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Muito além do barulho: por que o ronco frequente pode ser um sinal de perigo

A normalização do ronco crônico, cria o panorama de um país que negligencia a saúde do descanso e esconde a epidemia da apneia do sono
Foto de mulher deitada na cama com balão saindo da sua cabeça.

Por Juliana Lara (juliana.llrodrigues@usp.br) 

No final de outubro de 2025, Shaquille O’Neal, ex-astro do Los Angeles Lakers, participou de uma campanha massiva de conscientização contra a apneia do sono chamada “Don’t Sleep on OSA”. Essa preocupação em alertar as pessoas, veio após participar de um estudo da Universidade de Harvard e, descobrir que sofria de Apneia Obstrutiva do Sono (AOS) em grau severo, chegando a parar de respirar dezenas de vezes por hora enquanto dormia. 

Foto do Shaquille O’Neal olhando fixo para a câmera com uma escada e vasos ao fundo.
Quando personalidades influentes compartilham seus diagnósticos, elas ajudam a tirar a doença da invisibilidade, incentivando pessoas que sofrem com os mesmos sintomas a buscarem ajuda 
[Imagem: Reprodução/Lilly]

O veterano do basquete decidiu se submeter aos exames após os alertas de sua ex-esposa, incomodada com seus fortes roncos. Sua revelação chocou o público, mas infelizmente a realidade de Shaq se assemelha à postura de diversos brasileiros diante dos ruídos noturnos. O Brasil consolidou a perigosa mania de normalizar o colapso das vias aéreas durante o sono, o que camufla um apagão de diagnósticos e uma alta quantidade de casos da doença negligenciadas. De acordo com a Sociedade de Cardiologia do estado de São Paulo, cerca de 49 milhões de brasileiros são apneicos e 85% deles não identificam o distúrbio. 

O que é e como se manifesta a apneia  

A apneia do sono é uma condição clínica caracterizada por interrupções repetitivas da respiração durante o sono, que duram, no mínimo, dez segundos. O relaxamento natural da musculatura faz com que as estruturas das vias aéreas superiores se fechem, provocando a queda da língua e o deslocamento posterior da mandíbula.  Essa retração obstrui total ou parcialmente a passagem de ar pela boca e pelas narinas em direção à traqueia, o que dificulta a respiração. 

Quando o ar deixa de chegar aos pulmões de forma adequada, os níveis de oxigênio no sangue caem. Segundo a médica e psiquiatra  Dra. Carolina Lucas, o cérebro percebe essa queda e provoca um microdespertar para reabrir as vias respiratórias. Em resposta ao comando do sistema nervoso, a musculatura da garganta retoma a força que mantém o canal aberto. Em seguida, o indivíduo esboça uma reação e volta a respirar, até que o sono reapareça, a musculatura relaxe novamente e o ciclo se repita dezenas de vezes.

Quanto aos sintomas, o mais aparente e frequente de todos é o ronco alto, quase sempre acompanhado por episódios de engasgos ou sensação de asfixia. Contudo, por atrapalhar consideravelmente a rotina de sono do indivíduo, a apneia também provoca  manifestações durante o dia como acordar com dor de cabeça, boca seca e uma sensação de cansaço extremo, mesmo tendo passado a noite inteira na cama. 

A fadiga constante pode interferir nas atividades básicas do dia a dia, na falta de foco, dificuldade de concentração e falhas constantes de memória, por exemplo. Esse conjunto de sintomas mostra que a apneia consiste em um colapso que esgota o corpo por inteiro e afeta várias esferas da vida.

Foto de como funciona os mecanismo de respiração no rosto de uma pessoa.
A apneia trata-se de uma condição crônica, que combina fatores genéticos predisponentes, como vias aéreas mais estreitas, com o envelhecimento, que enfraquece a musculatura da garganta 
[Imagem: Reprodução/Wikimedia]

As consequências ocultas

Os desdobramentos da apneia do sono funcionam como um efeito dominó que sobrecarrega silenciosamente todo o organismo, especialmente o sistema cardiovascular. Conforme explica a Dra. Carolina, o processo de microdespertar gera uma descarga imediata de adrenalina, aumento da pressão arterial e aceleração abrupta dos batimentos cardíacos. A repetição dessas descargas químicas todas as noites, dezenas de vezes por hora, como no caso de Renato Moreno, de 55 anos, que tinha 89 paradas respiratórias por hora, faz com que o organismo permaneça em um estado de alerta excessivo e contínuo.

