Por Lucas Miranda (lucasmirandaf@usp.br) uruguai
Primeiro campeão da Copa do Mundo, o Uruguai chega à América do Norte com a ambição de conquistar o tão sonhado tricampeonato. Este será o primeiro Mundial desde 2010 em que a Celeste não contará com os craques Luis Suárez e Edinson Cavani, que se aposentaram da seleção em 2024. Em busca de reencontrar seu lugar entre as melhores seleções do mundo, a nova geração uruguaia estreia no dia 15 de junho, às 19h (BRT), diante da Arábia Saudita.
Trajetória recente
Após decepcionar no Catar e ser eliminado ainda na fase de grupos da última Copa, o Uruguai demitiu seu antigo treinador, Diego Alonso, e o argentino Marcelo Bielsa assumiu o comando da Celeste em maio de 2023. Desde então, o técnico dirigiu a seleção em 35 partidas, com 15 vitórias, 13 empates e sete derrotas.

Conhecido como “El Loco”, Bielsa ganhou fama pela personalidade intensa e por episódios excêntricos ao longo da carreira [Imagem: Reprodução/X/@Uruguay]
Sob o comando de Bielsa, a Seleção Uruguaia terminou a fase de grupos da Copa América de 2024 na liderança de sua chave. Nas quartas de final, eliminou o Brasil nos pênaltis após empate sem gols no tempo regulamentar. A campanha terminou com a terceira colocação, após derrota para a Colômbia na semifinal e vitória nos pênaltis sobre o Canadá na disputa pelo terceiro lugar. Nas Eliminatórias Sul-Americanas para a Copa, o Uruguai garantiu a classificação em quarto lugar — atrás de Argentina, Equador e Colômbia, mas à frente do Brasil, que terminou na quinta colocação.
No entanto, ainda no final de 2024, diversos jogadores da seleção — dentre eles Luis Suárez e Frederico Valverde — manifestaram-se publicamente e relataram problemas de relacionamento com o técnico argentino. A sequência de resultados negativos no período, como a derrota por 5 a 1 para os Estados Unidos em novembro de 2025, também desgastou a imagem de Bielsa. Apesar dos problemas internos e da pressão da torcida, o treinador conseguiu se manter no cargo para a Copa.

Reconhecido pela influência sobre técnicos como Guardiola, Klopp e Simeone, Bielsa tenta conduzir o Uruguai a uma campanha de destaque no Mundial [Imagem: Reprodução/X/@Uruguay]
O Uruguai em Copas
Antes da criação da Copa do Mundo, as Olimpíadas eram o principal torneio internacional entre seleções. O futebol foi incorporado aos Jogos pela primeira vez em 1924. Naquela edição, o Uruguai sagrou-se campeão após golear a Suíça por 3 a 0 na decisão. Quatro anos depois, nas Olimpíadas de 1928, a Celeste empatou por 1 a 1 na final contra a Argentina. Para definir o título, foi realizada uma segunda partida, na qual o Uruguai voltou ao lugar mais alto do pódio após vitória por 2 a 1.
Com a consolidação do futebol no cenário internacional e a criação da Copa do Mundo, a primeira edição do novo formato foi realizada em 1930, no Uruguai. Na decisão, os anfitriões reencontraram a Argentina e venceram de virada por 4 a 2. A Celeste conquistou seu segundo Mundial vinte anos depois, desta vez sobre o Brasil. Na final disputada no Maracanã, a Seleção Uruguaia voltou a sair atrás no placar, mas virou para 2 a 1 e conquistou sua segunda taça. Além dos dois títulos, o Uruguai também alcançou o quarto lugar em três edições: 1954, 1970 e 2010.

