Por Helena Brambilla (helenacbrambilla@usp.br)
Juscelino Kubitschek de Oliveira nasceu no dia 12 de setembro de 1902, na cidade de Diamantina, em Minas Gerais. Lea Vidigal, mestre e doutora em Direito Econômico pela Universidade de São Paulo (USP) e investigadora do Caso JK na CEMDP, afirma que Kubitschek é lembrado e querido pela população brasileira até hoje, sendo conhecido pela construção de Brasília, pelo seu famoso lema “50 anos em 5” e por impulsionar a indústria nacional.
A face médica de JK
Segundo a biblioteca digital da FGV, quando Kubitschek era pequeno, João César de Oliveira, seu pai, faleceu de tuberculose. Por isso, sua mãe, Júlia Kubitschek, o criou sozinha. JK cresceu com uma vida simples e, ao sair do primário, foi para um seminário e se tornou coroinha. Entretanto,a vida sacerdotal não o atraía, pois ele queria ser médico.
Decidiu fazer medicina na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), porém a família não tinha dinheiro para pagar por sua moradia. Então, ele decidiu se inscrever em um concurso público para telegrafista com o objetivo de custear suas despesas enquanto estudava na capital mineira. Em 1921, JK foi aprovado no concurso e conseguiu passar no vestibular para o curso de medicina.
Após se formar, em 1927, Kubitschek começou a trabalhar no consultório de seu amigo, José Soares, como sócio e assistente na Clínica Cirúrgica da Santa Casa de Misericórdia, em Belo Horizonte. Ele continuou trabalhando como assistente da cadeira de física médica da UFMG e da cadeira de médico da Caixa Beneficente. Durante essa época, JK juntou economias para se especializar em urologia em Paris, o que ele fez em abril de 1930. Após seu período no exterior, em novembro do mesmo ano, abriu seu consultório e foi nomeado para integrar o corpo de médicos do Hospital Militar da Força Pública de Minas Gerais como chefe do Serviço de Urologia.

Carreira política
Foi na Revolução de 1932 que Kubitschek iniciou sua carreira política. Ele atuou como médico no Primeiro Batalhão da Força Pública, período em que sua amizade com Benedito Valadares começou. Após o fim da Revolução, Valadares foi nomeado interventor federal de Minas Gerais por Vargas, e convidou Kubitschek para ser chefe do Gabinete Civil. Ele usou de seu cargo para defender as causas do seu município de nascença, construindo uma ponte que liga a cidade de Diamantina à cidade de Rio Vermelho.
Ainda por influência de Valadares, Juscelino se filiou ao Partido Progressista de Minas Gerais (PP) para concorrer às eleições de 1934 como deputado federal. Kubitschek venceu as eleições e se mudou para a então capital do Brasil, o Rio de Janeiro.
Durante seu período como deputado federal, Kubitschek buscou se preparar para as eleições municipais de 1936, especialmente em Diamantina, onde conseguiu eleger 11 dos 15 candidatos a vereador de seu partido. Isso garantiu o controle político da cidade em suas mãos, mas, em 10 de novembro de 1937, a ditadura de Getúlio Vargas foi instaurada e JK perdeu seu mandato de deputado.
Forçado por Vargas, Juscelino precisou voltar aos serviços como médico. Como ele havia ficado três anos longe da sala de cirurgias, JK decidiu praticar cirurgias em cadáveres na Faculdade de Medicina da UFMG durante três meses. Em 1938, foi nomeado como chefe de cirurgia do Hospital Militar e promovido a tenente-coronel da Força Pública, simultaneamente.
Essa pausa em sua trajetória política não durou muito tempo. Em 1940, Valadares o convidou para ser prefeito de Belo Horizonte. Kubitschek não queria aceitar o cargo, pois havia acabado de voltar à medicina, mas, no dia 15 de abril, Valadares publicou no Diário Oficial de Minas Gerais o decreto de sua nomeação sem avisá-lo.
Sua política de prefeito consistia em dois princípios: a formação de “comitês de bairro”, que buscavam analisar e resolver problemas locais, e a presença de JK em todas as políticas públicas que fossem criadas. Ele também desenvolveu a infraestrutura de Belo Horizonte, com a criação de edifícios, avenidas e bairros. A Pampulha, um conjunto arquitetônico que é ponto turístico da cidade, foi construída nessa época e é considerada patrimônio da humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO).

