Por Marimel Feitosa (marimel.afeitosa@usp.br)
Minha vida virou totalmente de cabeça para baixo desde que a Triz, minha amiga de coração e de casa, surtou — literalmente, ela teve psicose por alguns dias — e foi internada na ala psiquiátrica. Eu, que já estava sufocada pela graduação, pelo estágio e pelo trânsito de São Paulo, tive que repentinamente parar tudo para cuidar da minha amiga. O baque, de tão forte, me fez procurar uma saída em um lugar onde nunca antes eu tinha entrado: o transcendente. Logo eu, uma cética de nascença, resolvi me aventurar em locais de culto. Mas sempre com um pé atrás, é claro.
Minha primeira ponte para esse mundo espiritual foi a Mila. Ela também é minha amiga, mas não moramos juntas como eu e a Triz. Mila cresceu em um terreiro de umbanda e me acompanhou na minha consulta com a Yalorixá, a sacerdotisa da religião. Depois de chamar por Orunmilá, o orixá do oráculo, e por Exu, o responsável pelo caminho entre o Aiyê (o mundo material) e o Orun (o plano espiritual), veio então a pergunta:
— O que te traz aqui, Luar?
Eu congelei quando ouvi o meu nome. Parte de mim não acreditava no que estava acontecendo.
— Como funciona o jogo de búzios, Yalorixá?
Minha resposta não combinava em nada com o questionamento feito. A mulher na minha frente visivelmente estranhou a situação.
— Eu jogo essas conchinhas e, dependendo se elas caem com o lado aberto ou com o lado fechado virado para cima, é uma mensagem diferente dos orixás para você.
— Mas sempre foi assim?
E a Yalorixá me contou que os búzios chegaram ao Brasil com a escravização dos iorubás. Esse grupo étnico, que hoje habita regiões da Nigéria, do Benin e do Togo, usa o opelê, um colar aberto feito com oito metades de sementes ou conchas, como forma sagrada de entender o futuro. Em vez de jogar os búzios separados, no culto de Ifá a leitura é feita a partir do formato do opelê depois da queda. O jogo é uma adaptação do Ifá feita pelos africanos escravizados em um contexto de extrema violação de direitos humanos e de proibição de cultos não cristãos.

No meio dessa situação, os terreiros também tiveram que mudar. Na Nigéria, havia cidades em que todos os moradores cultuavam o mesmo orixá, pois acreditavam que, quando a divindade estava na sua vida terrena, ela havia governado aquele território e, assim, os seus descendentes continuaram no comando. Por isso, quem era da cidade nigeriana de Oyó cultuava Xangô, o orixá dos raios e da justiça, e quem era de Ketu, no Benin, cultuava Oxóssi, a divindade das matas. No Brasil, isso não pôde continuar. Pessoas de diferentes origens se reuniam no mesmo lugar, e diferentes orixás eram cultuados. Tudo isso tinha que ser feito por debaixo dos panos, então os terreiros se instalavam longe das cidades ou escondidos dentro da casa de alguém.
— Mas o que me garante que o jogo vai dar certo?
— Minha querida, teve uma vez que Exu passou de povoado em povoado para ouvir a história das pessoas. E ele percebeu que a maioria dos relatos, no fundo, eram a mesma coisa: os problemas e as soluções eram iguaizinhos. Foi assim que Exu descobriu que as trajetórias humanas sempre se repetem. São essas histórias, que chamamos de odus, que eu leio nos búzios.
A Yalorixá olhou para mim com ternura antes de continuar.
— Olha, Luar, saiba que você não está sozinha, alguma pessoa já passou exatamente pelo que você está sentindo.
“Você não está sozinha, alguma pessoa já passou exatamente pelo que você está sentindo”, essas palavras ficaram gravadas no meu coração e a sensação de ouvi-las até hoje é difícil de definir.
O alarme do meu celular toca e eu volto para o presente. Tudo o que vocês ouviram até agora foi a lembrança da minha consulta aos búzios agendada por Mila, que eu revisitei enquanto lavava a louça antes do meu próximo atendimento. Na faculdade, eu aprendi que, segundo o método científico, devemos sempre diversificar as fontes de onde tiramos as informações. E é justamente isso que eu vou fazer agora: comparar as respostas que tive com jogo de búzios com uma leitura de tarô.
A Oraculista, eu encontrei pela própria rede social, e a consulta vai ser on-line. Só espero que a chamada não caia, porque, às vezes, a energia fica instável aqui em São Paulo, principalmente em dias de vento como o de hoje. inda bem que isso não aconteceu agora. Entro na chamada e algo curioso acontece:
— O que te traz aqui, Luar?
