Por Hellen Rodrigues (helliv7@usp.br), Lais Fernandes (laisfernandes@usp.br) e Lucas Miranda (lucasmirandaf@usp.br) 1986
A Copa do Mundo de 1986, realizada no México, foi o décimo terceiro Mundial da Fifa. A Seleção Brasileira chegava à competição como o único país a participar de todas as edições do torneio — status que mantém até hoje. No início das Eliminatórias para a Copa, Evaristo de Macedo era o treinador à frente da Amarelinha, mas, após resultados e atuações instáveis, foi substituído por Telê Santana, que voltava ao comando da Seleção pela segunda vez em sua carreira.

Sócrates, Telê Santana e Zico em 1982. Bicampeão mundial pelo São Paulo, Telê é considerado um dos maiores treinadores da história do futebol brasileiro [Imagem: Reprodução/X/@futnostalgico]
Telê dirigiu o Brasil na Copa de 1982, ano em que o país terminou na quinta colocação após ser derrotado pela Itália. Três anos depois, retornou ao cargo com a missão de comandar a Seleção na edição seguinte do Mundial. A classificação para o torneio ocorreu sem dificuldades, e o Brasil desembarcou no México com o sonho de conquistar o tetra.
Durante a competição, a Seleção sofreu com lesões e problemas físicos de jogadores importantes: Toninho Cerezo teve que ser cortado, Zico e Falcão não tinham condições de ser titulares e Júnior e Sócrates também não estavam bem fisicamente. Além disso, Renato Gaúcho, que chegou a ser convocado, foi cortado do grupo pelo técnico antes do embarque para o México por indisciplina.
A estreia da Amarelinha no Mundial ficou abaixo das expectativas. A vitória por 1 a 0 sobre a Espanha, com gol de cabeça de Sócrates, foi marcada por uma polêmica de arbitragem: um gol legítimo do espanhol Míchel bateu no travessão, entrou e não foi validado pelo árbitro.
A segunda partida, na qual o Brasil derrotou a Argélia pelo placar mínimo, foi mais uma atuação sem brilho. O gol da vitória foi marcado pelo centroavante Careca após uma falha da defesa argelina. Apesar dos bons resultados, a torcida cobrava o futebol bonito apresentado na Copa de 1982.
A vitória por 3 a 0 sobre a Irlanda do Norte no último jogo da fase de grupos melhorou os ânimos e deu a confiança necessária para a equipe seguir no torneio. Nas oitavas de final, o triunfo por 4 a 0 sobre a Polônia encheu o país de otimismo.
Nas quartas, na partida disputada contra a França, o Brasil abriu o placar aos 17’ do primeiro tempo com um gol de Careca. Michel Platini empatou para os franceses ainda antes do intervalo, aos 40’. No segundo tempo, Zico entrou em campo e logo encontrou um passe em profundidade para Branco, que foi derrubado pelo goleiro francês. O juiz assinalou pênalti e, na cobrança, Zico bateu e o goleiro defendeu. A partida foi para a prorrogação, mas o empate em 1 a 1 se manteve.
Na disputa por pênaltis, após o chute de Sócrates ser defendido e a cobrança de Júlio César acertar a trave, o Brasil acabou derrotado por 4 a 3 e foi eliminado da competição.
Em entrevista ao Arquibancada, o torcedor Celso Ramos afirma que existia grande expectativa para aquela Copa, embora a Seleção não fosse tão boa quanto a de 82. “A eliminação diante da França, com o agravante do pênalti perdido pelo Zico, foi uma decepção muito grande”, relata.

Dos titulares da Seleção de 1982, oito voltaram a disputar a Copa do Mundo de 1986 [Imagem: Reprodução/X/@felipesilva_dg]
Do encanto à reformulação: entre 1982 e 1986
As expectativas em torno da Seleção Brasileira de 1986 eram uma herança direta das frustrações e dos sonhos não concretizados quatro anos antes. Considerada uma das melhores equipes da história das Copas do Mundo, a Seleção Brasileira de 1982 ficou eternizada pela qualidade de seu futebol, mas também pela decepção de não transformar o potencial em título.
Comandada por Telê Santana e repleta de craques, a geração de 82 tornou-se o principal símbolo do chamado “futebol-arte” — filosofia de jogo baseada na criatividade, técnica aguçada e, acima de tudo, no espetáculo em campo. Porém, apesar dessas qualidades, a Seleção foi eliminada para a Itália, o que abalou as expectativas na equipe e desencadeou um intenso debate sobre a eficácia daquele modelo.
Em entrevista ao Arquibancada, o jornalista Guilherme Gomes — integrante da equipe fundadora do canal esportivo LANCE! — afirma que a derrota na Copa de 82 motivou uma batalha teórica no Brasil. “Eu digo isso como imprensa e também como parte da população: de que adianta jogar bonito e não ganhar? É melhor ser mais eficiente”, aponta. O resultado foi a busca por uma reformulação na equipe brasileira para o ciclo seguinte da competição.
Sem abandonar completamente a proposta ofensiva de Telê Santana, a comissão técnica passou a valorizar um maior equilíbrio entre talento e eficiência, além de buscar jogadores com características mais voltadas à marcação e ao trabalho coletivo. Segundo Guilherme, esse perfil ficou representado pelos chamados “operários”, atletas cuja principal função era oferecer sustentação tática à equipe.
A partir dessa nova filosofia, o meio campo, por exemplo, deixou de contar com a dupla Falcão e Cerezo — reconhecida pela capacidade criativa — e passou a apostar em jogadores como Elzo e Alemão, de perfil mais combativo. Para o jornalista, Elzo foi a personificação dessa transformação. “Era um cara muito discreto, só que se dedicava muito, com muita garra. Mas não era craque. Não era um jogador, digamos, de seleção, mas ele foi convocado e foi titular em todos os jogos.”, comenta.

