Por Grazielli Costa (grazielli.hcosta@usp.br)
Na sexta-feira (05), mais um dia d’A Feira do Livro de São Paulo aconteceu. Na praça Charles Miller, no Pacaembu, os visitantes tiveram acesso a estandes de editoras, praças de alimentação e mesas de discussão conduzidas por especialistas sobre os mais diversos temas: literatura, política, sociologia, maternidade, cultura afro-brasileira, educação, cinema e meio ambiente.
Em “A Amazônia e o Antropoceno”, mesa do eixo Meio Ambiente, a mediadora e jornalista Alexandra Ozorio de Almeida guiou a conversa entre o economista Ricardo Abramovay e o ambientalista Luiz Villares no Auditório Armando Nogueira, dentro do Museu do Futebol.
Quando os interesses da economia e a natureza se encontram

Abramovay iniciou sua conexão com a floresta amazônica em 2017, ao atuar na parte socioeconômica de um processo de litigância climática que responsabilizava o Governo brasileiro por sua insuficiente atuação na proteção da Amazônia. O projeto não avançou, mas resultou no livro Amazônia: por uma economia do conhecimento da natureza (Elefante, 2019), que lhe rendeu um convite da rede de organizações socioambientais GT Infraestrutura para escrever a obra Infraestrutura para o desenvolvimento sustentável da Amazônia (Elefante, 2022).
Villares conta que já na escola era encantado pela geografia, porém foi depois dos 30 anos, no final da década de 1990, que ele decidiu unir propósito e remuneração em sua carreira. Luiz estudou temas como a Agenda 21 e tornou-se ambientalista no litoral norte de São Paulo com a própria ONG. Nesse contexto, ele foi convidado a trabalhar na Amigos da Terra – Amazônia Brasileira, na qual foi gerente de um projeto de identificação de comunidades produtoras e de incentivo à preservação da floresta com justificativas de vantagem econômica, era o começo da bioeconomia.
Na bioeconomia, ou movimento Floresta em Pé, o sucesso só é obtido se, além da preservação ambiental, houver geração de renda para as comunidades locais, boa saúde e educação em seu território, preservação da cultura e associativismo.
“As tecnologias são incríveis. A questão é: como que, economicamente,
a gente traz essa possibilidade de que o que não é fóssil tenha valor econômico
e traga a tal da rentabilidade necessária para qualquer investimento.”
Luiz Villares, ambientalista
Para Ricardo Abramovay, bioeconomia é a economia da vida. No caso da Amazônia, essa definição é mais literal, já que os rios voadores formados pela umidade da floresta são responsáveis por grande parte das chuvas do Brasil, as quais fornecem água para consumo, plantações e hidrelétricas.
A política que cobre a Floresta
“A mais importante infraestrutura do Brasil é a Floresta Amazônica.”
Ricardo Abramovay, economista
Os especialistas da mesa entendem que a geopolítica recente trata os elementos essenciais dos ecossistemas, como água, biodiversidade e clima como infraestrutura. Nesse contexto, o Brasil constrói uma relação de extrativismo e transformação primária com seu ecossistema. Ainda há a concepção firmada durante a Ditadura Militar de que melhorar a agricultura significa melhorar sementes, o que, em um território dominado por monoculturas, de milho ou soja, favorece o uso intensivo de agrotóxicos. No século XXI, essa relação com a natureza passou a enfrentar restrições de mercado, como a Moratória da Soja, no qual grandes compradores se comprometem a não adquirir a commodity de áreas recentemente desmatadas, apesar das alegações de ferimento à livre concorrência.
“A política é o que decide o presente e o futuro. E a política da Amazônia é retrógrada”, afirma Villares. A maioria do parlamento da região amazônica é adepta ao liberalismo econômico, propiciando um cenário de aumento do garimpo, da dependência de estradas e do desmatamento. Essa campanha político-social se mantém firme graças à diferença na obtenção de resultados: a exploração gera mais recursos em menos tempo, como explicado por Abramovay em resposta a uma das perguntas da plateia.

Em uma tentativa de orientar a população da Amazônia, o ambientalista explora o conceito de “bem-viver”, que significa ter atendidas todas as necessidades básicas da população. No interior do Amazonas, por exemplo, o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) é pouco superior que 0,450 (em uma escala que vai até 1,000), de acordo com a Fundação João Pinheiro (FJP), em parceria com o PNUD e o Ipea. Já Pará e Rondônia enfrentam o crescimento da informalidade, enquanto a violência na região é impulsionada pelas práticas ilegais de exploração. Diante desse cenário, a bioeconomia é apresentada como um caminho para promover o bem-viver na região.
A situação da Amazônia é uma não-ficção
No festival no qual a Associação Quatro Cinco Um, ONG de difusão de livros, a Maré Produções Culturais e o Ministério da Cultura são parceiros, foi propício discutir sobre as obras dos convidados.
O livro de Villares, por exemplo, traz o título Ecos do Antropoceno (Casa Matinas, 2026). Antropoceno, embora ainda não oficializado como uma nova Era geológica, nomeia o período em que a ação humana causa danos irreversíveis à Terra. O conceito está cada vez mais aceito na acadêmia.

O autor acredita que a coevolução homem-natureza pode ser alcançada por dois caminhos: o do sofrimento ou o da transição econômica urgente. A primeira e, para Luiz, a mais provável, se apoia no impacto que a vida humana sentirá quando as mudanças climáticas fizerem dos ecossistemas visíveis e invisíveis sistemas disfuncionais. Essa situação poderia proporcionar o entendimento de que o ser humano está no mesmo nível do meio ambiente, e não acima dele. O segundo caminho é o resultado favorável da transição da economia de base fóssil para a bioeconomia.
Ecos do Antropoceno (Casa Matinas, 2026) é um livro imperecível: feito sob demanda para que não haja devolução e, consequentemente, produção de lixo.
[Imagem de Capa: Thaiza Souza/Jornalismo Júnior]
