Por Loren Tangi (lorentangi@usp.br)
Lançado no dia 30 de junho, o álbum Messy (2023), da cantora britânica Olivia Dean, completa três anos em 2026. Em seu álbum de estreia, ela mergulha em uma temática messy (bagunçada, em tradução livre) e expõe suas vulnerabilidades, com o objetivo de celebrar as imperfeições da vida e deixar de lado a obsessão pela perfeição.
A artista se distancia de uma identidade artística definida, com a rejeição da perfeição como narrativa. Olivia fala sobre a impossibilidade de permanecer estática. Em entrevista à Ones To Watch, a cantora definiu seu álbum como: “Aprender a se apaixonar novamente, lidar com o medo que isso traz e encontrar independência mesmo assim. Trata-se de ser grato por suas origens e aceitar as imperfeições da vida.”

[Imagem: Reprodução / Instagram / @oliviadeano]
Mergulhar em um “sentimento desconhecido”
A primeira faixa do álbum UFO, ou Unidentified Flying Object, é traduzida para o português como OVNI, Objeto Voador Não Identificado. A palavra assume um papel figurado no lirismo da música como um sentimento para o qual a autora ainda não encontrou um significado definido. A faixa é quase como uma conversa sobre os riscos e o medo de viver algo que não é totalmente compreendido, representados em trechos como “Sem GPS, sem previsão de chegada, eu não sei o que estou fazendo” e “eu achei que tinha certeza, mas acho que não tenho.”
A segunda composição do álbum, Dive, é o maior sucesso do álbum com mais de 200 milhões de reproduções globais apenas no Spotify. A canção traz um contraste marcante com a melodia da música anterior, com um ritmo suave e moderno. O título faz uma alusão à metáfora de mergulho (dive, em inglês) no amor apesar das incertezas citadas ao decorrer da letra.
Baseado em uma memória da compositora, Ladies Room começa com uma conversa em um banheiro feminino, onde desconhecidas compartilham relatos pessoais e consolam umas às outras. Essa foi a forma da artista representar as amizades femininas como um espaço de confidência e acolhimento. A música também aborda um sentimento de independência e consciência diante de um relacionamento controlador, em trechos como “You protecting, overstepping… This is way less about me and way more about you” (“Você protegendo, ultrapassando limites… Isso é muito menos sobre sobre mim e muito mais sobre você”, em tradução livre).
No Man e Dangerously Easy são faixas que retratam temas opostos mas ambos possuem um teor íntimo e de confidência. Enquanto a primeira retrata a sensação de solidão e decepção dentro de um relacionamento, a segunda fala sobre as reflexões conflitantes de ver alguém seguir com a própria vida depois de um término enquanto o eu lírico se vê parado, se aprofundando nesse sentimento onde é incômodo ver o outro demonstrando como é perigosamente fácil readequar a própria vida.
Getting There se conecta totalmente com o fluxo de pensamentos anterior. Ela funciona quase como um respiro do álbum e começa com a frase que dá nome à música sendo repetida em um ritmo lento, que se acelera ao decorrer de forma mais otimista, quase como perspectivas diferentes acerca do mesmo tema. No começo, Olivia tenta se convencer de que está “chegando lá”, enquanto no final, a afirmação se torna uma verdade.

[Imagem: Reprodução / Spotify]
A oitava faixa fala sobre uma possível paixão que a cantora está desenvolvendo. Apesar do ritmo animado, a música revela que ao se entregar a esse novo amor, Olivia tem mais cautela, diferente de Dive — faixa que ela referencia em trechos como “Let me swim in your ocean” (Me deixe nadar no seu oceano”, em tradução livre).
The Hardest Part retrata mudanças. Enquanto Olivia canta sobre estar torcendo para que as coisas não mudem, ela mostra, na verdade, como é impossível voltar a como era antes ao perceber que a parte mais difícil é que ela mesma mudou. Ao abraçar essa mudança como evolução, a artista demonstra maturidade e amadurecimento diante de fatores que estão fora do seu controle.
Uma das músicas mais curtas do álbum — com apenas um minuto e 20 segundos — foi produzida em um momento em que Olivia enfrentava uma crise. Com a pressão de produzir um álbum e não conseguir se desligar da música em momento algum, a cantora passou a fantasiar sobre como seria se ela fosse uma florista. Mais profundamente, de forma figurada, reflete sobre o cuidado através de demonstrações de afeto e ações, ou mesmo o desejo de ter uma vida, menos complicada, como a de uma florista, em sua visão.
Aceitação e pertencimento marcam a reta final de Messy
A faixa Messy, que dá nome ao álbum, traz a ideia central da produção. “No need to be ready/ It’s okay to be messy” (“Sem necessidade de estar pronta/ Está tudo bem ser bagunçada”, em tradução livre), traduz conselhos de forma delicada, que falam sobre a questão de não ter tudo sob controle sempre e nem em perfeito estado. Ao longo da faixa, a compositora admite suas inseguranças e contradições como parte de quem ela é. Uma aceitação da impossibilidade de atingir a perfeição.
Everybody ‘s crazy mergulha em uma percepção de que não só o eu lírico é imperfeito, mas as pessoas ao seu redor também. Admitir essa condição e conversar sobre, segundo a cantora, pode tornar as conexões humanas mais profundas e sinceras. A música parte de conversas em momentos de vulnerabilidade, o que fez com que a autora chegue a essas conclusões.
Diferente das outras narrativas do disco, que retratam temas sobre amor, relacionamentos, e conflitos internos, Carmen se destaca por ser muito pessoal de uma forma única. A faixa é uma homenagem à avó materna de Olivia, natural da Guiana, e começa com relatos sobre memórias de sua imigração para o Reino Unido aos seus 18 anos.

A coerência entre a linguagem visual e musical de Olivia Dean
A identidade visual acompanha a proposta de uma narrativa de vulnerabilidade que é encontrada nas letras do álbum. As fotografias possuem uma aparência mais analógica e intimista, com luz natural, sem glamour excessivo, com desenhos de forma orgânica e colorida. O resultado é a tradução de uma atmosfera acolhedora e autêntica, da mensagem explorada ao longo da produção.
Musicalmente, o álbum navega do pop contemporâneo e neo-soul ao R&B, com influência até mesmo do jazz. A combinação cria ritmos e uma sonoridade muíto característicos da cantora, já presentes em seus trabalhos anteriores, mas que desenvolvem no álbum de estreia uma ideia mais completa e consolidada.
