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Princesas Disney: a franquia padronizada escolhida a dedo — até quando?
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07 jul 2018 | Por Jornalismo Júnior

princesas da disney

No último mês de maio, mais precisamente no dia 19, aconteceu o casamento real entre Meghan Markle e o príncipe Harry, que mesmo não concedendo o título de princesa à Meghan (pois ela não possui “sangue real”), não deixou de fazer o mundo lembrar que ainda existe realeza. Pessoas começaram a se imaginar no lugar de Meghan ou de Harry, olhando com bom grado a vida que ambos iriam seguinte dali em diante.

Se para os adultos o padrão de vida de Meghan seria “perfeito”, para as crianças esse trabalho é da Disney. Sim, estamos falando da elite; o clube mais exclusivo, reservado apenas para as mais icônicas, mais lindas — por dentro e por fora — e as mais mágicas… princesas da Disney.

Porém, não basta ser uma princesa para ser uma princesa da Disney. Desde 1930 a lista (crescente) de princesas que ganharam o título afeta diretamente na vida de milhões de crianças, então é óbvio pensar que a Disney escolhe cuidadosamente e está constantemente evoluindo seu conceito do que significa ser uma princesa da Disney.

Mas, será que essa escolha “cuidadosa” está realmente levando em conta a diversidade e representação das mulheres? Com o passar das décadas houve um crescimento da necessidade de incluir princesas que fugiam do padrão branco e europeu, mas a Disney ainda está caminhando.

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SIM, existem pré-requisitos!

 

Quando é lançado um novo filme com uma candidata em potencial, ela ainda tem que cumprir os seguintes pré-requisitos:

Ter um papel principal em um filme animado

Significa que a princesa tem que ser uma das personagens principais da animação. Essa exigência é bem direta e já exclui algumas candidatas.

Tem que ser humano

Pode ser algo intuitivo, mas já descarta personagens como a princesa Nala de O Rei Leão (The Lion King, 1994) que, mesmo sendo uma princesa, por ser uma leoa está automaticamente fora do clube.

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Princesas da Disney 03Não ser a personagem principal em uma sequência

Para ser uma princesa da Disney oficialmente, a princesa não pode ter sido introduzida em uma sequência da Disney. Assim, damos tchau para Melody — filha de Ariel — pois ela, embora seja a personagem principal, foi introduzida em uma sequência.

Nascer na realeza, casar com realeza ou realizar um ato de heroísmo

A princesa não precisa cumprir os três, apenas um deles. O último foi adicionado para Mulan ser considerada parte do clube.

Ser um sucesso de bilheteria

A última exigência — que nunca é falada — é que o filme precisa ter sido um sucesso de bilheteria. Princesas da Disney 04Assim, ela já exclui diversas candidatas, além de ser um pouco complicada, pois o filme também não pode ser sido um sucesso imenso. Então, a linha tênue entre ser um sucesso mas não um sucesso imenso é muito difícil de enxergar.

Por isso Anna e Elsa não fazem parte da elite da Disney. Fizeram tanto sucesso que, para a Disney, é mais lucrativo elas serem uma franquia separada.

Assim, depois de passar com sucesso na dura tarefa de cumprir todas as exigências, ela se torna uma princesa da Disney. Mas quem são as poucas que possuem esse título?

Branca de Neve

Fazendo sua aparição em Branca de Neve e os Sete Anões (Snow White and the Seven Dwarfs, 1939), Branca de Neve é a primeira princesa da Disney. A inveja da beleza de Branca de Neve fez com que sua madrasta, a Rainha Má, a expulsasse do castelo, fazendo Branca morar com sete anões. Ela é uma princesa por nascimento. Seus pais eram reis de um distante reino. A bilheteria mundial foi de $418 milhões.

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Cinderela 

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O filme Cinderela (Cinderella, 1950) nos introduz a primeira princesa loira. Cinderela trabalhava como empregada para sua madrasta e se torna princesa ao se casar com o príncipe Encantado. Ela não nasceu uma princesa, embora seu pai fosse um homem rico. A bilheteria mundial foi $263.6 milhões.

Aurora

Com bilheteria mundial de $51.6 milhões, o filme A Bela Adormecida (The Sleeping Beauty, 1959) nos mostra a terceira princesa da Disney: Aurora. Ela é uma princesa por nascimento, mesmo tendo passado a maior parte de seus anos de adolescência vivendo na floresta e sendo criada por um trio de fadas.

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Princesas da disney 08Ariel

Em A Pequena Sereia (The Little Mermaid, 1989), Ariel é filha do rei Tritão e da rainha Atena. Ela se apaixona por um príncipe humano e faz um acordo com a bruxa do mar para transformar-se em humana. Ariel é a única princesa que pode reivindicar realeza tanto debaixo do mar — por ser filha do rei dos mares — quanto acima, através de seu casamento com o príncipe Eric. A bilheteria mundial foi de $211.3 milhões.

