Por Kaylaine Farias (kaylainemdsf@usp.br)
No Brasil, é celebrado anualmente, em 11 de abril, o Dia da Escola de Samba. Apesar de pouco conhecido, o dia é reservado para prestigiar as entidades responsáveis por concentrar os foliões e distribuir sons, cores e muita euforia pelas cidades brasileiras durante o Carnaval. Criada por tradição cultural entre sambistas, a data foi escolhida em homenagem à fundação do bloco carnavalesco “Ouro sobre Azul”, em 1923, que mais tarde viria a originar a Portela.
O Grêmio Recreativo Escola de Samba Portela é uma das mais antigas e tradicionais escolas de samba nacionais e sua história remonta ao início dos anos 1900, época em que o samba ainda enfrentava preconceito e era praticado principalmente em comunidades periféricas. O surgimento da escola está ligado à criação do bloco carnavalesco Ouro sobre Azul, fundado por Paulo da Portela, ao lado de outros integrantes da comunidade local. O grupo organizava seus desfiles com composições autorais e figurinos coordenados, com uma celebração autêntica e animada do carnaval.
Em 1929, o bloco foi reorganizado e passou a se chamar Conjunto Carnavalesco Oswaldo Cruz, o que ampliou sua atuação e a presença cultural na região. Alguns anos depois, em 1935, adotou oficialmente o nome Grêmio Recreativo Escola de Samba Portela, inspirado na Estrada do Portela, área habitada por uma parte significativa de seus integrantes. Nas décadas seguintes, a escola se destacou por contribuir para a organização dos desfiles carnavalescos e ajudou a consolidar aspectos que mais tarde se tornariam marcas registradas das escolas de samba, como o uso de sambas-enredo, a divisão em alas e a valorização de temas ligados à cultura popular brasileira.
Com o passar dos anos, a Portela acumulou diversos títulos no Carnaval do Rio de Janeiro e foi reconhecida como uma das maiores campeãs da história da competição. Suas cores azul e branco e o símbolo da águia tornaram-se marcas conhecidas nacionalmente, representatividade da força e a continuidade de uma das manifestações culturais mais importantes do país. A agremiação também revelou importantes nomes do samba, como Clara Nunes e Paulinho da Viola, e tornou-se referência na preservação das tradições culturais do gênero musical.

[Imagem: Reprodução/Acervo G.R.E.S. Portela – Galeria]
Surgimento das escolas de samba
As escolas de samba surgiram no Brasil no início do século 20, a partir da organização de grupos populares que buscavam utilizar o samba como forma de manifestação cultural durante o carnaval. Esses grupos, em sua maioria, se constituíam em regiões periféricas, compostos por trabalhadores, músicos e moradores locais que utilizavam a música e a dança como formas de expressão e identidade coletiva. Com o passar dos anos, as escolas passaram a se estruturar de forma mais organizada, com a incorporação de elementos que hoje fazem parte dos desfiles, como o samba-enredo, as alas temáticas e as fantasias padronizadas, que contribuíram para a transformação dos desfiles em grandes apresentações culturais.
A história das entidades carnavalescas no Brasil está diretamente ligada ao surgimento da Deixa Falar, considerada por muitos historiadores como a primeira escola de samba do país. Fundada em 1928 por Ismael Silva, no bairro do Estácio, no Rio de Janeiro, a Deixa Falar foi um marco na história do samba, pois introduziu mudanças importantes na maneira de desfilar e compor músicas carnavalescas, como o uso de ensaios organizados, divisão dos participantes e a criação de sambas específicos para apresentação durante o carnaval.
Por estar localizada próxima a uma escola de ensino público, o uso do termo “escola de samba” tornou-se frequente. Além disso, o fator geográfico também fazia com que os integrantes associassem a prática do samba à ideia de ensino, e se considerassem professores responsáveis por transmitir o ritmo aos participantes. A escolha do nome “Deixa Falar” visa refletir a resistência cultural dos sambistas diante do preconceito que o samba sofria naquele período.
Mais tarde, as mudanças adotadas pelo grupo se tornaram características fixas das escolas de samba. Embora tenha existido por poucos anos, a Deixa Falar ajudou a consolidar o modelo de desfile que se tornou tradição no carnaval brasileiro e, posteriormente, influenciou o surgimento de outras agremiações importantes.