A longo prazo, a presença quase ininterrupta da epinefrina favorece a inflamação crônica dos vasos sanguíneos, a aterosclerose, caracterizada pelo acúmulo de placas de gordura nas artérias, o surgimento de arritmias e a hipertensão arterial persistente. Todo esse cenário eleva os riscos de infarto agudo do miocárdio, insuficiência cardíaca, Acidente Vascular Cerebral (AVC), dentre outros problemas cardiovasculares.

O cansaço decorrente de uma noite de sono ruim coloca o paciente em risco, pois aumenta significativamente a probabilidade de acidentes graves no trabalho e no trânsito. Até mesmo a dinâmica familiar é afetada, já que o ronco alto prejudica o descanso de quem compartilha o mesmo teto, logo, há toda uma crise na qualidade de vida.

Desenho de três corações, sendo dois deles cortados pela metade para mostrar sua anatomia.
As artérias coronárias dependem de um fluxo contínuo de oxigênio, a interrupção abrupta desse suprimento força o ventrículo esquerdo a trabalhar além de sua capacidade 
[Imagem: Reprodução/Wikimedia]

O sono em crise: a negligência coletiva 

Uma das características da apneia do sono é que ela é uma doença que se esconde no silêncio, ou seja, seus principais sintomas ocorrem enquanto a pessoa dorme e não causam dor imediata, causando uma banalização do problema e um “apagão” de diagnósticos.  Segundo uma pesquisa divulgada pelo Âncora 1 cerca de 35% da população possui algum grau de apneia, porém poucos fazem o exame necessário para diagnosticar possíveis distúrbios respiratórios do sono. 

A falta de consciência do próprio sofrimento respiratório e a normalização cultural de manifestações graves, como o cansaço frequente (comumente associado ao estresse ou envelhecimento) levam a sociedade a empurrar o problema para debaixo do tapete. Renato Moreno, supervisor de supply chain, por exemplo, só descobriu o distúrbio aos 48 anos, quando passou por uma mudança drástica de rotina: “Por incrível que pareça, aconteceu quando me separei, fui compartilhar apto com amigos e eles ficaram bem preocupados com o volume do ronco e as paradas respiratórias”, relata. 

Mulher com as mãos na cabeça deitada ao lado de homem.
O esgotamento da tolerância do cônjuge em relação aos ruídos noturnos funciona como o principal gatilho para que haja uma busca por um especialista
[Imagem: Reprodução/Pexels]

Essa falta de autopercepção apontada por Moreno é alimentada por um hábito comum: a banalização do ronco. Frequentemente tratado como uma piada ou mero incômodo social, o ruído é, na verdade, um sinal de uma via aérea colapsada. A persistência em ignorar esse sinal adia a busca por ajuda médica e prolonga o sofrimento silencioso. 

O tratamento adequado melhora significativamente a qualidade de vida, “vivo 100% diferente, e realmente descansado e consigo participar de atividades sociais sem dormir. Meu maior arrependimento, é não ter tido o conhecimento antes, que o ronco pode esconder o risco de apneia e as suas consequências”, destaca  Moreno. Sua história é o retrato de um cenário onde a falta de informação correta ainda é um obstáculo entre o paciente e um sono restaurador. 

Do diagnóstico aos caminhos de tratamento 

O diagnóstico padrão é feito por meio de um exame chamado polissonografia.  Realizado tanto em laboratórios quanto na casa do paciente, esse procedimento utiliza sensores para monitorar diversos aspectos, como as ondas cerebrais, o fluxo de ar, os níveis de oxigênio, os batimentos cardíacos e os movimentos corporais, de acordo com a Dra. Carolina.

 A partir desses registros, os médicos estabelecem o Índice de Apneia-Hipopneia (IAH), que quantifica a gravidade do quadro: menos de 5 interrupções por hora é normal, de 5 a 14 configura um grau leve, de 15 a 29 um moderado e 30 ou mais eventos a cada 60 minutos determina uma apneia grave. 