Elzo enfrentou uma forte concorrência na posição durante sua carreira na Seleção, quando disputava espaço com nomes como Andrade, Toninho Cerezo e Falcão [Imagem: Reprodução/Instagram/@elzooficalbr]
Mesmo com a reformulação, a nova Seleção manteve mais da metade dos titulares de 1982 e o resultado foi semelhante à edição anterior. Com uma campanha sólida, embora sem o apelo estético da Copa de 82, a Seleção Brasileira foi eliminada novamente nas quartas de final, agora diante da França. Mas apesar dos resultados parecidos, o legado de cada edição foi muito distinto.
Em entrevista ao Arquibancada, o torcedor Celso Ramos afirma que a decepção em relação à derrota de 1982 foi incomparavelmente maior: “A seleção de 1982 tinha um futebol tão bonito que parecia merecer ganhar a Copa do Mundo”. A eliminação não apagou a imagem construída em torno daquela equipe, cuja memória permaneceu associada ao futebol vistoso, ao desempenho coletivo e ao potencial imensurável daquela geração.
Já em relação a 1986, o cenário é um pouco mais pessimista. Marcada pela dramaticidade de uma eliminação nas penalidades, a memória dessa edição foi conduzida em torno deste acontecimento. Diferentemente do protagonismo coletivo do Mundial anterior e sem um estilo de jogo chamativo, a Seleção de 1986 foi majoritariamente rotulada por um único episódio: o pênalti perdido por Zico.
Zico e a Copa que faltou
Apesar de ser o principal nome da Seleção Brasileira em 1986, Zico não chegou para a disputa no México da maneira esperada. Um ano antes, em 1985, o ídolo rubro-negro sofreu uma forte entrada de Márcio Nunes no jogo contra o Bangu e, após a partida, foi confirmada uma torção nos ligamentos de seus dois joelhos.
O relatório seguinte foi ainda mais assustador: o craque precisaria fazer uma cirurgia no joelho para conseguir se recuperar totalmente do acidente. Após a avaliação inicial, Zico foi submetido a três procedimentos para tratar a contusão, o que fez com que ele passasse quase um ano sem entrar em campo pela Seleção Brasileira e se tornasse dúvida na convocação final. Todavia, às vésperas da Copa, o Galinho de Quintino — como era apelidado — foi escalado para um amistoso e fez sua primeira partida após a lesão.

