Por Letícia Longo (letlongo2006@usp.br)
Em Busca do Tempo Perdido é, no mínimo, complexo. Considerado um dos maiores romances de todos os tempos, o livro escrito por Marcel Proust tem 7 volumes e um de seus principais temas é a memória. Mais especificamente, a maneira como ela se manifesta involuntariamente, acionada por sensações, objetos e experiências cotidianas que fazem o passado emergir no presente. Ao longo da obra, Proust investiga como lembrança, tempo e percepção se entrelaçam na construção da identidade e na própria experiência de viver.
Proust: Pastiches, Palimpsestos e Misturas (2026), participante do Festival Internacional de Documentários “É Tudo Verdade”, é uma singular meditação sobre as possibilidades e impossibilidades de adaptar o livro de Proust para o cinema, mediante a tamanha complexidade dos temas da obra e as especificidades da linguagem da sétima arte. O curioso é que, a investigação se torna, intencionalmente ou não, uma espécie de adaptação da obra, o que dá mais força ainda ao filme.
O diretor do longa, Carlos Adriano, conhecido por seus trabalhos experimentais, como A Voz e o Vazio: A Vez de Vassourinha (1998), acredita, e prova que tem razão, não há maneira cinematográfica, se não a experimental, para analisar a obra de Proust. O filme-documentário-ensaio, assim, usa como metodologia de investigação as sobreposições imagéticas, textuais, musicais e artísticas. Verdadeiros palimpsestos, pastiches e misturas.
A fim de investigar a obra de Proust, o filme utiliza como metodologia o único registro em vídeo do autor. Na época, gravado objetivamente, não havia intenção artística ainda do audiovisual, o diretor Carlos Adriano ressignifica esse registro. Ele é mostrado de maneiras diferentes durante o filme. Com zoom, sem zoom, colorido, em câmera lenta, sobreposto por outras artes, nem percebemos que é o mesmo registro tamanha a mudança.

[Imagem: Reprodução/Biblioteca Nacional da França]
As brincadeiras com as diferentes possibilidades que a sétima arte pode trazer para uma nova obra articulam-se diretamente com a proposta central do longa de pensar a adaptação como reinvenção formal, o que acaba, também, dialogando com a própria lógica narrativa de Proust. Ao estruturar sua investigação por fragmentos e associações, Carlos Adriano não apenas discute a obra proustiana, mas faz com que o filme opere como ela, construindo sentido menos pela linearidade e mais pela justaposição de recortes, tal qual a memória em Em Busca do Tempo Perdido.
Apesar dos mais diversos tipos de mídia e arte utilizados, em um primeiro momento aparentemente aleatório, são justamente essas associações que constroem a lógica interna do filme. O uso de trechos de filmes desde Um Corpo que Cai (Vertigo, 1958) até Limite (1931) demonstra como Carlos Adriano busca evidenciar a permanência de determinadas ideias proustianas ao longo da história da arte e do cinema.
O uso de trechos de Um Corpo que Cai, por exemplo, beira o genial. Considerado por muitos o pioneiro do cinema moderno, um filme-teoria que apresentou a face do voyeurismo no cinema. Alguns críticos, inclusive, como Luiz Carlos de Oliveira Jr , acreditam que todo filme depois da obra magistral de Alfred Hitchcock tem sua influência, mesmo que indireta.
A escolha do longa por Carlos Adriano não parece arbitrária. A protagonista, Madeleine, compartilha seu nome com o célebre bolinho que, em Em Busca do Tempo Perdido, faz com que o protagonista seja transportado de volta à infância ao prová-lo. A associação proposta pelo documentário ensaia como talvez essas duas obras estejam mais ligadas do que é visto em um primeiro momento.
As sobreposições de textos, imagens e referências também se mostram fundamentais para a construção dessa proposta. A curadoria de obras mobilizada por Carlos Adriano, que vai de filmes internacionais a artigos de jornal, fotografias, livros e reflexões filosóficas, fortalece a sensação de que o longa busca mapear Proust e seus ecos ao longo da história da arte e do pensamento.
As justaposições de algumas reflexões escritas por pensadores, como Deleuze e Walter Benjamin, sobre Proust, entretanto, às vezes aparecem mais como sustentação das escolhas de direção de Carlos Adriano do que como aprofundamento crítico da obra proustiana em si. Felizmente, esse não é um problema constante, surgindo apenas em raras ocasiões durante o filme.
Proust: Palimpsestos, Pastiches e Misturas é uma investigação-adaptação com a qual todas deveriam aprender, independente do seu caráter experimental. Toda adaptação e toda investigação artística deveriam observar a audácia, a preocupação e a honra com que Carlos Adriano trata sua obra-base. Uma verdadeira compreensão de que a fidelidade às ideias, à linguagem e ao espírito daquilo que busca reinterpretar têm mais importância a uma reprodução exata do texto original.

Este filme fez parte do Festival Internacional de Documentários ‘É Tudo Verdade’. Para mais resenhas do festival, clique na tag no início do texto.
