Por Davi Milani (davimilanip@usp.br)
163 anos. Esse foi o tempo necessário para o Crystal Palace conquistar um título da primeira prateleira do futebol inglês. Campeão da terceira divisão e bicampeão da segunda divisão do Campeonato Inglês, o clube é um dos mais antigos da Inglaterra, com torcedores movidos pela paixão, e não por títulos. A fidelidade na arquibancada emociona, e se consolida com a cristalização de um antigo sonho: a Copa da Inglaterra.
Os jogadores marcaram seus nomes na história do clube ao vencer esse título inédito [Imagem: Reprodução/X:@CPFC]
A primeira vez não se esquece
Quem imagina a trajetória do Crystal Palace como sorte de um principiante, se engana. É a terceira vez que o time chega a uma final de FA Cup em sua história: foi vice-campeão nas temporadas de 1989/90 e 2015/16, em ambas ocasiões derrotado pelo Manchester United, em Wembley. Quis o destino que, não só a primeira Copa da Inglaterra, mas também o primeiro título das Águias fosse contra outro Manchester, no mesmo Wembley.
A final tinha pesos diferentes: De um lado, o Manchester City, com 7 títulos apenas de Copas da Inglaterra; do outro, o Palace, sem sequer um título. Enquanto o City priorizava a briga pela classificação para a Champions League no campeonato inglês, as Águias estavam com os olhos voltados para a final. A diferença de propósito foi um dos fatores que as levou ao título.
O Manchester City, eliminado ainda na segunda fase da Liga dos Campeões e com um desempenho abaixo no campeonato inglês, em comparação com os últimos anos, tropeçou antes da final com o empate fora de casa contra o Southampton, o último colocado da Premier League. Esse empate faz os Citizens correrem por fora na briga pela classificação para a Champions da próxima temporada, numa disputa que se acirra a cada rodada.
Já o Crystal Palace, diferentemente do time de Guardiola, vivia outro momento. Apesar dos resultados moderados nos jogos do campeonato inglês que antecederam a final – três empates, duas vitórias e uma derrota –, só uma coisa importava: vencer o City e se sagrar campeão. Para o Manchester, não classificar para a Champions seria um problema maior do que perder a final da FA Cup. Para o Palace, nenhum resultado diferente da vitória importava.
Destaques da Temporada
O Manchester City viveu uma temporada difícil, colecionou más atuações no campeonato inglês e na Champions League, competições que se acostumou a brigar pelo título. Muitos torcedores chamariam de um ano para se esquecer: a primeira temporada sem títulos de Guardiola desde que chegou ao clube; a temporada menos artilheira de Haaland desde que chegou ao clube; a despedida de Kevin de Bruyne depois de 10 anos de City. Pouco se aproveita de tantas marcas negativas.
O abraço de uma dupla de longa data na última final de Kevin de Bruyne pelo City [Imagem: Reprodução/X:@ManCity]
Já o Crystal Palace viveu uma fase diferente. Eberechi Eze é o meia pensante: o camisa 10 coleciona 13 gols e 11 assistências na temporada. Jean-Philippe Mateta é o atacante e artilheiro da equipe, com 17 tentos marcados. Dean Henderson é quem fechou o gol e permitiu a campanha moderada na Premier League e o sucesso na FA Cup, passaram de 15 jogos sem sofrer gols. Com a chefia de Marc Guéhi, zagueiro e capitão do time, e o discernimento de Oliver Glasner, técnico do Palace, as Águias faziam uma campanha histórica, independentemente do título da Copa da Inglaterra.
O capitão do Crystal Palace tem apenas 24 anos e já recebeu sondagens de outros clubes interessados em sua contratação [Imagem: Reprodução/X:@CPFC]
A partida final
Num jogo de grande domínio do Manchester City, quem triunfou foi o Crystal Palace. Com uma posse de bola hegemônica, mais chutes ao gol, mais passes, maior acerto nos passes e mais escanteios, o time de Guardiola parece ter sido injustiçado. Mas essa é a magia do futebol: os jogadores de Oliver Glasner souberam lidar com a pressão e conquistaram uma vitória máxima pelo placar mínimo.
