Por Laura Cristofoletti (lauracristofoletti@usp.br)*
Flávio Nantes Bolsonaro (PL) é uma das peças centrais da disputa pelo Palácio do Planalto nas eleições de 2026. Em oposição ao seu principal concorrente, o atual presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o candidato do PL enfrenta sua primeira corrida presidencial, na qual se posiciona não apenas como defensor de seus próprios méritos, mas também como memória material do legado de seu pai.
Filho do ex-presidente Jair Messias Bolsonaro (PL), o atual senador pelo Estado do Rio de Janeiro afirmou, em seu primeiro ato de campanha, querer dar continuidade aos projetos do patriarca, que permanece em prisão domiciliar desde novembro de 2025 por tentativa de golpe de Estado pelos atos de 8 de janeiro de 2023. Em seu dossiê de propostas, lemas como “Deus, Pátria e Família”, popularizados pela campanha de seu pai, também aparecem como foco de seu plano de governo.
A pré-candidatura de Flávio foi anunciada em dezembro de 2025, após meses de discussão entre os aliados do ex-presidente acerca de quem seria o responsável por substituir Bolsonaro em sua chapa. O anúncio ocorreu por meio das redes de Flávio, que afirmou ter o apoio do pai e prometeu “libertar o povo deste cativeiro”, referindo-se ao atual governo do presidente Lula.
O início de um projeto familiar
O primeiro filho de Jair Bolsonaro nasceu no dia 30 de abril de 1981 em Resende, no Rio de Janeiro, anos antes do patriarca da família se tornar deputado federal. Foi nessa mesma cidade em que Flávio se formou em direito, pela Universidade Cândido Mendes (Ucam), e então iniciou sua carreira política, como assistente técnico de gabinete do então Partido Progressista Brasileiro (PPB), mesma legenda de seu pai, aos 19 anos.
Em 2002, Flávio disputou sua primeira eleição para a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), lugar no qual permaneceria por quase duas décadas. O candidato se tornou o mais jovem deputado estadual eleito da legislatura 2003/2007, com apenas 21 anos, e assumiu o cargo pela sigla do Partido Progressistas (PP), o primeiro dentre os quatro partidos aos quais o atual senador já foi filiado.
Durante seus quatro mandatos como deputado estadual, Flávio assumiu os cargos de presidente da Comissão Permanente de Defesa Civil, vice-presidente da Comissão Permanente de Segurança Pública e Assuntos de Polícia e membro efetivo da Comissão de Direitos Humanos e Cidadania da Alerj. O político ainda foi responsável por criar a Comissão Especial de Planejamento Familiar da assembleia, pauta que persiste como uma das principais bases de seu plano de governo até os dias de hoje.
Nestes primeiros vinte anos de carreira, Flávio também foi alvo de seus primeiros escândalos. Segundo investigação da BBC News, à época em que trabalhava no gabinete do PPB, cargo de 40 horas semanais presenciais em Brasília, ele também estaria cursando Direito em Rezende e ocupando um estágio voluntário duas vezes por semana no Rio de Janeiro. A carga horária, no entanto, não combinava com as exigências físicas de seu trabalho na Câmara dos Deputados.
De acordo com a reportagem, embora o cargo de Flávio no PPB conste no Portal de Transparência da Alerj, a Defensoria Pública afirma não haver provas concretas de que ele trabalhou formalmente no local, o que o reduziria a um suposto “funcionário fantasma”. Antes de ocupar essa posição, a ex-esposa de Jair Bolsonaro, Ana Cristina Siqueira Valle, havia sido responsável pela mesma função.
Ainda em seu turno como deputado estadual, o candidato foi acusado de participar de um esquema de “rachadinhas”, envolvendo seu assessor da época, Fabrício Queiroz. Neste caso, Queiroz e Flávio foram apontados em um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras como fontes de transações suspeitas de mais de um milhão de reais, dinheiro esse que, segundo promotores, faria parte de um esquema de lavagem de dinheiro.
Dois anos após as acusações oficiais, em 2020, Flávio e Queiroz foram denunciados novamente pelo Ministério Público por organização criminosa, lavagem de dinheiro, peculato e apropriação indébita, denúncia essa que foi anulada, no ano seguinte, pela 5ª Turma do Superior Tribunal de Justiça. No entanto, em 2023, o Ministério Público enviou um recurso ao Superior Tribunal de Justiça, que mencionava desvios de verbas parlamentares supostamente promovidos pelo gabinete do então deputado.
A investigação foi enviada ao Supremo Tribunal Federal (STF), só recebendo atualizações em fevereiro de 2025, quando o ministro Gilmar Mendes negou a destinação de recursos do Ministério Público para a apuração da investigação, permitindo apenas que o processo tramitasse sob segredo de justiça, mas sem passar pela instância do STF. Em abril deste ano, Flávio se defendeu das acusações e acusou seu ex-assessor de “atuar sem seu aval”, afirmando que tais acusações seriam uma “tentativa de destruir sua reputação”. A ação judicial permanece sem conclusão até os dias de hoje.
