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‘Rita Lee: uma autobiografia musical’: um espetáculo que viaja para outros mundos

Do primeiro disco voador ao descanso cercado por plantas, a emocionante trajetória da rainha do rock é contada do jeito que Rita desejava
Por Clara Hanek (clarahanek@usp.br) e Isabela Nahas (isabelanahas@usp.br)

Em 2014, Mel Lisboa subiu aos palcos como Rita Lee pela primeira vez na peça Rita Lee Mora ao Lado. A cantora, apelidada carinhosamente como rainha do rock brasileiro, assistiu a uma sessão para a surpresa de Mel, que, emocionada, chegou a chorar no fim da apresentação, quando Rita subiu ao palco para abraçar o elenco. 

Rita publicou sua primeira autobiografia em 2016 e não poupou detalhes sobre sua vida no enredo. A cantora confiou o desejo de que seu livro fosse transformado em peça ao seu amigo — e editor — Guilherme Samora. Assim, nasceu a inédita peça Rita Lee: uma autobiografia musical, escrita por Rita, roteirizada por Guilherme e  produzida por Débora Dubois e Márcio Macena. De acordo com as vontades da cantora, sua personagem foi novamente interpretada por Mel. Rita, inclusive, definiu que queria a mesma atriz representando os diferentes momentos de sua vida e que, para simbolizar a passagem do tempo, ela trocaria de peruca no palco, em frente à plateia. Ela queria que cada penteado retratasse uma de suas eras. 

Rita Lee com sua auto-biografia em mãos
Rita Lee escreveu dois livros autobiográficos. Um é continuação do outro [Imagem: Reprodução/Instagram/@ritalee_oficial]

A peça estreou no dia 26 abril, quase um ano após o falecimento da lenda do rock brasileiro. Com a benção da família Lee de Carvalho, o espetáculo tem encantado os espectadores desde então. 

Os cabelos de Rita Lee

A peça começa com uma mistura agitada de algumas músicas de Rita Lee. Em seguida, Mel Lisboa inicia uma fala que introduz Rita como narradora de sua própria vida. E o resto da peça segue com uma intercalação de músicas, cenas e breves narrações que moldam a vida extraordinária de uma mulher que marcou —e ainda marca— a música brasileira.

A infância de Maria Rita apresenta Mel com uma peruca de cor castanha e marias chiquinhas. O destaque da cena é a relação com o pai, Charles Jones, interpretado por Antonio Vanfill. A forte ligação entre ele e a filha, bem como o apoio de Charles à inclinação musical dela, aparecem no palco em conjunto com a natureza sonhadora e rebelde dele, que reflete em Rita durante toda a vida. 

Já na fase Mutantes, quando a artista fez parte de uma banda com o então marido Arnaldo Baptista e Sérgio Dias, o aplique é trocado por um longo cabelo loiro. É durante esse período que Rita começa a surgir na indústria musical junto aos grandes nomes da MPB

A próxima fase é a do famoso “ruivo menstruação”. Expulsa dos Mutantes e divorciada, a cantora molda uma nova carreira e inicia o lançamento de uma sequência de discos e turnês. Junto com seu maior amor, Roberto de Carvalho, incorporado por Bruno Fraga, Rita Lee enfrenta a ditadura militar com força e som.

O fim, com os cabelos brancos, é de mexer com as emoções de qualquer um. Apesar da melancolia, há uma mensagem clara: as músicas de Rita Lee ainda ecoam no Brasil.

A cantora mais censurada da ditadura brasileira

Os anos de ditadura foram marcantes na carreira de Rita, que chegou a ter um álbum inteiro censurado: o Bombom (1983). Ela também foi presa por acusação de porte de drogas em 1976, quando estava grávida do primeiro filho. A artista disse em seu livro que as substâncias foram colocadas em sua casa pelos próprios militares. 

As cenas de repressão são representadas de forma sarcástica e musical. Os desejos reprimidos dos próprios opressores, a força bruta e a visita de Elis Regina formam uma crítica ácida e divertida, clássica do estilo Rita Lee.