Zico é um fã declarado de futebol de botão [Imagem: Reprodução/Instagram/0vegeta]
A dúvida sobre as condições do jogador eram notáveis, mas Zico entrou para a partida contra a Iugoslávia e cravou seu retorno em uma atuação de gala, com direito a hat-trick com gol de calcanhar e um golaço driblando tanto a zaga quanto o goleiro. A torcida estava em êxtase pelo retorno do craque e a confirmação da melhora nas condições físicas. No amistoso seguinte, contra o Chile, sua presença foi mais uma vez confirmada entre os titulares. Entretanto, no decorrer da partida, Zico voltou a sentir o joelho e teve que ser substituído.
Na volta à São Paulo, foi orientado a realizar mais uma cirurgia. Contudo, operar o joelho alguns meses antes da Copa do Mundo significava confirmar ausência na competição e desfalcar a Amarelinha. Zico chegou a pedir para não ser relacionado para jogar no torneio, mas voltou atrás em sua decisão e se pôs à disposição. Adiou a cirurgia e dedicou-se ao forte tratamento de recuperação, com fisioterapia e treinos específicos. Em entrevistas mais recentes, porém, o jogador afirmou que não deveria ter ido à Copa, em respeito às indicações médicas e a seu próprio desejo.
Durante a Copa 1986
Zico iniciou sua trajetória no torneio de 1986 no banco. Apesar de ter condições para entrar durante a partida, o rubro-negro foi poupado pelo treinador por não estar em pleno condicionamento físico. Ao longo da competição, Galinho jogou apenas duas partidas: a vitória na fase de grupos contra a Irlanda do Norte por 3 a 0 — na qual entrou no segundo tempo e deu uma assistência de calcanhar para o gol de Careca — e a fatídica eliminação para a França, nas quartas de final.
O jogo pelo qual Zico é lembrado ocorreu no dia 21 de junho de 1986. A partida estava empatada: Careca tinha aberto o placar para o Brasil e, ainda na primeira etapa, veio o empate do time francês. No segundo tempo, Zico entrou em campo após uma substituição. Em sua primeira participação, o jogador deu um belo passe para Branco, que foi derrubado dentro da área e levou o juiz a marcar a penalidade. Apesar de Sócrates e Careca terem feito gols na partida passada, Galinho assumiu a responsabilidade e cobrou o pênalti. No entanto, o goleiro francês defendeu a cobrança e o jogo seguiu frenético até os 120 minutos.
Após o fim da prorrogação, vieram os pênaltis. Embora tenha perdido uma cobrança mais cedo, Zico demonstrou confiança e foi um dos cobradores. Nesta segunda oportunidade, o rubro-negro converteu e manteve o Brasil vivo na disputa.
A derrota minutos depois não veio pelos pés do carioca, mas sua atuação na cobrança durante o tempo normal ficou marcado na mente do torcedor brasileiro, que depositava muitas expectativas no craque. Apesar de não ter sido responsável pela derrota nas penalidades, Zico passou a ser visto como o vilão do jogo devido.
Na campanha anterior à Copa de 1986, Galinho era a grande estrela do time brasileiro e referência no futebol mundial. Grandes nomes que já haviam vestido a camisa verde e amarela exaltavam a habilidade do camisa 10, e sua atuação individual no Clube de Regatas do Flamengo aumentava a expectativa dos torcedores. A esperança de um novo ídolo pós Pelé foi depositada em Zico. De acordo com o imaginário brasileiro, a Seleção havia perdido a Copa de 1982 por um pequeno detalhe e era apta a ser campeã do mundo.
“Futebol é detalhe. A derrota do Brasil em 1982 foi apenas um detalhe. Foi mais sofrido, dolorido. A de 1986 foi mais dramático”
Guilherme Gomes
Por isso, a derrota da Amarelinha em 1986 em uma partida com erro individual de seu grande craque fez com que a frustração dos torcedores ressoasse pelo estádio. Ainda assim, embora o resultado não tenha sido o esperado e Zico tenha sofrido as consequências de um pênalti perdido, o brasileiro era contagiado pela habilidade do carioca e não demorou a perdoá-lo.

Zico é o maior artilheiro de todos os tempos no Maracanã, com 333 gols marcados [Imagem: Reprodução/Instagram/@ricardoalemao5]
“Ele não foi massacrado, por ser o Zico ele tinha muito crédito. Ele não foi vilanizado”
Guilherme Gomes
Ainda assim, a imagem do meia é vinculada até os dias atuais à sua participação sem títulos na Seleção Brasileira. Apesar de ser referência no futebol nacional no time em que disputava, o jogador teve uma trajetória mais discreta diante da camisa verde e amarela. Contudo, a passagem do Galinho na Seleção ainda é grande símbolo de inspiração para as novas gerações, mesmo sem a conquista do título.
“O Zico era o craque do time e ficou mais conhecido no mundo mesmo sem ganhar uma Copa. Tem seleções que ganharam e não ficaram marcadas na memória”
Guilherme Gomes
Embora a ausência de um título tão expressivo quanto a Copa do Mundo afete a concepção de uma parcela do povo brasileiro em relação à grandeza de Zico, Guilherme Gomes analisa a situação sob outra ótica. “Uma expressão muito popular entre os fãs de futebol é ‘O Zico não ganhou a Copa, o azar é da Copa’, e isso mostra o tamanho dele”, afirma.
Após a derrota
O momento posterior à eliminação foi trágico para a equipe. O técnico Telê Santana cogitou abandonar a profissão após a partida e ficou abalado com as críticas sobre seu comando técnico e estilo de jogo. Alguns jogadores se despediram das Copas, como foi o caso de Sócrates — que estava sofrendo duras críticas pelo pênalti desperdiçado — e Zico, que teve como despedida dos Mundiais a lembrança traumática de uma atuação que não condizia com sua realidade no esporte.

A equipe sofreu apenas um gol no tempo regulamentar em toda a Copa [Imagem: Reprodução/CBF]
Além disso, a derrota também marcou a quebra do esquema tático proposto por Telê e a imagem do futebol arte que, apesar de encantar, não se mostrou eficiente na conquista de títulos.
