Por Leda Lôbo (ledalobo@usp.br)
Nos últimos anos, a cidade de Salvador está trazendo força a uma atividade cultural que já foi destaque na capital, o cineclubismo. Grupos de encontro e discussão sobre cinema, como o Cineclube CBX, o Cinematógrafo, o Cine Clube Glauber Rocha e o Cineclube Violeta, ocupam salas de exibição e espaços culturais que fogem ao circuito comercial, retomando o legado do Clube de Cinema da Bahia (CCB), um dos espaços mais importantes para a formação e produção em cinema no estado.
Durante o período de atividade do CCB, o clube e seus organizadores foram referência para apreciadores e para cineastas. O cenário baiano de cinema, intensamente influenciado pelo grupo, recebeu atenção internacional, levando a Bahia a ser considerada “a Meca do cinema mundial” pelo crítico e historiador francês George Sadoul no jornal Les Lettres Françaises. A atividade cineclubista levava pessoas às salas, alimentando o amor pela sétima arte e instigando o desejo de muitos produzirem suas próprias obras, apresentando alternativas que deixavam claro que era possível fazer cinema fora dos ideais hollywoodianos.
No livro A Geração do Cinema Novo (Mauad, 2009), de Pedro Simonard, há uma fala do cineasta cinemanovista Zelito Viana, que aponta: “os cineclubes foram fundamentais porque, naquele tempo, e até hoje, o cinema no Brasil era muito mal visto, só vem aquilo que as grandes distribuidoras querem. Naquele tempo, o cineclube era fundamental, absolutamente fundamental para a formação das pessoas porque só se pode formar cineasta vendo filme”.
O nascimento da atividade cineclubista soteropolitana
O Clube de Cinema da Bahia iniciou suas atividades em junho de 1950, sendo o primeiro dos grupos de exibição e debate sobre filmes em Salvador. A idealização do cineclube veio por meio de Walter da Silveira e Carlos Coqueiro da Costa.
Walter da Silveira, figura central do clube, foi advogado, político, ensaísta e crítico de cinema. A escrita sobre filmes iniciou quando tinha 13 anos, por meio de colaborações nas colunas Teatro & Cinema e Panorama, do jornal O Imparcial. O ofício perdurou até os últimos dias de sua vida, levando ao reconhecimento como um imortal da Academia de Letras da Bahia e como uma das figuras mais importantes do cenário audiovisual baiano.
Izabel Melo, professora do Departamento de Ciências Humanas da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), comenta que Walter tinha um lugar fundamental no clube. O cineclubista era responsável pela articulação para conseguir os filmes que seriam projetados com escritórios de distribuidoras e embaixadas. Ele colocou o CCB em um radar nacional ao trocar correspondências com importantes críticos e fomentadores de cinema brasileiros, como Paulo Emílio e Paulo Fontoura Gastal, mas também ao manter relações com outros cineclubes do norte-nordeste.
O crítico contribuiu para a maior visibilidade do cinema nacional no cenário internacional. Walter da Silveira foi responsável por representar a Cinemateca Brasileira no festival de Sestri Levante, na Itália. Como convidado oficial, participou do Festival de Cannes (França), testemunhando a consagração internacional de O pagador de promessas (1962) – filme no qual estava envolvido na produção e apareceu como figurante –, que recebeu a Palma de Ouro. Também esteve presente na premiação de Barravento (1962), em Karlovy Vary, mesmo festival que conferiu a Rio, 40 graus (1955), em 1956, o Prêmio Jovem Talento, ambos filmes em que participou do processo produtivo.

