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São Paulo do barulho

A poluição sonora prejudica a saúde física e psicológica dos indivíduos e revela novos desafios para o planejamento urbano
Por Manuela Neves Miranda (manuelanevesmiranda@usp.br) 

Buzinas, obras, correria e pessoas com fones de ouvido: São Paulo não é só vista, ela é vivida com o corpo. A poluição sonora, agravada pelas construções civis e pelo trânsito, é um dos fatores mais citados quando o assunto é desconforto sensorial na capital paulista. 

Em 2025, o número de reclamações feitas ao Programa Silêncio Urbano (PSIU) bateu o recorde de 50 mil. Responsável por fiscalizar diferentes fontes de poluição sonora – como comércios, indústrias, templos religiosos e equipamentos de som em veículos automobilísticos estacionados – o programa evidencia o crescimento das queixas relacionadas ao excesso de ruído na cidade. 

A necessidade de conforto acústico

A paisagem sonora carrega informações culturais, sociais e históricas que, muitas vezes, dizem mais sobre um local do que a própria paisagem visual. Entretanto, para que se consiga ouvir os sons das padarias agitadas pela manhã, das conversas cotidianas no horário de almoço e do músico no metrô, é necessário estar com a escuta descansada, o que é cada vez mais difícil em São Paulo.  

Artista de rua
A música de rua é uma das formas de ocupar a paisagem sonora urbana; a poluição sonora não consiste na presença de sons, mas na sua intensidade, contexto e organização [Imagem:  Douglas Schneiders/Pexels]

Ranny Michalski, vice-coordenadora da Regional São Paulo da Sociedade Brasileira de Acústica (SOBRAC), destacou que a predominância de ruídos intensos na cidade tende a promover o afastamento e até a rejeição ao convívio urbano nas pessoas . Para evitar isso, ela afirma a necessidade de se elaborar soluções que priorizem o conforto auditivo da população.

Para ela, a incorporação de políticas que explorem a sensorialidade no planejamento urbano ainda pode ser mais elaborada. Nesse sentido, Michalski cita a criação e a requalificação de áreas verdes como uma alternativa possível para melhorar o conforto acústico e térmico da cidade.  

A privatização de parques na cidade pode causar o efeito oposto à atenuação do barulho; os usos comerciais e os eventos nos espaços verdes podem amplificar ruídos e reduzir a percepção de sons da natureza.

Áreas verdes são recursos importantes para diminuir a poluição sonora
O Parque Ibirapuera e o Parque Villa-Lobos têm realizado eventos com frequência; o Parque Trianon receberá um restaurante de mais de 400 m². Esses fenômenos alteram a dinâmica de ocupação dos espaços verdes e prejudicam a percepção de sons naturais [Imagem: Daderot/Wikimedia Commons]  

Árvores ajudam a reduzir a propagação do som por diferentes mecanismos, como absorção, dispersão e mascaramento das ondas sonoras — o último ocorre pelo farfalhar das folhas, que encobre ruídos externos. A preservação de espaços verdes, além de contribuir para uma paisagem sonora mais agradável, fornece alternativas para redução do estresse a partir do contato humano com os sons de animais, de vegetações e de cursos hídricos.

Sons da natureza, como o canto dos pássaros, são particularmente relevantes, pois favorecem o bem-estar e a criação de vínculos afetivos com o lugar.
Ranny Michalski, vice-coordenadora da SOBRAC

Viver sob ruídos

A poluição sonora ultrapassa o incômodo cotidiano e afeta diretamente a saúde da população e a forma como o indivíduo se relaciona com a cidade. De acordo com o Dr. Márcio Salmito, otorrinolaringologista no Hospital Alemão Oswaldo Cruz, as perdas auditivas são o principal dano que a exposição prolongada à poluição sonora pode trazer, pois o barulho agride mecanicamente as células do ouvido. Ele afirma que o contato, por mais de duas horas, com sons a partir de 80 decibéis já é destrutivo a longo prazo. Além de problemas auditivos, o médico ressalta irritabilidade e dificuldade de concentração como sintomas característicos de pessoas expostas a ruídos excessivos. 

Entre os fatores que mais colaboram para o estresse auditivo na capital está o som do tráfego — marcado por buzinas, sons de derrapagens e de escapamentos, por exemplo. Uma das estratégias encontradas pela população para lidar com essa sobrecarga é o uso de fones de ouvido. 