A consolidação das escolas de samba também esteve diretamente ligada ao crescimento do carnaval urbano. No caso dos estados de São Paulo e Rio de Janeiro, os desfiles ganharam reconhecimento público e institucional ao longo do século das guerras, se tornaram um dos principais símbolos culturais do país e atraíram público nacional e internacional. Além dos desfiles, muitas dessas agremiações desenvolvem projetos sociais, atividades educativas e ações culturais ao longo do ano, que contribuem para a preservação da memória do samba e para o fortalecimento da identidade cultural brasileira.
“O estilo não dava para caminhar e dançar o samba. Eu comecei a notar que havia essa coisa. O samba era assim: ‘tan tan tantan tan tan tantan’. Não dava. Como é que um bloco andar na rua assim? Então nós começamos a fazer um samba assim: ‘bum bum poticubumprogurundum’.”
Ismael Silva, (FERNANDES, 2001, p. 47)
Relevância das sociedades carnavalescas
A comemoração também traz à tona uma reflexão acerca da importância destas agremiações para a consolidação da cultura brasileira. Mesmo diante de críticas acerca do uso de verbas públicas, da abordagem de temas polêmicos e religiosos, de vínculos com torcidas organizadas com clubes de futebol, etc., as escolas de samba resistem, fazendo o possível para preservar a cultura popular e desempenhando um papel que vai além do entretenimento.
Os grupos carnavalescos são fundamentais na sociedade brasileira, não apenas durante o carnaval, mas no decorrer do ano inteiro. O impacto econômico que tanto o carnaval quanto as escolas de samba exercem é notável e muito positivo. As escolas geram empregos diretos e indiretos com a constante preparação para o carnaval, a produção de fantasias e carros alegóricos, por exemplo, exige mão de obra específica. Com isso, há a constante contratação de carnavalescos, aderecistas, costureiras e marceneiros.
As instituições carnavalescas também atuam como produto turístico que incentiva a vinda de pessoas de diversos países ao Brasil, o que movimenta o setor hoteleiro e induz os visitantes ao consumo de itens característicos do carnaval, como fantasias, bebidas, adereços, etc. Segundo pesquisa liderada pelo Observatório do Turismo e divulgada pelo site oficial da Prefeitura de São Paulo, o carnaval de 2026 reuniu pouco mais de 17 milhões de pessoas nos blocos de rua e no Sambódromo do Anhembi, que resultou na uma movimentação de R$ 4 bilhões na economia da capital. Ao abordar somente as procissões das escolas de samba no Anhembi, cerca de 350 mil pessoas prestigiaram os ensaios e desfiles das 32 escolas dos grupos Especial, Acesso I e Acesso II, enquanto mais de 64 mil indivíduos passaram pela avenida.
“É como se dentro da avenida eu estivesse vivendo. E fora da avenida é como se eu estivesse sobrevivendo.”
Fábio Parra, diretor cultural do G.R.C.E.S da Mocidade Alegre

Além do âmbito econômico, as entidades também são peças cruciais para a preservação dos valores e costumes brasileiros, principalmente daqueles vindos de hábitos da população afrodescendente. Por meio de suas atividades culturais, como ensaios, desfiles e eventos comunitários, essas organizações mantêm vivas tradições ligadas à música, dança e religiosidade, ao transmitir conhecimentos entre gerações e fortalecer o sentimento de identidade coletiva. Assim, as escolas de samba se destacam não apenas como atração, mas também como centros de valorização histórica, que contribuem para a difusão de elementos culturais pertencentes à formação social do país.
Impactos sociais
Além de preservar legados geracionais, as escolas de samba também têm uma função social. Atuam como ambiente familiar e de construção de vínculos, seja por meio da organização de projetos sociais que atendam a população próxima e os membros da escola ou da popularização das quadras como local de lazer acessível. Elisabete Orsi, chefe da Ala Família da Morada, componente da escola de samba Mocidade Alegre, atual campeã do Carnaval de São Paulo, conheceu a escola de samba através da família.
Em entrevista ao Sala33, ela conta que teve grande influência de seu pai desde a infância, fator esse que a levou a ingressar na escola de samba em 1994 e passar por outras três alas antes de assumir a liderança da Família da Morada, onde atua até hoje. Além de frequentar e contribuir ativamente à Mocidade, ela também fez questão de transmitir essa paixão para seus filhos, passando o legado à frente. Elisabete também pontua a importância da convivência com os membros de sua ala, sua “família do samba”. “Meus coordenadores são meu braço direito, me apoiam e seguram minha mão”, ela comenta.
Vale também mencionar o teor educacional presente nas entrelinhas das escolas de samba. Em conversa com Daniel Batista Farias, chefe da ala Vem Como Pode, também setor da Mocidade Alegre, ele menciona a forma como os samba-enredos podem democratizar conhecimentos e conscientizar as pessoas sobre capítulos, características ou figuras da história brasileira. “A escola de samba apresenta histórias que a gente acaba nem conhecendo, então, imagina a importância que tem uma escola de samba se a gente olhar o desfile da maneira que ele conta uma história”, afirma Daniel.
“Escola de samba é uma elemento de identidade, pertencimento e permanência. Acredito que a gente não escolhe uma escola: é a escola que escolhe você”
Fábio Parra, diretor cultural do G.R.C.E.S da Mocidade Alegre
Fábio Parra, diretor cultural do G.R.C.E.S. Mocidade Alegre, define as escolas de samba como uma indústria arte-educativa multidisciplinar, que reúne saberes artísticos, literários e de outras diversas pautas. Parra ainda compartilha dicas para quem pretende ingressar em um grupo carnavalesco, mas não sabe por onde iniciar: “Não influencie sua escolha por resultados de concursos ou por trends do último carnaval. Pesquise a história da escola, sua produção musical, visual, a temática dos enredos através de sua história, o som de sua bateria, o tratamento dado aos componentes”.
