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O Rio que os cariocas não reconhecem
ARQUIBANCADA
13 ago 2016 | Por Jornalismo Júnior

Por Iolanda Paz

Sendo eu paulistana de origem, chegar ao Rio de Janeiro no dia 5 de agosto foi, no mínimo, marcante. Não apenas por sua beleza, que enfim conheci e agora confesso enaltecer – junto com os muitos outros que já o faziam antes –, mas por essa ser a data oficial de abertura dos Jogos Olímpicos Rio 2016. Talvez, o mais intrigante seja constatar que visitei não uma cidade maravilhosa e sim, espetacular – no sentido de espetáculo mesmo –, só que irreal para seus habitantes.

Adentrando o Rio de carro, não pude deixar de notar, em cada passarela pela qual passava, a presença de soldados agachados, armados com fuzis, prontos teoricamente para agir e atirar. O olhar não acreditava muito no que via: nunca antes se deparara com o exército brasileiro. Depois, até se acostumou. A presença dos militares variou do Cristo Redentor às esquinas de vielas próximas ao porto. Passear por elas, repletas de botequins típicos – cheios de gente alegre, conversando, bebendo cerveja e escutando samba –, contrastava bruscamente com o tanque de guerra que eu avistava ao final da rua, enquanto caminhava.

A casualidade do momento boêmio carioca chocou-se com a seriedade da presença dos soldados, que claramente não pertenciam à cena original que eu poderia ter presenciado. Essa mobilização do exército foi a maneira encontrada pelo Brasil para afirmar ao mundo – e aos brasileiros – que a segurança será garantida, numa tentativa desesperada de provar nossa capacidade para abrigar um evento como a Olimpíada.

Quando fomos escolhidos em 2009 para sediá-la, a imagem que se queria fazer crer era a de um país que havia atingido o patamar de “primeiro mundo”, mas os cariocas bem sabem que essa não é a realidade. Vivíamos um momento político estável e, agora, em meio a uma polarização e a uma tremenda crise política, a possível crença num “país do futuro” há muito se foi. Cartazes espalhados pelo metrô do Rio de Janeiro, nos quais se pode ler o slogan “Grandes eventos passam por aqui”, apenas demonstram o desejo de convencer os próprios brasileiros de que vamos conseguir realizar os jogos. E se, por enquanto, estamos obtendo êxito, a insegurança não foi escondida nem disfarçada, mas explicitada.

Parque Olímpico localizado na Barra da Tijuca. Com uma área de 1,18 milhões de metros quadrados, é o principal polo das competições: sede de 16 modalidades.  (Foto: Iolanda Paz)

Parque Olímpico localizado na Barra da Tijuca. Com uma área de 1,18 milhões de metros quadrados, é o principal polo das competições: sede de 16 modalidades.
(Foto: Iolanda Paz)

Por volta do meio dia, o Rio de Janeiro era uma cidade calma: o trânsito fluía muito bem. Havia sido feriado na quinta-feira, e a sexta de abertura também era. Ao reparar nas pistas das avenidas, percebi uma divisão pintada de verde no asfalto – “Rio 2016” –, para carros oficiais e transporte relacionado às olimpíadas ou à imprensa. Essas faixas estavam vazias, mas nas horas seguintes, próximas ao horário da cerimônia no Maracanã, certamente foram muito utilizadas.

Se os fluxos de transporte no Rio de Janeiro estavam ocorrendo de maneira satisfatória, em parte se deu aos feriados, em parte à mudança das férias escolares – que agora serão do dia primeiro ao dia 28 de agosto. Entretanto, grande parcela está relacionada à construção da nova linha de metrô que, junto com a via expressa Transolímpica do BRT (Transporte Rápido por Ônibus), ficou responsável por garantir o acesso ao Parque Olímpico. Em termos de mobilidade urbana, esses serão os maiores legados da Olimpíada para a população; mas, durante o evento, a via olímpica do BRT será de uso exclusivo para atletas, profissionais e turistas.

As experiências que tive com o metrô do Rio de Janeiro foram agradáveis: os vagões estavam tranquilos, bem distante de lotados. “Vocês [turistas] estão com sorte, aproveitando o melhor da cidade”, disse um carioca com quem conversei, “no dia a dia, o metrô não é assim, não”. Ele também afirmou descontente que eventos culturais estavam sendo promovidos nas periferias, para evitar que cidadãos se deslocassem pela cidade, deixando-a vazia para quem é de fora.

No Parque Olímpico, as principais críticas do primeiro final de semana foram às grandes filas para conseguir comprar comida, demorando em torno de uma hora e meia.  (Foto: Iolanda Paz)

No Parque Olímpico, as principais críticas do primeiro final de semana foram às grandes filas para conseguir comprar comida, demorando em torno de uma hora e meia.
(Foto: Iolanda Paz)

Nas horas seguintes, aproximando-se do momento esperado da abertura, estive pelo Cristo Redentor. O acaso tomou conta e cheguei ao alto do Corcovado nos momentos finais da tarde. Pouco consegui avistar do pôr do sol… Quando percebi, já estava escuro e uma equipe de iluminação havia chegado. Eles seriam os responsáveis por fazer o Cristo ficar nas cores de nossa bandeira, possibilitando aos helicópteros fazer as imagens áreas indescritíveis do Rio de Janeiro, que foram transmitidas para as televisões do mundo inteiro durante a cerimônia.

Pessoas ao meu redor comentavam, animadas, que estávamos fazendo parte de um acontecimento histórico – tendo a oportunidade de vivenciar uma parte da produção do evento. Também ouvi uma reflexão que me deixou alerta: “Esse poderia ser o momento ideal para um atentado do Estado Islâmico”. Por mais que pudesse ser óbvio, explodir um símbolo da religião católica, em meio a uma cerimônia transmitida tão maciçamente para o globo, serviria muito bem aos interesses do terrorismo: vangloriar-se do horror provocado – chamando a atenção de todos.

Mesmo achando a possibilidade um tanto remota, deixei o Cristo com um certo alívio. E o sentimento permaneceu nos momentos seguintes, quando, da mesa de um restaurante, pude assistir a uma abertura bem executada. À minha volta, as pessoas pareciam surpresas. A verdade é que a cerimônia superou as expectativas baixas da população. Muitos já haviam caído no ceticismo total e até irracional em relação ao Brasil, mas seus orgulhos inflaram um pouco durante as horas finais da sexta-feira.  

Povos indígenas, colonização, escravidão, imigração, urbanização… O passado brasileiro foi demonstrado em toda a sua complexidade, com o uso de muitos recursos tecnológicos: do piso de LED – onde imagens foram projetadas – a “tablados” que subiam para formar prédios. A diversidade musical também esteve presente, com samba, funk, rap e bossa nova.

Um dos momentos mais emocionantes foi a quebra de protocolo, quando o símbolo olímpico foi apresentado totalmente em verde.  (Foto: Reprodução)

Um dos momentos mais emocionantes foi a quebra de protocolo, quando o símbolo olímpico foi apresentado totalmente em verde. (Foto: Reprodução)

O recado que ficou explícito foi a importância da convivência das diferenças, seja numa cidade ou entre países. Visando a uma cooperação, o debate a respeito da sustentabilidade tomou o lugar da atenção mundial – o Maracanã – e argumentou sobre a necessidade de pensarmos, em conjunto, o futuro do planeta e suas mudanças climáticas. O reflorestamento foi defendido e, como medida concreta, todos os atletas que participaram da cerimônia receberam uma semente ao entrar no campo. Elas serão plantadas onde agora está instalado o Parque Radical, e formarão, no futuro, a Floresta dos Atletas.

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