Vidigal afirma que JK “fez uma revolução em Belo Horizonte porque, ao andar no centro da cidade, se vê avenidas largas, de cinco pistas”. Ela explica que é difícil achar uma cidade antiga com um centro que tenha o fluxo e a amplitude de Belo Horizonte, e tudo graças ao JK.
Política pós-Vargas
Em 1945, quando o Estado Novo de Vargas chega ao fim, Kubitschek se envolveu na criação do Partido Social Democrático (PSD), e apoiou a campanha do general Eurico Dutra à presidência. Ainda nas eleições daquele ano, foi eleito deputado federal por mais de 26 mil votos.
Como deputado, em 1946, JK participou da Comissão de Transporte e fez uma viagem aos EUA e Canadá, que moldou sua visão de que o Brasil precisava de uma industrialização intensa para se desenvolver. Nessa época, estruturou a unidade do PSD em Minas e, em 1950, participou das eleições para governador de Minas e foi eleito em outubro do mesmo ano.
“O Juscelino foi um líder popular, pois se preocupava com os direitos do trabalhador, com a integração nacional e com a defesa de setores estratégicos sob controle nacional.”
Lea Vidigal
Como governador, JK pautou sua administração pelo “binômio energia e transportes”, atuando em várias frentes do estado. No setor energético, criou a Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig) e iniciou a construção de hidrelétricas pelo estado. Para impulsionar a industrialização, atraiu a siderúrgica alemã Mannesmann para a cidade de Contagem. Também construiu 16 estradas-tronco, que foram responsáveis por interligar regiões isoladas, facilitando o transporte de produções agrícolas e industriais. Na área de agricultura, criou linhas de crédito, sistemas de empréstimo de tratores e fundou empresas para industrializar fertilizantes e carne. Além disso, Kubitschek inaugurou 137 escolas, 251 pontes e 120 postos de saúde.
A candidatura oficial de JK foi lançada em 25 de novembro e foi marcada pela oposição do Rio de Janeiro e de São Paulo, segundo o Atlas Histórico do Brasil da FGV. A imprensa antigetulista propagava um clima de crise, buscando justificar uma intervenção militar.
Apesar disso, Kubitschek seguiu com sua propaganda político-eleitoral. Afirmou em um comício realizado em Jataí que pretendia transferir a capital para o Planalto Central caso fosse eleito. O Programa de Metas, o famoso “50 anos em 5”, o qual buscava 50 anos de progresso em 5 anos de governo, também fez parte de sua campanha eleitoral. Sua chapa foi feita com João Goulart, o fortaleceu a sua candidatura, uma vez que Goulart apresentava forte interação nos meios sindicais.
Nas eleições de 3 de outubro, Kubitschek foi eleito com 35,6% dos votos, mas não assumiu a posse imediatamente. A União Democrática Nacional (UDN) e seus aliados iniciaram uma batalha judicial para anular o resultado. Eles alegaram ilegitimidade de votos comunistas, corrupção eleitoral e ausência de maioria absoluta. Porém, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) proclamou, em 7 de janeiro de 1956, a validade da eleição de JK e de João Goulart.
Feitos como presidente
Em 31 de janeiro de 1956, Kubitschek pediu ao Congresso para decretar o fim do estado de sítio no Brasil, que havia sido declarado entre a eleição e sua posse pelo PSD. Ele também declarou o fim da censura à imprensa. De acordo com Vidigal, seu governo foi construído com ideais democráticos, o que Kubitschek sempre buscou preservar.
JK buscou equilibrar o Congresso durante seu mandato. Foi formada uma aliança entre o PSD e o PTB. O PSD ficou responsável pelos Ministérios da Justiça, Fazenda e Relações Exteriores, e o PTB ficou com o Ministério do Trabalho, o que garantia que os sindicatos ficassem sob controle sem que o governo precisasse recorrer à repressão.
Para sustentar esse esquema, Kubitschek colocou o grupo do 11 de novembro, liderado por seu fiel marechal Henrique Lott, no Ministério da Guerra. Este, era responsável por equilibrar o poder, evitando um golpe.
Em fevereiro, alguns militares da Aeronáutica se rebelaram em Jacareacanga, no Pará, recusando aceitar a posse de Juscelino. Esse movimento foi sufocado por ele, que ainda concedeu anistia ampla aos revolucionários. A ideia de dar anistia serviu para não alimentar a instabilidade e não criar ressentimentos.