O artigo Walter da Silveira e o Clube de Cinema da Bahia, escrito pelo pesquisador Thiago Barbosa de Oliveira Coelho, mostra que o cineclube foi criado com o intuito de apresentar um cinema alternativo, que fugia da hegemonia estadunidense comum nas salas de exibição, por conta da difusão do American way of life, bem como em razão dos grandes investimentos de produtoras e distribuidoras norte-americanas. Além disso, era proposto um espaço para compartilhar reflexões sobre os filmes entre os frequentadores, formando um debate construtivo.
No livro póstumo A história do cinema vista da província (1978), escritos de Walter da Silveira reforçam que o Clube de Cinema foi mal-interpretado como contra o cinema feito nos Estados Unidos. Para ele, a iniciativa buscava entender e valorizar o filme como expressão de arte.
“A impressão reinante de início era, todavia, a de que se tratava de uma entidade anti-americanista. Dois motivos conduziam a essa impressão: os filmes europeus, fora do mercado exibidor, custavam baratíssimo e necessitavam de uma tela qualquer; as agências de Hollywood, numa política erradíssima contra o movimento cineclubista, recusavam sua produção”, comenta o fundador.
A formação da cinefilia e da autoria
De acordo com o posfácio de A história do cinema vista da província, escrito pelo cineasta José Umberto Dias, o CCB foi configurado seguindo os ideais do “modelo francês”, ou seja, colocando o cinema como espaço de formação e debate, com o espectador como participante ativo nesse processo. Contando com cerca de 300 sócios, o clube extrapolava o lugar de mero exibidor de filmes. Trabalhava-se na construção de uma biblioteca especializada, em uma filmoteca, em um periódico, assim como na realização de cursos, debates e conferências.
O cineclube permitiu que os frequentadores tivessem acesso a filmes clássicos e ao cinema feito na época, especialmente a movimentos que revolucionavam a arte pelo mundo, como o neorrealismo italiano, a montagem soviética e a Nouvelle Vague francesa. Ao formar o público à luz dos movimentos artísticos vigentes no momento, o clube foi capaz de fomentar a produção audiovisual local, provocando um movimento denominado como “nova onda baiana” por Maria do Socorro Silva Carvalho, professora e pesquisadora da Universidade do Estado da Bahia.
Os integrantes Glauber Rocha, Walter Lima Júnior, Orlando Senna, Roberto Pires, Rex Schindler, entre muitos outros, foram influenciados pelas exibições e pelos debates do cineclube. Muitos deles marcaram o Ciclo Baiano de Cinema, ocorrido entre 1958 e 1964, período fértil para a produção cinematográfica no estado, além de representar uma das bases para o Cinema Novo.

Com o passar dos anos, organizadores do CCB, em especial Walter da Silveira e Guido Araújo, montaram o Grupo Experimental de Cinema, curso de extensão ministrado na Universidade Federal da Bahia (UFBA). O curso, iniciado em 1968, atraiu universitários e jovens ao cinema, ampliando a presença desse público no cineclube e o debate cinematográfico realizado entre eles — tudo em meio a um contexto de engajamento político, em razão do recente golpe militar no Brasil.
Os novos rumos do cineclubismo
Em 1970, Walter da Silveira faleceu, o que fez com que as atividades do Clube de Cinema da Bahia fossem suspensas. No ano seguinte, Guido Araújo retomou os encontros com o auxílio de outros participantes. A morte da principal figura do grupo levou a sua reorganização e marcou uma drástica mudança no perfil do clube, que também foi um efeito da situação sociopolítica do país e das inovações no campo audiovisual.
Grupos que promoviam debates e que projetavam películas de conteúdo fora do monitorado pelo regime militar funcionam como meio de resistência ao autoritarismo. A exibição de obras que faziam parte de movimentos de contracultura, como as do cinema marginal, foram decisivas para a formação do público no momento, assim como para a produção de cinema.
Meteorango Kid: Herói Intergalático (1969), O Anjo Negro (1972) e O Rei do Cagaço (1977) foram filmes realizados por cineastas que acompanhavam o momento do clube. Muitas das obras feitas por cineclubistas durante a época fizeram parte do “udigrúdi baiano”, movimento de contestação e provocação ao conservadorismo associado à ditadura militar.
Além do cineclube em si, eventos relacionados a Guido Araújo, como os do Grupo Experimental de Cinema e da Jornada de Cinema da Bahia, atuaram no debate e na produção audiovisual nessa nova fase. Segundo Izabel Melo, o curso ligado à UFBA, voltado a universitários e à juventude em geral, levou muitos alunos a conhecerem o cineclube, alterando o perfil — anteriormente composto por uma predominância de homens adultos formados, muitos médicos, advogados ou professores —- para uma presença majoritária de jovens.

A pesquisadora em história do cinema explica que o curso de extensão levou à criação da Jornada de Cinema da Bahia, festival de cinema brasileiro voltado à exibição de documentários e de filmes de caráter sócio-político.
O Clube de Cinema da Bahia operou por meio de mostras nacionais e internacionais, com muito material cedido pela Embrafilme, por embaixadas e pelo Instituto Goethe, que foi o principal abrigo do grupo nessa fase. O cineclube funcionou, em toda sua trajetória, na região chamada atualmente de Centro Histórico de Salvador e em seus entornos, localidades de suma importância comercial, administrativa e econômica na história da cidade, mas que, nas últimas décadas do século 20, perdeu parte de seu protagonismo.
O fim do Clube de Cinema da Bahia
Entre as décadas de 70 e 80, Salvador sofreu uma mudança do centro financeiro e administrativo, vivenciando a desocupação da antiga região central. A abertura de shopping centers ofertou novos locais de lazer, causando abandono a muitos dos espaços clássicos. Esse movimento provocou o fechamento de diversos cinemas de rua e espaços culturais.