A mesma pergunta. Eu congelo de novo. Dessa vez a desconfiança veio acompanhada da surpresa.
— Dá para tirar tarô com um baralho comum, Oraculista?
Eu novamente não respondo à pergunta e a mulher na tela à minha frente estranha a situação que nem a Yalorixá.
— A leitura fica mais limitada, mas sim. Você só perde os arcanos maiores.
E ela me explica que o tarô tem uma estrutura fixa de 56 arcanos menores e 22 arcanos maiores. Os menores são mais diretos, tratam de assuntos cotidianos e lembram a numeração do baralho comum, enquanto os maiores representam aspectos grandiosos e de interpretação complexa.
— Mas o que me garante que a sua leitura não vai estar errada?
Sinto um déjà vu esmagador. Que estranho, parece que eu já falei isso em algum outro momento.
— Olha, Luar, eu estudei bastante e continuo estudando para entender melhor as cartas. E, para ser sincera, eu não vejo o futuro com o tarô, eu interpreto. É diferente. Eu sei que a minha própria visão de mundo afeta a minha leitura. Mas meu objetivo aqui é fazer você sair dessa chamada mais fortalecida do que quando entrou.
Me sinto um pouco envergonhada depois de ouvir essa resposta. Mas vergonha nunca me impediu de fazer perguntas. Então a Oraculista me diz que o tarô surgiu na Itália na época do Renascimento como um jogo de cartas para entreter as famílias nobres. Mas foi só depois que passaram a jogar para ler a sorte. E nesse processo, alguns ocultistas usaram outras disciplinas mágicas, como a cabala (crença esotérica de origem judaica) e a astrologia, para criar novas interpretações para o tarô.
— Dá para usar a astrologia como oráculo?!
— Sim, eu inclusive também sou astróloga.
Um sorriso malicioso invade o meu rosto.
— Mas é impossível as constelações nos influenciarem! Já ouviu falar na precessão dos equinócios? Com o passar dos anos, o começo do outono e da primavera se adianta com relação ao nosso calendário. As estrelas, tirando o Sol, não acompanham esse adiantamento. Então, as constelações do zodíaco vão ficando atrasadas com o restante do céu. E os signos não seguem toda essa movimentação.

A Oraculista revira os olhos sutilmente.
— Os signos não estão exatamente nas estrelas. São divisões que fazemos no círculo que representa o céu a cada 30º. E esses cortes levaram o nome das constelações que estavam mais próximas na época em que a astrologia se desenvolveu. Por isso os signos são fixos e por meio deles fazemos o mapa astral da pessoa.
Fico em silêncio pensando comigo mesma. A mulher preenche o silêncio com respostas a questionamentos que não fiz, mas muito provavelmente faria.
— A astrologia que usamos hoje surgiu na antiga Mesopotâmia, onde atualmente é o Iraque. Os povos de lá estudavam as posições dos astros, os seus movimentos, as épocas do ano para plantio e colheita e também buscavam entender a influência do céu na Terra. Na Idade Média, a astrologia era usada inclusive por alguns reis antes de tomar decisões políticas. Já hoje em dia, ela é usada para causas mais cotidianas. Antes de existir a astronomia, a astrologia era encarada como uma ciência.
— E como o tarô e a astrologia chegaram no Brasil?
A Oraculista ri, eu fico sem entender.
— Boa pergunta! Na astrologia, você precisa saber ler e escrever, além de entender matemática. Por isso, a maioria dos astrólogos eram homens alfabetizados de boa condição financeira. Esse conhecimento mais formal chegou aqui com a importação de livros europeus. Já a leitura de cartas é historicamente praticada por mulheres, principalmente de classe média e que estão precisando de uma fonte de renda. E essas mulheres chegaram mais ao Brasil na imigração europeia do século 19.
Meus questionamentos se esgotam. Ela continua.
— Você tem mais alguma pergunta, Luar?
— Não…
— Então podemos começar a nossa consulta. Por que você quis fazer esse atendimento? Quanto mais eu saber, melhor é a minha leitura no tarô.
Antes mesmo da internação da Triz, eu já sentia essa exaustão. Tem dias que me sinto desconfortável por dormir. Eu poderia fazer tanta coisa no lugar. Digo tudo isso de maneira menos explícita para a Oraculista.
— Vou tirar uma carta para ser um conselho para te ajudar a enfrentar essa situação então. Vamos ver… “A Torre”, ela indica abalo nas estruturas…
Ouço um vento forte, a luz cai e a chamada é interrompida.
*Entrevistas com Inês Barreto, historiadora que pesquisa as práticas de magia no Brasil do século 20, e com Paula Mariá, taróloga e astróloga, que contribuíram para a construção deste texto.