Bela

Em A Bela e a Fera (The Beauty and The Beast, 1991), Bela é uma camponesa que entra no castelo da Fera depois que ela aprisiona seu pai, Maurice. Com a ajuda de seus servos encantados, ela começa a transformar o coração frio da Fera. No final do filme, Bela se casa com a Fera, que vem a ser um príncipe, tornando ela uma princesa por casamento. A bilheteria mundial foi de $425 milhões.

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princesas da disney 09Jasmine

No filme Aladdin (Aladdin, 1992), a primeira princesa árabe nos é apresentada: Jasmine. Ela recebe seu crédito de princesa por nascimento, pois é filha do sultão, rei de Agrabah. Jasmine é um marco na história das princesas da Disney, porque abriu as portas para outras princesas de origens não-caucasianas. A bilheteria mundial de Aladdin foi de $504.1 milhões.

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Em Pocahontas (1995), Pocahontas é filha do chefe da tribo, sendo uma princesa por nascimento e a primeira da América do Norte. Quando os colonizadores ingleses chegam, ela se apaixona por John Smith, porém logo começa uma guerra entre os nativos e os ingleses. A bilheteria mundial foi de $346.1 milhões.

Mulan

Sendo uma guerreira chinesa, Mulan ganha seu título através de um ato heróico, não precisando nascer ou casar com alguém da realeza. Em Mulan 2: A Lenda Continua (Mulan II, 2004), ela chega perto, tomando o lugar de uma das filhas do Imperador em um casamento arranjado, mas não vai até o fim. Mulan (1998) teve uma bilheteria mundial de $304.3 milhões.

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Tianaprincesas da disney 12

Em A Princesa e o Sapo (The Princess and the Frog, 2009), a ambiciosa e trabalhadora  Tiana (a primeira princesa afro-americana) sonha em um dia abrir o seu próprio restaurante em Nova Orleans. Mas ela conhece o príncipe Naveen, que tinha se tornado um sapo pelo maldoso Dr. Facilier e que tem esperanças de ser um humano novamente se Tiana beijá-lo. No final do filme, Tiana casa com o príncipe Naveen. A bilheteria mundial foi                                                                                                 de $267 milhões.

Rapunzel

Em Enrolados (Tangled, 2010), o bandido mais procurado do reino, Flynn Rider, se esconde em uma torre, e encontra Rapunzel, residente de longa data da torre. Dona de cabelos dourados mágicos, ela está trancada há anos e quer a liberdade. Rapunzel é princesa por nascimento e seu filme teve a bilheteria mundial de $591.8 milhões.

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Merida

Merida em Valente (Brave, 2012) é um dos exemplos mais explícitos de uma mulher forte na Disney. No filme, ela deve seguir os costumes do seu reino e tornar-se rainha ao lado do cavalheiro que conseguir a sua mão durante um torneio de arco e flecha, mas Merida está determinada a trilhar o seu próprio caminho e desafia a tradição ancestral. É uma princesa da Disney por nascimento e teve a bilheteria mundial de $540.4 milhões.

 

No total, são 11 princesas que participam oficialmente da elite da Disney. Mas e as outras princesas? Por que foram deixadas de lado?

Algumas das personagens esnobadas são:princesas da disney 15

Tinkerbell

Ela foi previamente incluída na franquia das princesas da Disney, mas foi removida para se tornar o rosto principal das fadas da Disney.

Giselle

Giselle de Encantada (Enchanted, 2008) também se encaixa em todos os pré-requisitos: é humana; performou um ato heróico; é a personagem principal e sua bilheteria mundial foi boa. Porém a Disney percebeu que teria que pagar royalties à Amy Adams — atriz que interpretou e dublou a princesa Giselle —, então ela foi descartada.

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princesas da disney 17Kida

Assim como todas as outras princesas esnobadas, Kira de Atlantis: O Reino Perdido (Atlantis: The Lost Empire, 2001) preenche todas as exigências. Então, por que não o título? Pois foi um fracasso de bilheteria mundial, rendendo apenas $189princesas da disney 18 milhões.

 

Vanellope von Schweetz

Vanellope de Detona Ralph (Wreck-It Ralph, 2012) é a princesa perdida de um jogo, dando a ela o status de princesa. Porém ela é muito nova e acabou não entrando para o clube.

 

 

As princesas influenciam as crianças?

Se ainda restam dúvidas se as princesas são feitas para definirem padrões a serem seguidos, essas dúvidas são cessadas agora. Com certeza existe uma pressão social que foi construída ao longo da história em cima das garotas, ditando que o ideal de beleza é ser magra, alta e branca.