A popularização do videocassete entre o final dos anos 70 e o início da década de 80 impactou significativamente o cinema como local físico. Izabel Melo aponta que, ao não ser mais necessário ir às sessões em salas de exibição para assistir filmes, há uma mudança na espectatorialidade.
A facilidade de comprar ou alugar filmes e assisti-los no conforto de casa, quando fosse desejado, acelerou o abandono dos cinemas de rua. Moradias e trabalhos cada vez mais longe dos principais centros de cultura afastaram o público e, com o aparecimento de alternativas à ida a esses locais, o deslocamento foi visto como desnecessário para muitos.
Por muito tempo, o cineclube foi usado como um ambiente de resistência ao regime militar. A historiadora afirma que, com o fim da ditadura, os cineclubes foram perdendo aderência, especialmente devido a novos problemas sociais e políticos que levam a dissolução do espaço de debate público que existia em contraponto ao governo.
Em meio às mudanças políticas, sociais e geográficas, fortalecidas nos anos 80, o Clube de Cinema da Bahia encerrou suas atividades. Contudo, ambientes de debate sobre cinema permaneceram existindo, mesmo que em menor escala. Cineclubes locais ou eventuais, muitas vezes voltados ao público infantil, estiveram presentes na agenda cultural soteropolitana. Festivais, como a Jornada de Cinema da Bahia – encerrada em 2011 – e o Panorama Internacional Coisa de Cinema – iniciado apenas em 2002 –, também representaram espaços de fomento da produção audiovisual e de conversa sobre ela.
Os clubes do presente
De acordo com Izabel Melo, o espírito cineclubista nunca deixou de existir, seja por encontros para assistir filmes em comunhão ou por conversas entre amigos sobre obras e experiências cinematográficas. O cinema tem a capacidade de reunir as pessoas para que visões sejam compartilhadas, construindo o entendimento e a relação com ele.
Na última década, a retomada dos grupos de debate sobre filmes em Salvador em cinemas e outros espaços culturais de maior público, geralmente com certa periodicidade, deu destaque ao cineclubismo na cidade. A presença do público nos encontros tem diversos fatores, mas, segundo Izabel Melo, o principal é o fato de muitas pessoas estarem cansadas de ficarem sozinhas. O retorno a um espaço coletivo é capaz de gerar um sentimento de comunhão e conversa, limitando o individualismo que dá o tom desde o videocassete até o streaming nos dias atuais.

Atualmente, os cineclubes são um meio de muitos espectadores conseguirem acesso a filmes desconsiderados pelo circuito comercial, comum em cinemas de rede ou multiplex, e pelas plataformas de streaming.
Marechal de Lima, frequentador de encontros cineclubistas em Salvador, afirma que, sem ter começado a ir às exibições e sem o trabalho da curadoria, não teria conhecimento de muitas obras diferentes do comum, que mudaram o seu repertório. Ele comenta que as discussões provocaram uma mudança no seu interesse pela sétima arte. A possibilidade de não estar preso à própria visão e de ter contato com opiniões de outras pessoas fez com que ele gostasse mais de ver cinema.
As parcerias com cinemas e teatros – como é o caso do Cinematógrafo, do Cine Clube Glauber Rocha e do Cineclube CBX – e políticas de incentivo à cultura – como as que apoiam o Cineclube Violeta, por meio da Política Nacional Aldir Blanc – são essenciais para o bom momento dos clubes.
O curador do Cinematógrafo, Fabricio Ramos, indica que a presença das sessões em cinemas que fazem parte de um circuito alternativo ao comercial dá espaço à curadoria, que promove apresentação e descoberta. O resgate da experiência no cinema, seja por filmes históricos, cults ou desconhecidos pelo público, é motor para levar o público às salas.
A cineasta e curadora do Cinematógrafo, Camele Queiroz, diz que, por conta do advento da internet, tornou-se viável descobrir muita coisa valiosa e pouco conhecida. “Eu acho que essa é a senha que mais nos mobilizou internamente, no sentido de dizer assim: ‘como pode ninguém ter ouvido falar deste filme?’”, afirma. Para a pesquisadora, a falta de espaços para assistir e debater obras não descobertas por muitos foi uma angústia que levou à criação de um ambiente de encontro sobre cinema.
A curadora comenta que muitos filmes escolhidos pela curadoria buscam complexificar a realidade e as relações humanas, sem impor verdades, de modo a dar conta de sustentar uma boa conversa. Fabricio acrescenta que os debates realizados buscam fugir dos discursos prontos e do senso comum sobre temas e obras.
Fabricio Ramos indica que a conversa é fundamental para o espaço de fruição fílmica, que integra a convivência, através do debate e da crítica, como também pela formação cinematográfica com os filmes. “O cinema se torna um vetor de expansão às relações humanas, que foram esgarçadas nos últimos séculos”, reflete o cineasta.