O ativismo de Rita em cena

Rita nunca se considerou feminista e tampouco afirmava ser um ícone do movimento, mas, mesmo sem levantar bandeiras, foi. A abordagem da sexualidade nas suas músicas foi revolucionária para os padrões da época e ela foi uma das mulheres  que mais bateu de frente com o mundo patriarcal na cena cultural brasileira — aspecto explorado na peça. Rita tinha críticas a certas abordagens do movimento feminista, no entanto, quase sem querer, ela foi um símbolo. A perspectiva do “sexo, amor e liberdade” presente em sua discografia  foi emancipatória e libertadora para muitas mulheres.

Ao contrário do feminismo, uma bandeira que Rita levantou — e com vontade — foi a da causa animal. A artista, que era vegana, defendeu inúmeras vezes os direitos dos animais e a alimentação baseada em plantas. Seu ativismo relevante e notável também foi retratado no palco.

Rita Lee cantando em show com roupa que contém o símbolo da paz estampado
A roupa de Rita com o símbolo da paz na gravação do DVD multishow foi reproduzida na peça [Imagem: Reprodução/ Flickr]

A história de amor entre Rita e Roberto de Carvalho

Rita e Roberto compartilharam uma conexão apaixonante que os rendeu três filhos e dois netos. Eles se conheceram através de Ney Matogrosso, na época em que Roberto era o guitarrista do cantor. A primeira interação do casal é tratada na peça com um humor que arranca risadas sinceras de toda a plateia. 

A parceria musical e amorosa se iniciou em 1976 e o amor entre os dois transparece não só no restante de sua família, como também em todas as músicas em que trabalharam juntos, as quais tocam o coração e a alma de milhares de fãs. A performance de Mel Lisboa e Bruno Fraga retrata bem momentos entre Rita e Roberto e encanta os espectadores. 

Performances-destaque

Não se pode deixar de falar das interpretações de outros artistas famosos que passaram pela vida de Rita. Apesar de todos os atores terem feito seus papéis de forma profissional, alguns cativaram mais os olhares —e os aplausos.

Fabiano Augusto dá um show na performance de Ney Matogrosso. O figurino, a voz e os movimentos lembram tanto o artista que nem é necessário introduzir o personagem — a plateia já sabe de quem se trata.

Débora Reis também marca a apresentação. Vestida de Hebe Camargo, a atriz traz a famosa visita de Rita Lee ao programa de Hebe. A risada marcante da apresentadora e o selinho ao vivo, que depois virou costume entre Hebe e seus convidados, fazem a plateia gargalhar.

Por fim, a encenação de Yael Pecarovich como Gal Costa não poderia ser mais emocionante. A voz e a aparência da atriz são tão semelhantes às de Gal que o público consegue sentir a presença da artista, falecida em novembro de 2022. 

Feiticeira: Rita Lee e o envelhecimento

A Rita de cabelos brancos foi quem escreveu o livro que inspirou o enredo da peça. Essa fase possui uma melancolia misturada com um humor que a artista nunca perdeu. E Mel Lisboa consegue trazer essa combinação de sentimentos ao palco. Por isso, as cenas finais são de tirar lágrimas. Rita Lee disse que “tem duas maneiras de você envelhecer. Ou você segue o caminho das peruas ou o das feiticeiras”. E a autobiografia musical deixa claro: a cantora envelheceu como feiticeira.

Mel Lisboa e outros atores do musical contracenando no palco. Em cima deles, um letreiro com o escrito "Rita Lee"
A peça é repleta de músicas de Rita, do início ao fim [Imagem: Clara Hanek]

Informações relevantes

A peça acontece no Teatro Porto, em São Paulo, o preço das entradas varia entre 20 e 100 reais e a classificação indicativa é de 12 anos. Os ingressos foram comprados pelo público tão rapidamente que novas sessões foram adicionadas. No momento, todas estão esgotadas, mas existe a possibilidade de mais sessões serem abertas. Informações sobre possíveis datas extra seriam divulgadas no Instagram oficial da produção @ritaleeumaautobiografiamusical.

*Imagem de Capa: Clara Hanek

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