por João Zogobi (jvznogueira@usp.br)
Hoje (5) o forró de abertura do Foro de Teresina, podcast de política da Revista Piauí, tocou no auditório da Cinemateca Brasileira, em São Paulo. A edição ao vivo do programa ocorreu no primeiro dia do 10º Festival Piauí de Jornalismo, que marca também os 20 anos da revista. Com um humor característico ao Foro, os apresentadores Ana Clara Costa, Celso Rocha de Barros e Fernando de Barros e Silva seguiram o lema da revista e abordaram uma perspectiva “dona do próprio nariz” acerca dos últimos acontecimentos políticos no Brasil.
Com uma análise ímpar e independente dos acontecimentos que colocaram a política brasileira “no olho do furacão” — tema desta edição do Festival —, os jornalistas analisaram os impactos e as interligações entre as eleições e os vazamentos do caso Master, que protagonizaram as manchetes da imprensa na última semana.
Também foram tópicos do programa o resultado das últimas pesquisas eleitorais, pela tensão entre ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e pelo crescimento galopante do candidato à presidência Augusto Cury.
Os números se enganam?
“A crise do STF é uma crise da eleição”, afirmou Celso Rocha de Barros, que deu início à conversa na Cinemateca, com uma análise dos resultados recentes das pesquisas eleitorais Quaest e DataFolha. Na escalada das campanhas à Presidência da República, Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) ainda têm 7 pontos percentuais de distância entre si na disputa do primeiro turno, que acontece no dia 4 de outubro.
Na pesquisa do DataFolha, ambos os candidatos obtiveram resultado igual ao da pesquisa de agosto, sendo 39% de intenções de voto lulistas e 37% bolsonaristas. Já a pesquisa Quaest mostra Lula com 37% e Flávio com 29%, aumentando um ponto percentual de distância na vantagem do petista. Segundo Celso, esse afastamento entre os percentuais dos candidatos pode crescer com uma futura investida do PT contra Flávio, feita com informações prejudiciais para o candidato do PL.
O cientista político ressaltou uma possível alteração na distribuição geográfica dos votos. Celso suspeita, seguindo tendências das pesquisas, que Flávio Bolsonaro deve ganhar mais votos no nordeste, enquanto Lula pode conquistar mais espaço no sudeste, mesmo sem o retrospecto tradicional de vitórias do petismo entre o eleitorado nordestino. Apesar de não garantir uma vitória bolsonarista no nordeste, os números indicam um acontecimento importante para Flávio: a saída do caso Dark Horse do foco principal.
“Os números em si não são ruins, mas as pesquisas indicam que os acontecimentos do Dark Horse foram praticamente apagados e o quadro voltou a ser como era antes dos vazamentos dos áudios de Vorcaro e Flávio.”
Celso Rocha
Crescimento (in)orgânico
Apatia, exaustão e desconfiança caracterizam a percepção da população sobre as eleições, segundo Celso. Mas um candidato que apareceu na contramão dessa tendência chama a atenção do apresentador. “A ascensão de Augusto Cury [nas redes sociais] claramente não foi orgânica”, apontou. O jornalista se refere ao crescimento galopante do candidato do AVANTE, que somou 2,4 milhões de novos seguidores em 72 horas, superando recordes de Donald Trump e Neymar.