Após a determinação do grau da condição, busca-se o tratamento adequado. Para os casos moderados e graves, uma das intervenções mais recomendadas é o uso do aparelho CPAP (Pressão Positiva Contínua nas Vias Aéreas), um equipamento que fornece um fluxo constante de ar por meio de uma máscara. Embora o acesso ao aparelho e à polissonografia tenha se ampliado gradualmente no Brasil, o Sistema Único de Saúde (SUS) ainda enfrenta desigualdades regionais importantes, que geram filas de espera . 

Para quadros leves e moderados, existem alternativas sob medida, como os aparelhos intraorais, desenvolvidos por dentistas, que projetam a mandíbula levemente para a frente para evitar a obstrução. O desenvolvimento da tecnologia também permitiu que relógios inteligentes contribuíssem para o monitoramento da doença, apesar de não substituírem a consulta médica, conforme a fala de Carolina: “Eles ajudam muito mais do que atrapalham. Esses dispositivos conseguem identificar alterações que podem sugerir um distúrbio respiratório do sono e incentivar a procura por avaliação médica. Por outro lado, não fazem diagnóstico definitivo”.

Desenho de homem fazendo exame para avaliar sono.
O processo de adaptação exige uma reprogramação do reflexo respiratório natural, fazendo com que o cérebro se acostume gradualmente a receber um fluxo contínuo durante o repouso 
[Imagem: Reprodução/ Wikimedia]

A crise da má qualidade do sono 

O apagão de diagnósticos disfarça uma crise global na qualidade do sono da população, que atinge  proporções alarmantes no Brasil. Segundo dados da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), mais de 70% da população brasileira enfrenta algum tipo de problema para dormir, como insônia ou a própria apneia. A situação é tão crítica que alguns especialistas, como o pneumologista Geraldo Lorenzi Filho, diretor do Instituto do Sono do Incor, já classificam esse déficit coletivo de descanso como uma verdadeira epidemia. 

Esse quadro é impulsionado por um conjunto de fatores que, com o tempo, se tornaram comuns na rotina do homem contemporâneo. A razão ocupante definitiva do primeiro lugar no ranking, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), é a hiperconexão, o  uso indiscriminado de telas de smartphones e computadores até o último minuto do dia. A exposição à luz azul desses aparelhos inibe a produção natural de melatonina, hormônio relacionado à regulação do ciclo de sono e vigília, o que retarda o início do sono e mantém o cérebro em um estado de alerta artificial. 

Lata de energético monster encima de uma pilha de grãos de café.
Cobranças por alta performance constante estimulam uma maior ingestão de cafeína e bebidas energéticas, substâncias que sabotam os mecanismos biológicos necessários para adormecer 
[Imagem: Reprodução/ Pexels]

Além disso, a dependência de equipamentos eletrônicos potencializa o desgaste de mentes já sobrecarregadas pelo estresse e pela ansiedade associados ao estilo de vida atual. Em uma era na qual a fronteira entre  trabalho e descanso se tornou tênue, e há uma cobrança por produtividade constante , o ser humano se enquadra na “sociedade do cansaço” — como diz o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han —, vivendo em um estado de exaustão quase constante, mas se recusando a compreender a importância do descanso correto. 

Em meio a esse cenário, a Associação Brasileira do Sono (ABS) reforça a importância da higiene do sono, um conjunto de práticas diárias voltadas a favorecer a regulação do relógio biológico. Algumas práticas que devem ser adotadas envolvem estabelecer horários rígidos para deitar e acordar, evitar refeições pesadas antes de dormir e, fundamentalmente, criar o hábito de banir os eletrônicos da cabeceira. Trata-se de começar a encarar a qualidade do sono com a gravidade que o tema exige: um pilar de saúde vital e sério.

Mulher deitada abraçando um travesseiro brilhante.
Entre os maiores benefícios de um sono restaurador está a regulação metabólica e hormonal, que reduz diretamente os índices de estresse e estabiliza o humor
[Imagem: Reprodução/ Pexels]

[Imagem da capa: Magnific,  Magnific e Magnific]

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