Maria Luiza Negrão, estudante de Jornalismo entrevistada pelo Laboratório, afirmou que “fazer esses trajetos sem fone de ouvido me deixa muito incomodada, porque o metrô e os ônibus fazem muito barulho.” Essa ferramenta é, do mesmo modo, utilizada por Maria Trombini, também estudante e moradora de uma avenida agitada da capital.

“Toda vez que eu tenho trabalho presencial, eu chego lá estressada e eu volto para casa estressada, porque eu detesto barulho.” 
Maria Trombini, estudante de jornalismo

O Dr. Márcio Salmito afirma que os fones podem piorar ou aliviar os efeitos da poluição sonora, a depender da forma como são utilizados. Segundo o especialista, fones tradicionais, de escutar música, podem ser prejudiciais, pois existe uma tendência de se manter o volume mais alto quando o aparelho está sendo utilizado. Já os fones bloqueadores de ruído são eficientes na proteção da audição e são utilizados, inclusive, por trabalhadores de aeroportos e fábricas, que estão sujeitos a barulhos intensos.

Poluição sonora causada pelo trânsito
O paulistano gasta, em média, 2 horas e trinta minutos por dia deslocando-se para realizar as suas atividades, segundo a Rede Nossa São Paulo. O cansaço auditivo pode fazer com que as pessoas priorizem o silêncio em casa [Imagem: Felipe Balduino/Pexels] 

Maria Trombini e Maria Luiza Negrão descreveram um forte cansaço ao chegarem onde moram após o contato diário com os ruídos da cidade. Trombini pontua que tenta criar uma espécie de refúgio acústico na sua casa e, para isso, mantém as janelas sempre fechadas. Ainda assim, ela se queixa da falta de privacidade, já que, mesmo isolando o ambiente, os barulhos de motores continuam chegando ao interior do apartamento. Já Maria Negrão afirma: “Quando eu vou para algum lugar que é muito barulhento, eu tenho que fazer um detox, ficar em casa, contemplando a parede”.  

Trombini diz ter a sua concentração muito prejudicada por estar sempre hiperestimulada. A sensação relatada por ela dialoga com as conclusões de um estudo alemão, o qual afirma que a poluição sonora atua no corpo humano como agente estressor crônico. Segundo o artigo, o ruído excessivo ativa o sistema nervoso simpático e o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, responsável pela liberação de cortisol, hormônio de resposta ao estresse.

A pesquisa conclui que a exposição contínua ao ruído urbano, especialmente aquele proveniente do tráfego, está associada a um maior risco de doenças cardiovasculares. Ademais, a piora da qualidade do sono, a inflamação do sistema nervoso e a alteração de circuitos cerebrais que regulam as emoções dos indivíduos – todos problemas oriundos da poluição sonora – colaboram para o desenvolvimento de transtornos psicológicos, como a ansiedade e a depressão. 

Institucionalização da poluição sonora 

Em 3 de junho de 2026, o Órgão Especial do Tribunal de Justiça de São Paulo considerou inconstitucional o decreto nº 60.581/21, assinado pelo prefeito Ricardo Nunes (MDB), que determina os limites de emissão de ruído permitidos para a construção civil na capital paulista.

O texto municipal, em vigor desde 2021, permitia que obras particulares em São Paulo emitissem até 85 decibéis (dB) durante o dia e entre às 8 horas e às 14 horas aos sábados. Esse limite é superior ao estabelecido pela norma federal NBR 10.151, da ABNT, que recomenda níveis entre 50 e 55 dB para áreas residenciais nesse período. À noite, o decreto autorizava ruídos de até 59 dB, enquanto o recomendado para esse período varia entre 45 e 50 dB. Aos domingos e feriados os limites permitidos eram, também, de 59 dB. As obras públicas não precisavam obedecer aos limites do decreto e poderiam emitir sons até maiores.

Poluição sonora causada por obras
De segunda a sexta, em dias úteis, atividades de carga e descarga, por exemplo, podem ser feitas até de madrugada. As obras nesses horários prejudicam o sono e a saúde dos moradores [Imagem: Manuela Neves/Acervo pessoal]

Jeferson Araújo é estudante de Matemática Aplicada Computacional e reside em uma casa cercada por construções imobiliárias em andamento. Ele relata que as obras possuem uma proximidade e um volume sonoro tão grandes que a sensação é de que ocorrem na sua própria casa. Jeferson também afirma ter o sono interrompido: “Hoje acordei às seis horas da manhã com barulho de construção.”