Seleção Uruguaia de 1930. A Celeste exibe quatro estrelas em seu escudo em referência aos títulos olímpicos de 1924 e 1928 e às Copas do Mundo de 1930 e 1950 [Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons]
Convocação final
Bielsa divulgou, no dia 31 de maio, a lista com os 26 jogadores que representarão o Uruguai na Copa do Mundo. Os convocados foram:
Goleiros:
- Sergio Rochet (Internacional, BRA)
- Fernando Muslera (Estudiantes, ARG)
- Santiago Mele (Monterrey, MEX)
Defensores:
- Guillermo Varela (Flamengo, BRA)
- Ronald Araújo (Barcelona, ESP)
- José María Giménez (Atlético de Madrid, ESP)
- Santiago Bueno (Wolverhampton, ING)
- Sebastián Cáceres (América, MEX)
- Mathías Olivera (Napoli, ITA)
- Joaquín Piquerez (Palmeiras, BRA)
- Matías Viña (River Plate, ARG)
Meio-campistas:
- Manuel Ugarte (Manchester United, ING)
- Emiliano Martínez (Palmeiras, BRA)
- Rodrigo Bentancur (Tottenham, ING)
- Federico Valverde (Real Madrid, ESP)
- Agustín Canobbio (Fluminense, BRA)
- Juan Manuel Sanabria (Real Salt Lake, EUA)
- Giorgian De Arrascaeta (Flamengo, BRA)
- Nicolás de la Cruz (Flamengo, BRA)
- Rodrigo Zalazar (Sporting, POR)
- Facundo Pellistri (Panathinaikos, GRE)
- Maximiliano Araújo (Sporting, POR)
- Brian Rodríguez (América, MEX)
Atacantes:
- Rodrigo Aguirre (Tigres, MEX)
- Federico Viñas (Oviedo, ESP)
- Darwin Núñez (Al Hilal, SAU)
Estilo de jogo do Uruguai
A Celeste costuma atuar em um esquema 4-2-3-1, que pode sofrer variações, visto que o treinador adapta o estilo de jogo conforme o adversário. Na defesa, os uruguaios marcam de forma intensa e pressionam para recuperar a bola logo após a perda da posse. Entretanto, a agressividade na marcação muitas vezes resulta em excesso de faltas e prejudica o ritmo da partida, como ocorreu no confronto entre Brasil e Uruguai pela Copa América de 2024.

A formação-base da Celeste combina dois volantes de sustentação com três meias de maior mobilidade atrás do centroavante [Arte: Lucas Miranda/buildlineup.com]
A intensidade sem a bola também influencia diretamente o estilo ofensivo da equipe, já que o Uruguai procura acelerar os ataques assim que recupera a posse, com passes verticais e movimentações rápidas dos pontas para desmontar a defesa adversária.
Nesse contexto, Valverde é, indiscutivelmente, o principal jogador da seleção. O meio-campista do Real Madrid é capaz de exercer diferentes funções, com participação importante na marcação, na construção das jogadas e nas infiltrações na área para finalizar. O acúmulo de responsabilidades, entretanto, muitas vezes o deixa sobrecarregado e ajuda a explicar porque o jogador não consegue repetir na Celeste o mesmo nível de atuações apresentado no clube espanhol.

Esta será a segunda Copa do Mundo de Valverde, que soma nove gols em 73 partidas pela Seleção Uruguaia [Imagem: Reprodução/X/@Uruguay]
Os rápidos pontas do Uruguai também exercem papel fundamental na equipe, tanto ofensivamente — ao acelerar jogadas, gerar dribles e abrir espaços na defesa adversária — quanto defensivamente. É comum que esses jogadores acompanhem os laterais rivais quando eles avançam ao ataque, o que permite aos laterais uruguaios pressionar meias e pontas adversários em zonas mais interiores do campo.

Bielsa é conhecido por exigir intensa participação defensiva de seus atacantes e pontas [Arte: Lucas Miranda/buildlineup.com]
Assim, a Seleção Uruguaia combina uma linha defensiva agressiva com marcações individuais intensas, modelo que promete confrontos físicos fortes, pressão constante e pouco espaço para construção de jogadas pelos adversários.
Expectativas para 2026
A Celeste desembarca nos Estados Unidos com a esperança de surpreender os favoritos. No entanto, não terá caminho fácil pela frente — na fase de grupos, a seleção enfrentará Arábia Saudita, Cabo Verde e Espanha. O duelo contra os espanhóis é um dos mais aguardados da primeira fase da competição, e uma eventual eliminação ainda na fase de grupos, assim como ocorreu em 2022, seria considerada um vexame para o país.
Apesar do ambiente conturbado e das dúvidas em torno do trabalho de Bielsa, o Uruguai chega ao Mundial apoiado em uma tradição que costuma crescer em grandes torneios. Entre pressão, intensidade e desconfiança, a Celeste tenta provar que ainda pertence ao grupo das seleções capazes de brigar pelo título.
*Imagem de capa: Reprodução/X/@Uruguay