Comemoração do gol que trouxe o título inédito [Imagem: Reprodução/X:@CPFC]
O gol do triunfo saiu aos 16’ do primeiro tempo, em jogada pela ponta direita do campo. O jogador Daniel Muñoz disparou até a linha de fundo e cruzou para o meio da área. O camisa 10, Eberechi Eze, chegou no arremate, e, com apenas um toque, estreou o marcador. Apesar da vantagem conquistada relativamente cedo na partida, o Palace se viu pressionado em vários momentos, com inúmeras chances criadas pela equipe adversária.
Mas o grande protagonista da partida foi o goleiro Dean Henderson, que além de ter fechado o gol, também fez parte de um momento controverso. Aos 30’ da primeira etapa, Henderson intercepta um lançamento para Haaland, com a mão, fora da área, negando uma chance clara de gol à equipe adversária. A recomendação natural seria a expulsão do goleiro, fato que não aconteceu e permitiu uma grande atuação do inglês na partida.
Henderson, goleiro formado na base do Manchester United, realizou defesas importantes para o resultado. O seu maior feito entre todos da partida foi a defesa do pênalti aos 36’ do primeiro tempo. Após Bernardo Silva ter sido derrubado pelo ala-esquerdo, Tyrick Mitchell, dentro da grande área, o City teve sua grande oportunidade de empatar o marcador, mas a bola parou em Henderson, que realizou grande defesa na cobrança de Marmoush e, no rebote, na finalização de Haaland.
Com esse conjunto de milagres realizados num dia inspirado do goleiro do Crystal Palace, a sensação era de que, independentemente do quanto o City tentasse, Henderson continuaria defendendo as investidas, até quando fosse necessário. No apito final, Henderson se sagrou melhor em campo e o Crystal Palace se tornou campeão da Copa da Inglaterra. Inédito. Apoteótico.
Lágrimas molham a medalha de um vencedor
O Wembley é um palco de grandes histórias, e dessa vez não foi diferente. Além da partida emocionante, questões extracampo tornaram essa conquista ainda mais especial para os torcedores e jogadores do Crystal Palace, como foi o caso dos irmãos Dominic e Nathan e do próprio goleiro Henderson.
“Meu pai estava comigo em cada chute”
Dean Henderson em entrevista à BBC Sport
Henderson dedicou o título da FA Cup ao seu pai, que faleceu ainda no começo da temporada. “Ele estava aqui comigo hoje”, acrescentou o goleiro inglês. Apesar de não poder comemorar com seu pai fisicamente, a emoção desse título passa por todas as gerações que viveram por esse momento, viveram por esse título. Muitos não tiveram a oportunidade de estar aqui, mas a memória resgata e conclui o sonho póstumo de tantos: o Crystal Palace é campeão.
O título da FA Cup foi o primeiro título profissional que Henderson ganhou como titular [Imagem: Reprodução/X:@deanhenderson]
Um dos acontecimentos que marcaram a final foi a história dos irmãos Dominic e Nathan. Os torcedores do Palace exibiram um bandeirão de uma cena histórica: um pai celebrando com seus dois filhos uma vitória sobre o Manchester United em 2011, nas quartas de final da Copa da Liga. Acontece que esses dois filhos são Dominic e Nathan com seu pai Mark, que faleceu em 2017, devido a um câncer. A imagem da família se popularizou após a morte de Mark, e se tornou um símbolo da torcida.
Mark e seus filhos, unidos por uma paixão [Imagem: Reprodução/X:@CPFC]
Os irmãos estiveram presentes em Wembley para a final e eternizaram em uma foto o emocionante momento, junto a outros 30 mil torcedores do Crystal Palace. “Foi especial, mostra que ainda existe um amor não só pelo meu pai, mas por todos os entes queridos que amavam o Palace e não tiveram a chance de vivenciar esse momento. Todos eles sabem que agora já estamos no próximo passo”, acrescentou um dos irmãos em entrevista à BBC. O torcedor solta o grito, e volta a chorar de felicidade após muito tempo. Se o título demorou 163 anos para chegar, é justo que por muito mais que 163 anos o título seja comemorado.
Foto de capa: [Imagem: Reprodução/X:@EmiratesFACup]
