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‘Em um Bairro em Nova York’: ruas cheias de sonhos e músicas em direção a uma nova era dos musicais hollywoodianos

Números musicais mágicos, representatividade quase bem sucedida, distância da versão original e sueñitos marcam o novo projeto de Lin-Manuel Miranda

CINÉFILOS
02 jul 2021 | Por Rian E. Damasceno (rian.enrique@usp.br)

O musical da Broadway vencedor do principal prêmio estadunidense de teatro, o Tony Awards, recebeu, após uma década, sua adaptação. Em um Bairro de Nova York (In The Heights, 2021), dirigido por Jon M. Chu (Podres de Rico) aborda múltiplas histórias de uma comunidade que enfrenta o calor, a gentrificação e precariedades da área enquanto cada indivíduo lida com seus próprios desejos. 

O filme é narrado por Usnavi calma! O longa explica de onde veio esse nome cômico —, dono de um comércio e interpretado pelo incrível Anthony Ramos (Nasce Uma Estrela). Também são apresentados outros personagens, como Nina (Leslie Grace), Benny (Corey Hawkins), Vanessa (Melissa Barrera), Abuela Claudia (Olga Merediz) e as garotas do salão feitas por Daphne Rubin-Vega, Dascha Polanco e Stephanie Beatriz. Nota-se que o elenco é formado por atores da Broadway, o que faz com que o filme se afaste de obras como Cats (2019).

Servindo-se de ótimos cenários bem utilizados, cores vibrantes, cenas descritivas e nostálgicas de Washington Heights, o longa mostra a jornada dos personagens em busca de seus sueñitos e os problemas com eles. Por exemplo, enquanto Usnavi quer voltar para a República Dominicana e Vanessa quer ser uma estilista, Nina, durante a música Breathe, expõe a dificuldade de manter seu sonho devido a crises de identidade, desigualdade social e o medo de decepcionar aqueles que acreditam nela.

No entanto, nem todas as performances conseguem manter o mesmo nível de qualidade e sentimento. Isso porque, ao tentar fazer algo criativo e diferente, a produção deixa grande parte das performances artificiais e semelhantes a comerciais de fim de ano. 

A exploração da subjetividade dos personagens com panos caindo do céu ou rabiscos e desenhos saindo de suas mãos não funcionou da forma que pretendiam. O único momento que o uso deu certo foi em Paciencia y Fe, com o metrô cheio de jogos de luz para representar a chegada dos latinos aos EUA, e When The Sun Goes Down que tenta mostrar os personagens no “topo do mundo”. A cena de abertura e No Me Diga são outras cenas musicais magníficas.  

Outros pontos negativos são o enquadramento 21:9 com muitos close-ups, que faz o telespectador perder muitos detalhes, e os cortes exagerados que parecem não ter significado ou motivo. Porém todos esses defeitos são deixados de lado na segunda parte do filme. A partir da cena de jantar, que precede a música The Club, em diante, o longa é mágico. Principalmente pois, embora Chu não tenha experiência em musicais, ele sabe gravar cenas com famílias. Por isso, todas as que contêm Abuela e sua casa são aconchegantes e tocam quem assiste. 

A comunidade, por sua vez, precisa lidar com muitas dificuldades e as enfrenta unida, com música e celebrando a hereditariedade latina e sua cultura, como em Carnaval Del Barrio, cena mais emocionante e marcante de toda a obra. Por fim, Champagne é gravada em um plano sequência que fazia falta na película e dá lugar à química inegável de Melissa e Anthony.

Sem dúvida as músicas da obra são incríveis, bem escritas, com rimas inteligentes e geniais na forma que se conectam. O responsável por isso é Lin-Manuel Miranda (Hamilton), que faz o personagem Piraguero no filme. Entretanto, em seu próximo projeto, espero que ele fique apenas atrás das câmeras e escrevendo trilhas musicais, pois sua atuação e cantoria desagradam grandemente.

Além disso, a adaptação do musical para o roteiro cinematográfico apagou enredos importantes e tirou a relevância de uma das principais músicas: 96.000. A cena musical é bem construída e coreografada, mas diferente da versão teatral, o enredo que envolve o prêmio de loteria só é explorado no final, quando o telespectador já esqueceu disso. Uma das alterações ruins, também, foi a exclusão das músicas de Nina e sua família.

Em Um Bairro em Nova York, um casal formado por um homem e uma mulher na frente de uma grande ponte suspensa sobre uma lagoa.

Nina e Benny no bairro Washington Heights. [Imagem: Divulgação/Warner Bros. Pictures]

Tal mudança foi um desserviço para o filme, tendo em vista que, além da obra possuir baixa representatividade de afro-latinos de pele escura, as músicas da protagonista negra foram cortadas e seu namorado, Benny, que também é preto, não recebe um final como os outros. Quando questionado sobre isso, o diretor disse que os afro-latinos de pele escura estão presentes como figurantes como se já fosse suficiente e Melissa Barrera, que tem a pior atuação de todo o elenco, argumentou que, apesar de muitas pessoas negras nas audições, os diretores de elenco escolheram aqueles que eram para ter sido escolhidos.

A imigração ilegal que envolve Sonny (Gregory Diaz VI), primo de Usnavi e colega de trabalho, e a gentrificação, como uma crítica às políticas imigratórias dos EUA, são desenvolvidas superficialmente. Ou seja, o que era pra ser os antagonistas do longa são pouco aprofundados. A única diferença é que a gentrificação é citada mais vezes e perceptível implicitamente.

Certamente os pontos altos do filme são as músicas ricas, a atuação de Anthony Ramos e sua linda voz, a ambientação nostálgica no bairro de Washington Heights e a representação latina que, infelizmente, possui erros. Ao lado disso, o filme parece definir uma nova era para musicais hollywoodianos, que desde La La Land — Cantando Estações (La La Land, 2016) estão tentando voltar a tomar espaço novamente no cinema. Espero que dê certo e que traga mais diversidade do que a era de ouro do gênero em 1960, como Em um Bairro em Nova York tenta fazer.

Nota do Cinéfilo: 4, Muito Bom!

O longa estreou semana passada nos cinemas brasileiros. Confira o trailer legendado:

*Imagem da capa: Divulgação/Warner Bros. Pictures

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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