Em seu período na Alerj, o atual candidato protocolou 140 Projetos de Lei e 14 Propostas de Emendas à Constituição Estadual do Rio de Janeiro. O tema da segurança pública dominou cerca de 70% das medidas apresentadas segundo levantamento da Folha de S. Paulo, com mais de 70 pronunciamentos dedicados à defesa de policiais, bombeiros e agentes penitenciários do estado. Áreas como Saúde e Educação representam apenas 3% dos discursos do então deputado.
Trajetória no Senado
Após se candidatar à prefeitura da capital carioca em 2016, disputa na qual terminou em quarto lugar, o Flávio foi eleito ao Senado pelo estado do Rio de Janeiro nas eleições de 2018, com mais de 30% dos votos. O candidato concorreu pela legenda do Partido Social Liberal, mesmo partido de seu pai, no ano em que se tornou presidente da República, e chegou, nos dias atuais, ao seu oitavo e último ano no cargo, renunciando após o anúncio de candidatura.
Desde 2019, Flávio teve apenas um projeto de lei aprovado no Congresso: o PL 3.190 de 2023, que altera a lei 13.636 acerca do Programa Nacional de Microcrédito Produtivo Orientado, proposta que recebeu vetos do presidente Lula que ainda estão sendo apurados pelo Senado. Dentre as ideias rejeitadas, concentram-se seus projetos para a Segurança Pública, área de foco do senador em sua campanha presidencial.
O caso mais recente dentre as recusas centra-se na classificação de facções criminosas, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), como organizações terroristas, que se tornou assunto após uma viagem realizada pelo senador a Washington em maio deste ano. Nesse evento em específico, Flávio pediu ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para que este declarasse que as organizações brasileiras se enquadram na lista de organizações terroristas rotuladas pelo governo americano, de forma a apoiar o “PL Antifacção” defendido pelo senador.
À época, a votação para a aprovação do projeto já havia ocorrido e a inserção das facções na “lista do terrorismo” não havia sido apoiada. A visita de Flávio a Trump, no entanto, foi efetiva. Dias após o encontro, Trump anunciou a adição do PCC e do CV à lista, decisão essa que não desencadeou mudanças na decisão tomada pelo Senado meses antes.
A campanha presidencial
O processo de decisão para definir quem seria o sucessor do bolsonarismo no Brasil se iniciou meses antes do anúncio de Flávio. Com a condenação de Jair Messias em setembro de 2025 e sua eventual prisão em novembro, a chapa de extrema-direita passou a alçar diferentes nomes para sua substituição nos holofotes do movimento, como o de Tarcísio de Freitas (Republicanos) e o da ex-primeira-dama e candidata ao Senado pelo Distrito Federal, Michelle Bolsonaro (PL).
Dentre os filhos do ex-presidente, Flávio ganhou espaço na disputa política após a queda no desempenho entre o público em relação ao seu irmão mais novo, Eduardo Bolsonaro. O então deputado federal teve seu mandato cassado em dezembro de 2025 por excesso de faltas, após se mudar para os Estados Unidos dez meses antes. A estadia de Eduardo no exterior foi acompanhada de uma postagem feita em suas redes sociais, na qual afirmou sua permanência em solo americano como uma tentativa de evitar uma possível ordem de prisão pelo ministro Alexandre de Moraes, do STF.
O anúncio oficial de sua pré-candidatura ocorreu no dia 5 de dezembro de 2025, por meio de uma postagem na rede social X. No texto, Flávio afirmou ter a bênção do pai para “dar continuidade ao seu projeto de nação”, com um ataque ao atual governo que, segundo ele, “abandonou seu próprio país e roubou seus aposentados”. A declaração veio após o senador ter atestado em novembro não ter a intenção de disputar a corrida presidencial.
Desde então, o candidato tem apostado na reformulação dos projetos de seu pai como foco de sua campanha. Segundo o SBT News, em seu plano de governo oficial publicado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) , as palavras “governo Bolsonaro” aparecem 20 vezes em suas 76 páginas, com destaque às propostas de ampliação das escolas cívico-militares, à flexibilização do licenciamento ambiental e à retomada do programa de titulação de terras, todas já promovidas pela campanha de seu pai.
O plano é dividido em nove eixos temáticos: Brasil Sem Medo, Brasil Por Elas, Brasil Sem Fila, Brasil Mais Barato, Brasil Que Prepara, Brasil Que Prospera, Brasil Que Cresce, Brasil Que Cumpre a Constituição e Brasil Que Não Volta Atrás. O foco na segurança pública dado pelo candidato também é dado pela campanha de seus adversários, como Lula e Augusto Cury (Avante), mas diferencia-se pelo caminho escolhido para o combate à criminalidade.
