Por Isabela Gonçalves (isabelagds@usp.br), João Paulo Mansur (joaopaulomansur@usp.br) e Nina M. Bozic (ninamilibo@usp.br)
Na última segunda-feira (8), a Organização das Nações Unidas (ONU) divulgou a Terceira Avaliação Global dos Oceanos (WOA-3), relatório sobre a situação global de preservação dos oceanos. Segundo o documento, a saúde dos mares está piorando de maneira alarmante e crescente. O secretário geral da ONU, António Guterres, pede à humanidade que não trate o ecossistema marítimo como um recurso ilimitado, pois ele está em apuros.
O estudo foi elaborado ao longo de cinco anos e conta com 25 autores, incluindo Maria João Bebianno, pesquisadora portuguesa, e o professor brasileiro Ronaldo Christofoletti, ligado à Unifesp. Em entrevista à Jornalismo Júnior, o docente explicou o processo de pesquisa feito até chegar em tais resultados, ressaltando ser um procedimento de longa extensão — com pessoas de diversas nacionalidades e identidades. Para ele, os resultados são “tristes, mas não surpreendentes”.
O relatório mostra que a taxa de aumento do nível do mar cresceu mais de 50% em relação ao último estudo. O número, que atingia em média 3,2 milímetros por ano, chegou a 4,3 milímetros. Christofoletti explica que o degelo nas regiões do Ártico e da Antártica introduz mais água nos mares, o que desregula a relação do oceano com a atmosfera. Isso altera as frentes frias, as chuvas no Brasil e impacta as cidades litorâneas.

Além do aumento do nível do mar, outros fatores também preocupam os cientistas. O estudo aponta que o número de espécies afetadas pelo plástico cresceu em relação ao estudo anterior, ao saltar de 1,4 mil para mais de 4 mil espécies atingidas. Outro problema, envolvendo o descarte indevido de resíduos, foi abordado no relatório. De acordo com a pesquisadora Maria João Bebianno, foi registrada uma concentração maior de antibióticos no oceano.
“Isso faz com que surjam espécies de bactérias e genes resistentes no mar — é alarmante. Precisamos recuperar a saúde do oceano para, assim, recuperarmos a saúde humana.”
Maria João Bebianno, professora na Universidade do Algarve
A especialista ainda ressalta que existem perigos invisíveis, como a acidificação e o aquecimento do nível do mar, que eleva o nível das águas por expansão térmica. O processo de acidificação ocorre como consequência da alta quantidade de CO₂ liberado pelos humanos nos últimos 30 anos. O mar absorve dióxido de carbono da atmosfera naturalmente, mas, com o aumento da liberação do gás, essa absorção também cresce. Após reações químicas, a concentração de íons H⁺ também se eleva, reduzindo o pH da água.
Oceano mais vulnerável
A acidificação dos oceanos já possui efeitos no ecossistema, principalmente em ostras e corais. Devido à alta concentração de H⁺, os íons carbonato (CO32-) — que se unem ao cálcio para formar os esqueletos e cascas desses organismos — reagem com o hidrogênio, o que reduz a concentração de carbonato no ambiente e, como consequência, enfraquece as estruturas de proteção deles. Além disso, a queda do pH causada pela acidificação pode levar à dissolução de conchas e esqueletos de animais marinhos.

Com as alterações ocorridas nas populações de espécies e na temperatura da água, ciclos naturais também são afetados. Relações consolidadas entre organismos e o ambiente são transformadas de forma drástica, o que desregula a cadeia ligada a elas. Assim, o equilíbrio do bioma marinho é rompido, o que o fragiliza, junto dos processos naturais e humanos dependentes dele. Ronaldo Christofoletti avalia que “esse processo prejudica a economia, a produção de alimentos e populações necessitadas dos recursos oceânicos, além de agravar a crise ecológica”.
O aumento do nível dos mares — que ocorre pelo derretimento das geleiras — já tem revelado grandes impactos nas regiões costeiras. Bebianno explica que diversas praias estão perdendo sua costa para o oceano. Isso afeta a economia de países que lucram com o turismo costeiro e agrava a crise em múltiplas dimensões. A pesquisadora aponta que a tendência é que esse fenômeno se intensifique cada vez mais.
O Brasil no relatório
O Brasil foi o terceiro país com maior número de autores envolvidos no WOA-3, ficando atrás apenas dos Estados Unidos e do Reino Unido. Segundo o professor brasileiro, esse é um marco importante para o posicionamento do país como liderança internacional na conservação e no estudo do oceano. O pesquisador destaca programas governamentais de suporte ambiental, apontando o ProManguezal e o Planejamento Espacial Marítimo (PEM) como símbolos do comprometimento do país com a proteção dos oceanos.
Ele também enfatiza o pioneirismo brasileiro no projeto Currículo Azul, da UNESCO. O protocolo visa a inclusão da cultura oceânica em currículos escolares como uma forma de estimular o respeito e o entendimento de alunos com o meio marinho. O Brasil foi o primeiro país a implementar o programa em suas escolas federais, o que o tornou uma referência mundial na modalidade.
O país, por ter uma costa extensa, pode sofrer graves consequências com a crise apontada pelo relatório. Mudanças de correntes marinhas e migrações inesperadas de populações animais afetam a pesca e a coleta de recursos, o que não somente prejudica a economia como também todos os que dependem dela. Além disso, com o aumento dos níveis do mar, cidades litorâneas se tornam ameaçadas, correndo o risco de sofrerem com enchentes ou mesmo se tornarem inabitáveis.
O documento revela que a degradação oceânica brasileira ocorre principalmente devido à falta de saneamento, a resíduos urbanos e à poluição e contaminação de regiões costeiras e corpos d’água.

Como lidar com a crise
Apesar da gravidade apontada pelo relatório, o documento deixa claro que ainda há o que ser feito para amenizar os danos. Destacam-se a necessidade de apoio à ciência e de cooperação internacional na conservação oceânica.
O WOA-3 foi o primeiro do tipo a ter uma seção voltada exclusivamente à governança oceânica internacional. Essa porção do texto prioriza a coordenação entre diferentes setores e a comunidade científica para lidarem em conjunto com a crise — em escala regional ou global. A pesquisa incentiva, assim, a mobilização em busca de soluções concretas e colaborativas para a questão.

Ronaldo defende que a situação atual não pode ser totalmente revertida, mas remediada. Ele explica que a diminuição das taxas de degradação deve ser a prioridade para que os efeitos da crise sejam minimizados e ocorram em menor intensidade. Para o professor, essas mudanças devem partir de agentes governamentais e sociais: “A resolução só será possível através de políticas públicas e de uma sociedade com cultura oceânica, em que cada um entenda o impacto de suas ações.”
“É possível ter esperança, mas não reverter a situação”
Ronaldo Christofoletti, pesquisador na Unifesp
*Imagem de capa: Reprodução/Pexels
