma entrevista com alguém que passou, sem saber na época, por esses transtornos. 

Para entender mais sobre as questões alimentares de uma pessoa com distúrbio, foi consultada Karin Dunker, nutricionista com atuação em Transtornos Alimentares em Centros de referência de São Paulo. 

Já para auxiliar os sentimentos e hábitos da personagem desenvolvida no texto, a psicóloga clínica e professora no curso Avançado em Transtornos Alimentares do AMBULIM (do Instituto de Psiquiatria do HC-FMUSP), Rogéria Taragano, foi entrevistada. 

Também para a elaboração dessa matéria, foi feita uma pesquisa com 85 pessoas que se propunha a investigar a relação delas com seu corpo. A faixa etária se divide entre 15-20 anos (67% das votações) e 20-30 anos (30%), sendo a maioria dos participantes (84,7%) mulheres. 

De acordo com a pesquisa, muitos de nós temos dificuldade de aceitar e/ou gostar do nosso corpo como ele é. Para pergunta “Você já se sentiu triste ou frustrado/a com o seu corpo?”, as respostas são alarmantes e identificam algo sério: a pressão estética atinge a maioria das pessoas, independente do seu físico.

Pesquisa mostra que insatisfação com o corpo é comum

Pesquisa mostra que insatisfação com o corpo é comum [Imagem: Formulários Google]

Das 85 pessoas contempladas pela pesquisa, cerca de 25,5 já tiveram algum distúrbio alimentar e 8,5 talvez já passaram por isso. O “talvez” na pesquisa se justifica pois é possível que o indivíduo não tenha consciência de ter tido algum transtorno, apesar de ter/ ter tido alguns comportamentos típicos dele.  

O Transtorno de Imagem Corporal (TIC) é quando o indivíduo percebe seu corpo diferente do que realmente é, e geralmente acompanha e ocasiona o Transtorno Alimentar (TA). É preciso distingui-lo do Transtorno Dismórfico Corporal (TDC), que é quando o indivíduo se preocupa excessivamente com “defeitos” sutis ou inexistentes em sua aparência. Nesse caso, o TDC não envolve distúrbios alimentares.

Os transtornos alimentares mais conhecidos são a anorexia, bulimia e compulsão alimentar. A anorexia é identificada pelo TIC. A pessoa se enxerga “gorda” e isso faz com que ingira pouquíssimas calorias durante o dia, além de se utilizar de outros métodos como o uso de laxantes, jejum prolongado e excesso de atividades físicas.

A bulimia se caracteriza por episódios frequentes de consumo exagerado de alimentos, seguidos por métodos compensatórios para evitar o ganho de peso, como indução de vômitos, uso de laxantes e diuréticos, jejum prolongado e atividades físicas extenuantes. Já a compulsão alimentar existe quando a pessoa  frequentemente se alimenta em grandes quantidades e perde o controle – mesmo ao se sentir saciada. Na compulsão, não há nenhuma tentativa de abrandar a ingestão calórica. 

Os transtornos alimentares são doenças de caráter psicológico e psiquiátrico, que requerem, de preferência, um tratamento multidisciplinar, envolvendo a psicoterapia com orientação nutricional. 

 Algumas formas de prevenção estão relacionadas a mudança do enfoque nas discussões, de forma que o foco seja sempre na saúde do indivíduo, e não em sua aparência. “O que a ciência tem mostrado é que todos devem comer de tudo, com moderação e tranquilidade, procurando respeitar a sua fome”, de acordo com Rogéria. Além disso, recomenda-se tomar cuidado com dietas muito restritivas, que podem ser um gatilho para o transtorno alimentar.

Se o leitor está passando por algum distúrbio, ele não está sozinho nessa. Procure ajuda.


Alguns locais de tratamento:

 Ambulim (Programa de Transtornos Alimentares (Anorexia Nervosa, Bulimia Nervosa e Compulsão Alimentar) 

Contato: 11 2661-6975, de segunda a sexta-feira em horário comercial 

Email: ambulim.ipq@hc.fm.usp.br com os seguintes dados: nome, idade, data de nascimento, altura, peso, telefones de contato e e-mail.

 

Proat (Programa de Atendimento, Ensino e Pesquisa em Transtornos Alimentares na Infância e Adolescência)

Email: protad.hc@uol.com.br

 

HOSPITAL DAS CLÍNICAS

Contato: (11) 2661-0000

 

GATDA – Grupo de Apoio e Tratamento dos Distúrbios Alimentares e da Ansiedade

Contato : (11) 3865-860

Email: contato@gatda.com.br

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