A criação de Brasília veio logo em seguida, em abril, projetada por Oscar Niemeyer e urbanisticamente concebida por Lúcio Costa. Como prometido em sua campanha eleitoral, transferiu a capital para o Palácio do Planalto e integrou o Brasil. Vidigal explica que : “a Constituição de 1891 já previa que a capital do Brasil deveria ser no Planalto Central e já tinha tido, inclusive, missões de reconhecimento do território e delimitação do Distrito Federal”. Ela acrescenta que essa transferência também visava aumentar a segurança nacional, porque, na opinião de JK, uma capital em região litorânea não era o mais seguro para o país, além que a transferência da capital para o centro do país significava desenvolver novas regiões.
Outra coisa prometida em sua campanha eleitoral era o Plano de Metas, que, na prática, funcionaria como uma espécie de revolução industrial brasileira. As 30 metas foram distribuídas entre os setores de energia, transporte, alimentação, indústria de base e educação. Segundo o livro O Desenvolvimento Econômico Brasileiro (Vozes, 1990) do economista e historiador Argemiro Jacob Brum, JK atraiu US$2,18 bilhões em investimentos, com isso, foram construídas usinas, como Furnas e Três Marias, rodovias, bases da indústria naval. Ele também atraiu indústrias automobilísticas para o país. Durante esse período, o crescimento econômico do país era, em média, 5,2% ao ano.
“Juscelino sempre fez tudo pelo Brasil. Ele foi uma pessoa que dedicou tudo; tudo que ele teve, ele entregou para o país.”
Lea Vidigal
Esses investimentos tinham como base a inflação constante da época. O financiamento do Programa de Metas dependia de emissões de moeda, déficits e endividamento externo. O Fundo Monetário Internacional (FMI) pressionou o governo JK pelas condições econômicas do Brasil, mas ele não cedeu e, em junho de 1959, rompeu com o FMI.
Entretanto, Vidigal afirma que “o grande endividamento brasileiro aconteceu de 1964 para frente, quando ocorreu o golpe e teve um processo de financiamento do desenvolvimento baseado no endividamento externo”.

Ditadura: cassação e morte de JK
A relação de JK com a ditadura iniciou de forma ambígua. No dia 31 de março de 1964, quando aconteceu o golpe cívico-militar que deu início à ditadura, Kubitschek recusou participar da ação. Entretanto, algumas horas depois, ele lançou a nota: “A legalidade está onde estão a disciplina e a hierarquia. Não há legalidade sem forças armadas íntegras e respeitadas em seus fundamentos […]. Ainda é tempo de restabelecer a disciplina e a hierarquia por amor à Pátria, aos brasileiros e a Deus”.
Segundo dados da Secretaria Especial de Comunicação Social do Senado Federal, JK apoiou a candidatura de Castelo Branco ao governo, mas isso não foi o suficiente para convencer os militares da chamada “linha-dura” de que estava ao lado deles. Em junho de 64, Kubitschek foi cassado e teve seus direitos políticos retirados por dez anos. Segundo Vidigal, a atitude se relaciona com a visão de que JK seria um candidato forte e apoiado pela população, representando a via democrática.