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Fotos: Disney UK

Uma pesquisa feita pela antropóloga Michele Escoura no Departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, que estudou de que maneira as imagens de princesas servem como um referencial e exemplo de gênero, obteve resultados assustadores e, ao mesmo tempo, previsíveis: ao exibir os filmes Cinderela e Mulan, Michele pediu para que as crianças fizessem desenhos comentados sobre a cena mais relevante de cada filme. Entre os diversos desenhos, alguns chamaram a atenção, como a constante associação da princesa com o príncipe e o padrão estético de beleza.

Michele afirma também que encontrou uma relutância, por parte das crianças, de aceitar Mulan como uma princesa, coisa que não aconteceu com Cinderela. “Não é que a Disney está criando esses padrões [de beleza], eles já existem na sociedade. O que a Disney está fazendo é traduzir todos esses padrões para uma determinada faixa etária, para um determinado grupo de pessoas”, disse em entrevista ao site Lado M.

Mas esse cenário de submissão e idealização da mulher nos filmes da Disney vem se modificando. Pocahontas, Mulan, Merida e até a princesa não oficial Elsa tem suas histórias contadas fora da sombra de um homem. Mudanças, ainda que lentas e pontuais, estão acontecendo, porém, como disse Michele, a Disney apenas reproduz o que a sociedade encara como comportamento normal.

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Fotos: Disney UK

 

Contudo, em 2016, a Disney se juntou com centenas de pais para redefinir o significado de ser uma princesa. Em vez de focar na aparência das personagens, seu objetivo era enaltecer as qualidades positivas de princesas antigas e novas, assim inspirando garotas a acreditarem nelas mesmas. Eles então colocaram uma longa lista de qualidades na frente de 5.000 pais, que as ranquearam de acordo com o que achavam mais relevantes para suas filhas. A Disney selecionou os 10 princípios mais escolhidos e colocou em posters. O ranking final foi esse:

  1. Cuide dos outros;
  2. Viva saudavelmente;
  3. Não julgue um livro pela capa;
  4. Seja honesta;
  5. Seja uma amiga que você mesma possa confiar;
  6. Acredite em você mesma;
  7. Corrija erros;
  8. Tente o seu melhor;
  9. Seja leal;
  10. Nunca desista.

A representatividade está vindo de carruagem

Durante os primeiros anos da Walt Disney Studios, não havia muita diversidade de etnias retratadas nas princesas da Disney. De Branca de Neve e os Sete Anões até Bela e a Fera  somente nos são apresentadas histórias com a personagem principal jovem e branca. Somente em 1992 com o lançamento de Alladin (onde vemos Jasmine) vemos a situação mudar. A princesa Jasmine veio abrindo a porta que já era tanto ansiada por todos e, graças ao sucesso de Alladin, foi permitido à Disney continuar a contar histórias de outras mulheres de diferentes etnias e culturas. Aí que entram Pocahontas, Mulan e, mais recentemente, Tiana.

Contudo, em 2017 foi lançado o filme Moana: Um Mar de Aventuras (Moana, 2017), que mostra uma personagem que talvez tenha sido a escolha de história da Disney mais ousada até então. Moana é negra, tem cabelo cacheado e é baixa, fugindo de tudo que a Disney tinha apresentado até então. Ela é natural das Ilhas Polinésias e sua história não gira em torno — na verdade passa bem longe — de um príncipe encantado. Moana tem como objetivo achar o semideus Maui e restaurar o coração de Te Fiti para que a natureza se estabilize novamente.

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Finalmente víamos uma história que empodera meninas ao redor do mundo, mostrando à elas os valores que, naquela pesquisa da Disney UK, os pais já reconheciam como relevantes e preciosos. Porém, infelizmente, Moana não é considerada uma princesa da Disney, assim excluída desse grupo seleto.

Contudo, não há como negar que, de fato, a Disney está caminhando para que o máximo de garotas ao redor do mundo sejam representadas justamente. Por isso é importante ficar de olho nos próximos projetos da empresa e esperar mais personagens tão incríveis, diversificadas e empoderadas quanto as (poucas) que já vimos.

Enquanto esperamos, vale ressaltar que em WiFi Ralph, a sequência de Detona Ralph, iremos ver todas as princesas da Disney (até as que não são oficiais!) interagirem e, pelos trailer já lançados, dá para ver que a empresa irá satirizar seu próprio critério de escolha das princesas oficiais. Então, será que isso é uma maneira de mostrar ao público que ela está ciente de como sua franquia é segregada do resto do universo e que no futuro isso pode mudar? Só o tempo para responder.

(Mas vale uma espiadinha de como será esse crossover incrível, né?)   

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por Gabrielle Yumi
gabrielleyumif@gmail.com

 

 

 

 

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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