Jornalismo Júnior

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II Semana do Audiovisual | Dia 2: Fotojornalismo em tempos de disputas de narrativas

Encontro com fotojornalistas ocorreu na última quarta-feira, 10/06, no Auditório Freitas Nobre da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP)

Por Manuela Neves Miranda (manuelanevesmiranda@usp.br)

No segundo dia da Semana do Audiovisual, realizada pela Jornalismo Júnior, os convidados da mesa debateram o papel da fotografia no jornalismo contemporâneo, os usos da inteligência artificial, as diferenças entre veículos brasileiros e estrangeiros e a ética no fotojornalismo. A conversa foi mediada por Lucas Miranda.

Karime Xavier trabalha como fotógrafa na Folha de S.Paulo há 21 anos e é nacionalmente reconhecida por seus registros — em 2022, venceu o Prêmio Folha com sua reportagem sobre pobreza menstrual. Lucas Ettore atua como fotojornalista na Associated Press em São Paulo e realiza coberturas como freelancer, com ênfase no esporte. Victor Moriyama é colaborador do New York Times, finalista do Prêmio Pulitzer de Reportagem Internacional e tem como foco principal pautas ambientais.

Fotojornalismo na contemporaneidade 

Questionados sobre a influência atual do fotojornalismo, os participantes trouxeram perspectivas distintas. Para Victor, a sociedade carece tanto de uma cultura de leitura crítica de imagens quanto do hábito de desenvolvê-la. Ele aponta que a saturação de temas cruéis na mídia provoca um afastamento do público: “Temos duas ou três grandes guerras acontecendo agora; o planeta está aquecendo; as pessoas estão consumindo só desgraça e tragédia.”

Victor acredita que o fotojornalismo esteja passando por uma transformação em busca de novos ângulos — menos pessimistas [Imagem: Loren Tangi/Jornalismo Júnior]

Karime afirma que a foto legitima o texto do repórter, mas pondera: “dependendo da foto, não precisa nem de texto”. Lucas observa que a fotografia hoje é muito imediatista e que isso impõe uma sensação de fatalidade a quem a consome. “É o imediatismo, [a ideia] de que o mundo está acabando. E não.” Para ele, a mídia instrumentaliza o medo para lucrar.

Karime diz que não se considera fotojornalista porque não se identifica com a ‘correria’ da profissão: ‘Eu me considero retratista e ensaísta. Sou mais da contemplação.’ [Imagem: Loren Tangi/Jornalismo Júnior]

O uso da inteligência artificial

Sobre o uso da IA, os três convergem: a construção de repertório — por meio da leitura, do consumo de jornais, filmes e música — é uma das principais ferramentas para identificar imagens adulteradas.

“A IA é tosca”
Karime Xavier, fotógrafa na Folha de S.Paulo

Lucas explica que imagens geradas por prompt buscam a perfeição e, por isso, são lisas, sem poros. Ao fotografar com uma câmera, “você percebe que isso não existe”, afirma.

Para Lucas, a combinação entre imediatismo digital, falta de repertório e inteligência artificial cria o cenário ideal para enganar as pessoas [Imagem: Loren Tangi/Jornalismo Júnior]

Dilemas éticos

Karime situa a ética como uma questão central da profissão. Ela afirma que o jornalismo expõe o profissional à realidade e que aquilo que o fotógrafo decide registrar depende, em grande medida, do seu repertório individual. Para Victor, o desafio está em mostrar assuntos sensíveis com o mínimo de exposição possível — e as construções visuais abstratas que a fotografia permite são uma alternativa viável para garantir essa preservação. Karime menciona ainda uma forma de militância presente em seu trabalho: retratar mulheres da melhor maneira possível. “Quando é mulher, eu deixo ela mais poderosa”, diz. Os três também contaram episódios em que optaram por abrir mão da cobertura fotográfica para não expor as pessoas envolvidas.

Outras experiências

Os participantes descreveram passagens específicas de suas trajetórias. Karime falou sobre a experiência de fotografar mulheres na Ilha do Marajó. Victor destacou o privilégio de sair da zona de conforto e lidar com pessoas diversas, e reforçou a importância de acreditar no poder do jornalismo para impulsionar políticas públicas. Lucas explicou como funcionam as coberturas de hard news e de esporte — para ele, contar toda a história de uma partida exige atenção às reações da torcida, aos jogadores e ao ritmo da disputa.

Ao fim do evento, o público pôde fazer perguntas e participar da conversa [Imagem: Loren Tangi/Jornalismo Júnior]

Lucas e Victor ainda comentaram as diferenças entre trabalhar para veículos brasileiros e estrangeiros. Victor destacou que grandes organizações como Associated Press, The Washington Post e New York Times mantêm uma curadoria rigorosa sobre o material submetido a prêmios internacionais. Sobre o Pulitzer, classifica: “É uma coisa totalmente americanizada.”

O evento contou com os seguintes apoios: Academia Internacional de Cinema, Copy Set Gráfica, Editora Olhavê, Editora Polytheama, Lepok Papelaria, Padaria Vipão, Phantastika, Rádio Novelo, Reserva Cultural e Summus Editorial.

Imagem da capa: Loren Tangi/Jornalismo Júnior


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