Por Heloisa Falaschi (heloisafalaschi@usp.br)
Começa hoje, a exposição do Zumví Arquivo Afro Fotográfico no Instituto Moreira Salles (IMS) localizado na Avenida Paulista. A mostra traz um recorte do arquivo original de Salvador, tem entrada gratuita e permanece em cartaz até o dia 23 de agosto.
Em coletiva de imprensa realizada no dia 25 de março, o curador Hélio Menezes apontou que o arquivo foi dividido em diferentes temáticas. Todas elas são fundamentadas em vivências negras e periféricas, como por exemplo a Feira de São Joaquim — maior feira livre de Salvador —, afoxés, também conhecidos como “candomblé de rua”, e o crescimento do movimento hip-hop na cidade.
Na coletiva também estavam presentes José Carlos Ferreira, historiador e diretor de relações institucionais do Zumví e Lázaro Roberto, co-fundador do arquivo.

[Imagem: Rogério Espírito Santo: Zumví Arquivo Afro Fotográfico/Reprodução]
O Zumví foi fundado em 1990 por Lázaro Roberto, Aldemar Marques e Raimundo Monteiro, fotógrafos negros e periféricos. Lázaro conta que a criação do arquivo surgiu da necessidade de catalogar as imagens em diferentes temáticas que abordam a cultura afro-baiana.
“Depois de 15 anos fotografando percebi que o que eu estava fazendo era documentação”
Lázaro Roberto
Apesar dos trinta anos da instituição, o arquivo possuí fotografias de meados dos anos 1970. Registros da transformação baiana advinda do crescimento de movimentos negros marcam os mais de 30.000 negativos do arquivo. Todos eles são armazenados na residência de Lázaro, no bairro da Fazenda Grande do Retiro, em Salvador.
O nome tem origem na união das palavras Zum — zoom, grafado em português — e da palavra “ví”. Segundo Lázaro Roberto, a ideia surgiu após conseguir finalmente adquirir uma câmera que possibilitasse o zoom, que o tornou menos invasivo em suas fotografias.
O acesso restrito a equipamentos fotográficos marcou a trajetória de Lázaro. José Carlos trouxe a conversa aos dias atuais e pontuou que o acesso da população negra e periférica à tecnologia continua complexa e estreita.

[Imagem: Lázaro Roberto: Zumví Arquivo Afro Fotográfico/Reprodução]
Lázaro Roberto: o fotógrafo do futuro
Durante sua carreira, percepções sobre Salvador foram moldadas. Uma delas era que, apesar de a cidade se tratar de um território negro, a maioria dos fotógrafos que apareciam em eventos eram brancos. Ele também cita que, quando começou a fotografar, gerou estranhamento em muitas pessoas ao seu redor.
Grande parte dos profissionais da fotografia que compareciam a essas feiras vendiam a Bahia como uma grande massa exótica. Hélio reforça a humanização presente no trabalho de Lázaro e brinca que “ele é como um HD ambulante, lembra o nome e ocupação de todos que registrou”.
“A fotografia me deu consciência racial”
Lázaro Roberto
“No momento que eu fotografava não tinha campo para mim”, aponta Lázaro sobre a ausência de espaço que encontrava em jornais e outros meios para seu trabalho. A partir dessa percepção surge a máxima “eu fotografo para o futuro”, que reforça o caráter documental de seu trabalho.

[Imagem: Lázaro Roberto: Zumví Arquivo Afro Fotográfico/Reprodução]
Hélio Menezes apontou que cada temática abordada na exposição — ou seja, cada conjunto de assuntos — poderia se transformar em uma própria mostra individual. O curador acredita que a exposição seja apenas um início para futuros trabalhos mais aprofundados em cada assunto.
Continua apontando o trabalho textual feito por trás de cada fotografia. A apresentação do contexto trazido a cada obra exposta é essencial para humanizar as pessoas retratadas, o que o co-fundador do Zumví já fazia há tempos, mas resguardava principalmente em sua memória. “Se Lázaro fotografava para o futuro, acredito que parte desse futuro está acontecendo agora”, conclui Hélio.
*Imagem de capa: Reprodução/ Lázaro Roberto: Zumví Arquivo Afro Fotográfico (modelos: Paulo Henrique e Miguel Oliveira; Salvador; 1994; Fotografia em preto e branco/negativo)