Entrevistada pela J.Press, Maria Cecília Adão, mestre e doutora em História pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp) e relatora do Caso JK na CEMDP, afirma que JK estava com pouco dinheiro na época e passou a contar com o apoio de amigos para se manter — o que afetou sua saúde mental, deixando-o deprimido.
A historiadora também explica sobre o controle que o governo tinha sobre os movimentos de JK: “Há relatos de que tanto ele quanto pessoas que viviam ao seu redor tinham seus telefones grampeados. Então, ele era muito vigiado, tanto no Brasil quanto no exílio”.
Em 1967, após retornar de seu exílio, JK se uniu em uma aliança com Carlos Lacerda – seu adversário histórico – e com João Goulart, o que gerou a formação da chamada Frente Ampla. O movimento defendia eleições diretas, redemocratização e retomada do desenvolvimento no país. A iniciativa foi extinta pelo governo militar em abril de 1968. Com o AI-5, em dezembro do mesmo ano, Lacerda também teve seus direitos cassados.
Kubitschek se afastou da política por alguns anos e dedicou-se à sua família e à escrita, e passou a viver em uma fazenda em Minas Gerais.
Em agosto de 1976, JK morreu em um suposto acidente de carro na Rodovia Dutra. O caso gerou comoção pública e ele foi sepultado em Brasília acompanhado por um cortejo de 100 mil pessoas. O ato foi visto como um desafio à legislação da época, que proibia reuniões populares ao redor de indivíduos punidos pela ditadura.
O caso da morte de JK foi reconhecido como assassinato pela ditadura militarem 29 de maio de 2026. A CEMDP aprovou o relatório escrito por Maria Cecília Adão por seis votos a favor e uma abstenção.
“O caso JK demonstra que, mesmo aqueles que não pegaram em armas e que eram vistos como uma possibilidade política democrática, foram mortos, perseguidos e assassinados.”
Maria Cecília Adão

A historiadora cita também uma reunião de JK com Ernesto Geisel, que ocorreu em um hotel pertencente a um amigo do general Burnier. Geraldo Ribeiro, o motorista de JK, sentiu o carro estranho ao sair do hotel e perguntou aos funcionários se alguém havia mexido no veículo, todos negaram. O “acidente” ocorreu três minutos após a saída do hotel.
Um ônibus passava no local no mesmo momento e os passageiros afirmaram não terem visto um acidente. No relatório do motorista do ônibus, ele explica que precisou ir até um posto pedir socorro, mas que os policiais chegaram em vinte minutos, o que só seria possível se eles estivessem a caminho quando o acidente aconteceu. Além disso, nos documentos, a morte foi registrada às 20h50, quase três horas após o acidente .
O relatório destaca que não houve a identificação de qual carro do Instituto Médico Legal (IML) transportou os corpos e a estrada não foi devidamente isolada, com a retirada dos veículos de suas posições originais.
Outro ponto destacado foi um boato, disseminado 15 dias antes do acidente, que JK havia morrido da mesma forma em que ele morreu posteriormente. No dia 7 de agosto, a amiga de JK, Vera Brant, relatou ter recebido ligações de dois jornalistas questionando se o ex-presidente havia morrido na estrada Rio-São Paulo. A mulher ligou para um posto de gasolina a dez minutos da fazenda de JK para verificar a informação e o funcionário Marcos atendeu o telefone e foi até a fazenda verificar se o ex-presidente estava vivo. Ele retornou a ligação para Vera informando que Kubitschek estava vivo e a esperando. Quando Vera questionou a opinião de JK sobre o boato, ele afirmou que faria mais ao seu país estando morto.

Serafim também destacou o silêncio de Sarah após a morte de seu marido, o que ele acreditava estar relacionado com ameaças à dignidade da ex-mulher de JK. Ambos os relatos estão no relatório da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo ‘Rubens Paiva’.
[A capa desta matéria usa uma imagem editada do Wikimedia Commons]