Diferentemente do Presidente norte-americano, Cury quer se desenhar enquanto uma saída de terceira via “meio coach e meio religiosa”, diz Celso, que entende o candidato como forte apoiador de Flávio Bolsonaro em um segundo turno.
O jornalista da Piauí aponta uma “grande coincidência” no fato dessa ascensão ocorrer após a declaração de apoio de Pablo Marçal a Cury, e desconfia do uso de mecanismos que, quando comprados, destinam seguidores a uma conta específica.
Apesar de crescer nas redes sociais, Cury, que construiu carreira como autor de livros de autoajuda antes de lançar-se à política, ainda não alcança outros dois principais candidatos, pontuando 8% no DataFolha e 10% na Quaest em pesquisas para o primeiro turno.
Um balanço horizontal
Após o balanço feito sobre o escritor, Ana Clara Costa colocou em perspectiva os bastidores das campanhas de Flávio e Lula, fazendo um balanço à esquerda e à direita.
A jornalista apontou uma percepção errônea da estratégia de Lula, que imaginava lidar com mais uma campanha normal de reeleição, seguindo uma “estratégia clássica de faturar nos estados em que mais entregou [obras e feitos políticos]”. Para ela, por pensarem que se tratava de uma campanha “usual”, a equipe petista foi pega de surpresa com os vazamentos do lobby feito por Fábio Luís Lula da Silva, filho do presidente, acusado de privilegiar empresas na compra de canabidiol pelo governo.
A campanha bolsonarista também vai mal, segundo a jornalista. A percepção de Ana Clara é que a “indefinição de marketeiros, falta de centralização de campanha, focados em se defender do caso Dark Horse” caracterizam a campanha de Flávio.

Segundo ela, um “presente” de André Mendonça, ministro do STF, tornou a campanha bolsonarista mais leve, interessante e possivelmente tensa: o vazamento de áudios que envolvem o ministro Alexandre de Moraes e uma interação próxima com Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master. Ela aponta que, apesar da oposição ferrenha de Flávio a Moraes, dessa vez o candidato optou por não se envolver no caso porque, justamente quando os áudios do ministro foram vazados, descobriu-se que o filho de Bolsonaro recebeu mais dinheiro de Vorcaro do que se imaginava.
Antes, o presidenciável havia afirmado que recebeu dinheiro do banqueiro somente até março de 2025. Entretanto, o suposto financiamento do filme Dark Horse, uma biografia de Jair Bolsonaro, durou até setembro, o que trouxe à tona mais um capítulo da “Novela Master”. Para Ana Clara, isso levou Moraes e Flávio a ficarem, pela primeira vez, de um mesmo lado: o da ânsia de finalizar as investigações do Banco Master.
“O Flávio em si está tentando apaziguar a situação com o Supremo, sinalizando um interesse convergente com Moraes na estratégia de acabar com o caso Master, que coincidentemente é protagonizado por essas duas figuras.”
Ana Clara Costa
Um por todos, nem todos por um
A crise protagonizada pelo Banco Master e pelo STF escancara, segundo Ana Clara, uma tendência da corte máxima do país: a de enfrentar “inimigos” em conjunto. No entanto, a instabilidade atual tem um novo formato, já que outros ministros do STF não enxergam com bons olhos o fato de Mendonça ter supostamente investigado Alexandre de Moraes.
Ana Clara fez uma retrospectiva e mostrou que, em outros momentos, o STF se uniu para defender membros da corte atacados. Seja no chamado Inquérito das Fake News, criado para investigar ataques a ministros, ou na quebra de sigilo da fonte de um jornalista maranhense que criticou o ministro Flávio Dino, a tendência do órgão, conforme aponta Ana Clara, é de união.
A jornalista esclarece que o próprio ministro André Mendonça não tem as mãos totalmente limpas. Ela explica que, depois de virar ministro, Mendonça criou um instituto que recebeu, em seu primeiro ano de funcionamento, 10 milhões de reais em contratos com governos aliados à direita.

De acordo com Ana Clara, fato é que Mendonça se vê isolado após fazer um ato de “fogo amigo” com seu colega de corte e que ele “não é a pessoa que vai quebrar a unidade do STF hoje”. Por fim, a jornalista esclareceu que esses acontecimentos, brigas e desentendimentos podem ser muito importantes para que “a gente descubra o que está oculto”.
O episódio foi calorosamente aplaudido pela plateia do 10º Festival Piauí de Jornalismo.
[Imagem da Capa: Carol Ziemer]