O sono é um processo essencial para a manutenção da saúde neurológica. O som alto nos períodos de descanso ocasiona microdespertares — interrupções do sono que, embora não sejam percebidas pelo indivíduo, comprometem as etapas mais restauradoras do ciclo circadiano: o sono profundo e o sono REM. Nessas fases, o cérebro consolida memórias, regula as emoções e libera hormônios fundamentais, como o GH e a leptina, responsáveis, respectivamente, pelo crescimento e pela regulação da sensação de saciedade. Nesse sentido, a privação dessas etapas pode comprometer a memória, a atenção e o equilíbrio físico e emocional.

Os desafios da regulamentação da poluição sonora vão além da construção civil. Conciliar o direito ao descanso com os demais usos do espaço urbano continua sendo uma questão e, em regiões movimentadas, como a Avenida Paulista, é motivo de conflitos entre artistas, moradores e poder público.

O caso da Avenida Paulista 

A Paulista possui uma sonoridade que muda conforme o dia. Durante a semana, o tráfego de veículos domina e o ruído fica ainda mais acentuado devido ao tamanho dos prédios da região, que, muito altos, impedem que o som se espalhe. Aos domingos e feriados, desde a criação do programa Paulista Aberta, em 2015, os motores dão lugar à música e às manifestações culturais diversas, o que transforma o espaço em um ambiente de convivência e expressão artística.

A ocupação cultural das ruas contribui para uma cidade mais viva e democrática. Entretanto, a falta de organização e fiscalização dos sons produzidos na avenida tem gerado conflitos com os moradores. Mais de 6 mil pessoas moram na Avenida Paulista. O movimento Paulista Boa Para Todos – um coletivo que defende a regulamentação dos sons que afetam a saúde dos moradores locais – fez medições, ao longo de um ano, que revelaram picos de mais de 85 dB em vários dias de domingo na avenida.

O curta “Vozes da Paulista & Olhares sobre a Paulista”, realizado pelo movimento, expõe a necessidade de fiscalização do decreto 55.140, de 2014, que regulamenta a legislação conhecida como “Lei dos Artistas de Rua de São Paulo”. 

Poluição sonora causada por apresentação de bandas em espaços públicos nem sempre com permissão
Regras que envolvem a duração das apresentações, os locais permitidos e o distanciamento mínimo entre um artista e outro não são devidamente fiscalizadas. Moradores afirmam que saem de casa nos dias de abertura para fugir do barulho [Imagem: Giuseppe Di Maria/Pexels]

Se o excesso de barulho representa um problema para a saúde e para a qualidade de vida, nem toda intervenção sonora é vista de forma negativa. Algumas tecnologias utilizam o som de maneira intencional para facilitar a circulação e ampliar a acessibilidade, embora também despertem controvérsias. 

Tecnologias sonoras no urbanismo 

Em uma cidade com excesso de barulho, novas tecnologias que utilizam o som como instrumento urbano dividem opiniões. Em abril de 2026, a Linha 4-Amarela do metrô de São Paulo implementou novos sinais sonoros, chamados de Siim, com melodias diferentes em cada estação, compostas pelo maestro Gil Jardim. O objetivo do sistema é indicar o tempo restante entre a abertura e o fechamento das portas dos vagões aos transeuntes de maneira mais segura e intuitiva, de acordo com o ritmo da música.

A Motiva, concessionária responsável pela operação e manutenção da linha, afirma que a medida foi pensada também visando à acessibilidade. Contudo, alguns usuários da linha defenderam, em postagens sobre o assunto nas redes sociais, que a mudança aumentou os estímulos sonoros de uma cidade já muito saturada de ruídos, o que prejudica, principalmente, pessoas com sensibilidade auditiva — como parte dos indivíduos com Transtorno do Espectro Autista (TEA), por exemplo. Parte dos passageiros manifestou, nos comentários, ter gostado da mudança e considerado o acesso ao metrô facilitado com a medida.

Metrô de São Paulo tem música personalizada para cada estação, o que contribui com a poluição sonora
O Brasil não foi o primeiro a implementar essa tecnologia, que surgiu no Japão, em 1989, nas plataformas de Tóquio [Imagem: Manuela Neves/Acervo pessoal]  

O projeto também enfrenta críticas relacionadas à familiaridade dos usuários da linha com o antigo som dos trens, o do clarinete. “A eficiência não deve ser pensada apenas em termos de clareza da informação, mas também considerando aspectos como conforto auditivo e familiaridade”, afirma Ranny Michalski.

*A capa desta matéria usa imagens editadas da Agência Senado e AngMoKio

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