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Se a Rua Beale Falasse é uma dança entre poesia e realidade
CINÉFILOS
04 fev 2019 | Por Cinéfilos

Artístico e verdadeiro são palavras que descrevem perfeitamente este filme. Ao mesmo tempo em que trata de problemas como racismo e violência policial, consegue apresentar uma história de amor bonita e cativante. Se a Rua Beale Falasse (If Beale Street Could Talk, 2018) é baseado no livro homônimo de James Baldwin e acompanha a história de Tish (KiKi Layne), mulher grávida que luta para tirar seu namorado, Fonny (Stephan James), da cadeia, preso por uma falsa acusação de caráter racista.

O retrato histórico dos Estados Unidos da década de 1970 é muito fiel. Os figurinos e a ambientação estão impecáveis, contribuindo para remontar esse período. As discussões sociais da época que, inclusive, são muito atuais, também permeiam toda a narrativa. A premissa do filme, por exemplo, segue essa ideia, já que Fonny é acusado injustamente de estupro por ser negro.

Tish e Fonny vivem um amor sublime, paixão típica de filmes clichês no qual ambos se conhecem desde a infância e, com o passar do tempo, vão descobrindo que se gostam. Apesar disso, os protagonistas da história conseguem entregar ótimas atuações e fazem com que o espectador crie um vínculo e torça para um final feliz.

O casal protagonista é muito bem desenvolvido [Copyright Tatum Mangus Annapurna Pictures DCM]

A narrativa acompanha o presente e faz menção aos acontecimentos do passado à partir de flashbacks. Em ambos os momentos, a vida deles é constantemente perturbada e dificultada. Se tudo parece bonito e romântico, logo em seguida socos no estômago são introduzidos. Períodos intercalados que vão da esperança para uma triste realidade. O entusiasmo do casal na busca de um lugar para morar é derrubado a cada moradia que visitam, afinal de contas ninguém queria fazer negócio com negros.

Além do racismo, o longa toca em alguns assuntos muito delicados como a violência policial e o estupro. Todas as evidências de que Fonny não cometeu o crime hediondo são apresentadas, mas isso não adianta de nada frente a palavra de pessoas brancas. Já a cena na qual Sharon (Regina King), mãe de Tish, se encontra com a mulher que fora estuprada é muito intensa. Sim, ela sofreu um estupro mas não pelo protagonista.

Tish com sua irmã, à esquerda, e sua mãe, à direita [Copyright Tatum Mangus Annapurna Pictures DCM]

É impressionante a capacidade que o diretor Barry Jenkins tem de retratar momentos comumente romantizados de forma poética, mas mantendo um fundo real. É o caso da cena em que Tish perde a virgindade com Fonny. A construção do ambiente é romântica e bonita ao mesmo tempo em que é crível. É nítido o receio da garota no início. Após esse momento, ela também comenta (e isso é mostrado) ter sentido dor.

O núcleo familiar do jovem é muito interessante, porém pouco explorado. Sua mãe e irmãs são extremamente religiosas e reagem muito mal ao fato de Tish estar grávida. Aqui havia potencial para o desenvolvimento de muitas discussões envolvendo fanatismo religioso que não é aproveitado. Esse problema é mostrado no começo mas logo deixado de lado.

Momentos de racismo velado e explícito fazem o espectador sair da sala de cinema se questionando: isso que eu acabei de ver está tão distante daquilo que o mundo experimental hoje em dia? E a resposta é clara: não! Se a Rua Beale Falasse se localiza na linha tênue entre o surreal e a realidade de maneira paradoxal, não contraditória.

Com 3 indicações ao Oscar, o longa chega aos cinemas brasileiros em 7 de fevereiro. Confira o trailer aqui:

por Marcelo Canquerino
marcelocanquerino@gmail.com

Cinéfilos
O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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