Neste âmbito, Flávio apoia a redução da maioridade penal, a castração química para condenados por crimes sexuais e a criação de 500 mil vagas em presídios. A escolha destes caminhos para a pauta da segurança no país, no entanto, também diferencia-se das rotas optadas por seus companheiros de campanha, como a exemplo de Douglas Ruas, candidato do PL ao governo do Rio de Janeiro. Segundo o Brasil de Fato, Ruas aponta que a superlotação dos presídios é ineficaz para a “neutralização de redes criminosas”.
Quanto à esfera econômica, o presidenciável apoia um “tesouraço” nos gastos públicos da máquina governamental, com a intenção de reduzir desperdícios e permitir a diminuição nas taxas de impostos cobradas da população. Neste ponto do plano de governo, Flávio ressalta um aumento de 13 pontos percentuais na relação dívida/PIB (Produto Interno Bruto) durante o atual governo Lula e o compara a uma redução de quatro pontos no mesmo percentual ocorrida na gestão de seu pai, Jair Bolsonaro.
A campanha de Flávio Bolsonaro, no entanto, chega ao mês anterior ao primeiro turno com a continuidade de um escândalo que marca o processo eleitoral de 2026: a conexão do candidato do PL ao banqueiro Daniel Vorcaro, preso em novembro de 2025 após ser acusado de operar um esquema de fraude e gerar um rombo de mais de R$ 47 bilhões ao Fundo Garantidor de Crédito (FGC). Segundo investigação do Intercept Brasil, Vorcaro teria negociado com Flávio o envio de R$ 134 milhões para financiar a produção do filme “Dark Horse”, biografia de seu pai, Jair Bolsonaro.
Registros de conversas entre o político e o banqueiro, incluindo áudios enviados no dia anterior à prisão do segundo, foram revelados pelo Intercept Brasil no dia 13 de maio de 2026, período da pré-campanha de Flávio, que optou por permanecer na corrida eleitoral e desmentir as acusações. Desde então, o deputado federal Mário Frias (PL-SP), aliado político de Flávio, também foi apontado como cúmplice dos crimes, sendo acusado de repassar R$2 milhões oriundos de emendas parlamentares com destino à produção do longa-metragem.
No dia 22 de julho, o ministro André Mendonça, do STF, relator do Caso Master, ordenou a abertura de uma investigação contra Flávio, a fim de apurar possíveis financiamentos ilícitos no filme de Jair Bolsonaro. O pedido do ministro só se tornou público após a quebra do sigilo da acusação no dia 10 de setembro, determinada pelo ministro Edson Fachin. Após a revelação, Flávio permaneceu negando qualquer irregularidade relacionada ao filme de seu pai, afirmando que o tema estava “mais que esclarecido”.
Até o dia 17 de setembro, a investigação do caso já abrange outras transações suspeitas ligadas ao filme “Dark Horse” também, com o envolvimento do Instituto Conhecer Brasil, ONG de Karina Ferreira da Gama, dona da produtora responsável pelo longa. De acordo com o Intercept Brasil, uma emenda do deputado Mário Frias destinada à organização de Karina poderia ter sido utilizada em um esquema de lavagem de dinheiro, no qual verbas públicas seriam usadas para o financiamento de “Dark Horse”. A empresária ainda estaria sendo acusada de ceder dados de usuários do Wi-Fi livre de São Paulo para empresas de “marketing digital”, com o objetivo de enviar mensagens promocionais de serviços terceirizados.
Como parte de sua campanha presidencial, o candidato realizou um ato na Avenida Paulista, no feriado do dia 7 de setembro, data em que seu pai também promovia eventos de campanha durante suas últimas corridas presidenciais. Flávio utilizou o palanque para relembrar o público do aniversário de oito anos do atentado sofrido por seu pai em Juiz de Fora, no dia 6 de setembro de 2018. “Ontem, completaram 8 anos e ele está mais vivo do que nunca”, afirmou, além de prometer “declarar guerra aos narcoterroristas”, referindo-se à defesa do “PL Antifacção”.
Flávio também defendeu a posição do ministro André Mendonça, que ordenou, no dia 1 de setembro, a revelação pública de mensagens extraídas do celular de Vorcaro com Alexandre de Moraes, que está sendo julgado em sua própria plenária com o fim de se decidir quanto à execução de uma investigação de sua conexão com o banqueiro. O candidato do PL ainda conectou Moraes a uma aliança com Lula, afirmando que “quem vota em Lula está votando em Alexandre de Moraes”.
[Imagem da Capa: Andressa Anholete/Agência Senado]
*Esta reportagem foi produzida pela repórter Laura Cristofoletti sob a supervisão da diretora de redação Gabriella dos Santos




